Entrada do campus da UFSM em Santa Maria.

A Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) está envolvida numa polêmica por uma medida controversa que é o canto do cisne do projeto de Polo Aeroespacial Gaúcho e pode significar uma complicação nos planos da cidade gaúcha de se tornar um polo tecnológico para a indústria de defesa.

O assunto veio à tona na semana passada, com o vazamento na Internet de um ofício, datado de maio, no qual o pró-reitor da UFSM, José Fernando Schlosser, solicita que os responsáveis pelos cursos de pós-graduação identifiquem e apontem a presença de professores e alunos israelenses no campus.

A ordem de Schlosser veio em resposta a uma lista de questionamentos encaminhados à UFSM por um grupo de organizações incluindo o Diretório Central de Estudantes, o sindicato dos professores e o Comitê Santa-mariense de Solidariedade ao Povo Palestino, ainda em agosto de 2014.

O texto pede maiores informações sobre o envolvimento da UFSM no projeto do Polo Aeroespacial Gaúcho, através do qual um grupo de instituições de ensino (incluindo também a Unisinos, Ufrgs, PUC-RS) e empresas gaúchas (Digicon, GetNet e TSM) colaborariam com a empresa de sistemas aviônicos AEL Sistemas, na construção de um nanossatélite no Rio Grande do Sul.

O interesse dos signatários do pedido no tema foi originado pelo fato da AEL ser controlada desde 2001 pela gigante israelense de defesa Elbit, dona de um faturamento de US$ 2,95 bilhões em 2013.

O Comitê de Solidariedade ao Povo Palestino, apoiado por organizações como a CUT, esteve em campanha durante todo o ano de 2014 contra o projeto do Polo Aeroespacial Gaúcho, parte de uma movimentação mais ampla de boicote a empresas israelenses como uma forma de exercer pressão no conflito árabe-israelense.

Um fato chamativo é que a UFSM decidiu dar prosseguimento ao pedido só depois que o projeto do  Polo Aeroespacial Gaúcho já estava oficialmente naufragado, pelo fracasso da AEL em captar os R$ 43 milhões esperados junto a Finep (o total obtido ficou em torno de 10% disso) ou encontrar alternativas, o que ficou patente apenas no final de 2014. 

A universidade santa-mariense parece ter seguido a tônica do governo gaúcho, que passou boa parte de 2013 e 2014 tentando fazer o projeto decolar para depois pular do barco.

A movimentação em prol do programa espeacial gaúcho foi feita por meio de órgãos como a AGDI e a Secretaria de Ciência e Tecnologia. O próprio governador, Tarso Genro (PT-RS), chegou a liderar uma comitiva gaúcha a Israel, que incluiu na sua programação uma visita à sede da Elbit em 2013.

Na época, as conversas estavam no auge e a preocupação com o conflito árabe-israelense não era uma prioridade (é preciso dizer, no entanto, que o tema foi agudizado com os ataques israelenses à Faixa de Gaza, em 2014). 

No entanto, em dezembro de 2014, Genro, então no seu último mês no cargo e já derrotado nas eleições, anunciou o cancelamento do protocolo de intenções do projeto em uma carta à embaixada da Palestina no país.

Assim como Tarso desistiu de um acordo que já não existia na prática, a UFSM se comprometeu a fornecer uma lista, que, caso chegasse a ser compilada, provavelmente não teria nenhum nome, uma vez que, com o Polo Aeroespacial esvaziado, nenhum docente ou estudante israelense deve aparecer um um futuro próximo por Santa Maria.

O problema é que, enquanto a decisão de Tarso fica no campo da malandragem política, a medida da UFSM gerou muita repercussão negativa no curto prazo para a instituição e, pelo menos teoricamente, para o Santa Maria Tecnoparque no médio e no longo.

Uma notícia-crime contra o pró-reitor da UFSM foi protocolada por um professor da instituição na Procuradoria da República do Rio Grande do Sul. O deputado estadual Marcel van Hattem (PP-RS) levou o caso à Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa.

O Ministério das Relações Exteriores de Israel taxou a iniciativa de "indecorosa e racista". O Ministério da Educação, por sua parte, não aceitou o argumento da UFSM de que o pedido da lista estava de acordo com a Lei de Acesso a Informação uma vez que o pedido "viola direitos fundamentais".

Os problemas a médio e longo prazo são menos óbvios. Empresários de Santa Maria ouvidos pelo Baguete temem que potenciais investidores no futuro sejam assustados pela disposição da instituição em abrir dados sensíveis com terceiros.

Criado em 2012, o Santa Maria Tecnoparque tem entre seus objetivos atrair investimentos e pesquisa na área de defesa. O motivo do foco é a grande presença militar na cidade, sede de uma das maiores guarnições militares do país, com 20 mil soldados.

Muitos dos contratos fechados pelas forças armadas envolvem transferência de tecnologia, um fator do qual o parque poderia se aproveitar. 

Em 2012, por exemplo, abriu as portas em Santa Maria a fabricante de carros blindados alemã Krauss-Maffei Wegmann (KMW) na qual é feita a manutenção de  220 tanques recentemente comprados pelos exército brasileiro.

A Elbit é uma fornecedora habitual do Brasil na área, algumas vezes diretamente e outras por meio da AEL, e teriam potencial para acordos semelhantes.

Em março do ano passado, por exemplo, a Elbit vendeu um drone para ser usado pela aeronáutica durante a Copa. O novo aparelho foi operado pelo Esquadrão Hórus da FAB, sediado também em Santa Maria.

Em 2011, a AEL vendeu uma licitação de R$ 440 milhões com o Exército Brasileiro para venda de equipamento para blindados.

Iniciativas de transferência de tecnologia, no entanto, necessariamente envolveriam a UFSM, uma das mais relevantes instituições de ensino superior do Rio Grande do Sul, com 30 mil alunos. O projeto do nanossatélite parecia viável, em parte, pela experiência acumulada pela instituição em pesquisas na área.

Com a decisão de dar continuidade a um pedido que não daria em nada, no entanto, a UFSM comprometeu essa possibilidade.