Carlos Wizard: "Melhor não, obrigado".

Carlos Wizard Martins, fundador da rede de escolas de idiomas Wizard desistiu de assumir a secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos em Saúde do Ministério da Saúde.

A decisão do empresário foi divulgada em uma nota curta neste domingo, 7.

O nome de Wizard surgiu há menos de uma semana, mas a sua nomeação já era dada como certa.

Tanto que Wizard chegou a dar algumas entrevistas, chegando numa delas a dizer que o governo faria recontagem de mortos pela Covid-19, por suspeitas de que os números estariam sendo inflados pelos estados visando obter mais verbas.

A declaração gerou reações negativas fortes ao longo de todo o fim de semana, cujo efeito foi incrementado pela decisão (já revertida) de retirar os dados sobre o total de mortos do site do Ministério da Saúde.

“Tinha muita gente morrendo por outras causas e os gestores públicos, puramente por interesse de ter um orçamento maior nos seus municípios, nos seus estados, colocavam todo mundo como Covid", disse Wizard ao O Globo.

A afirmação gerou reação por parte do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), que reúne os gestores dos 26 estados e do Distrito Federal. O órgão divulgou no sábado, 6, uma nota em que repudia as afirmações de Wizard.

Na nota, os secretários estaduais classificam a acusação como uma "tentativa autoritária, insensível, desumana e anti-ética de dar invisibilidade aos mortos pela Covid-19".

Talvez mais importante do que a pressão do Conass em nível institucional tenha sido o prenúncio de uma campanha de boicote contra negócios dos quais Wizard é dono ou tem participação.

O perfil do Twitter Sleeping Giants, que vem conduzindo uma campanha de pressão para que marcas deixem de anunciar em sites classificados pelos organizadores como de divulgação de fake news, mudou um pouco seu foco para mirar em Wizard.

Ao longo do domingo, 7, o perfil postou a declaração de Wizard sobre a possibilidade dos números de mortos pelo Covid-19 serem inflados em tweets dirigidos a Number One Inglês, Topper, Rainha do Brasil, KFC, Pizza Hut, Taco Bell e Mundo Verde, pedindo um “posicionamento” e exortando as marcas a “repudiar” os mesmos.

Desde a fundação, no dia 18 de maio, o Sleeping Giants já conseguiu fazer 130 marcas retirarem campanhas feitas por meio de plataformas de marketing digitais de diferentes sites.

Entre as companhias que cederam às demandas da conta, atualmente com mais 358 mil seguidores no Twitter, estão nomes como Adidas, Carrefour, LATAM, Samsung e Santander.

Uma prova de que o temor de repercussões não é infundado é que a Pearson, gigante multinacional que comprou a Wizard em 2013 por R$ 2 bilhões, divulgou uma nota se distanciando do fundador da empresa.

"Salientamos que não há qualquer vínculo da Wizard com o empresário Carlos Martins, com nenhum governo, nem com partidos políticos”, disse a empresa em nota.

Com a desistência de Wizard, um dos postos mais importantes do Ministério de Saúde segue em aberto, assim como a posição de ministro, tudo isso no momento em que o Brasil parece rumo de se tornar em breve o epicentro mundial da pandemia. 

O cargo está vago desde 22 de maio, quando da saída do professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Antonio Carlos Campos de Carvalho, uma indicação do ex-ministro Nelson Teich, cujo sucessor ainda não foi definido.

A secretaria é estratégica, pois coordena parcerias com o setor privado para a fabricação de medicamentos e outros insumos. 

O órgão também analisa pesquisas sobre medicamentos utilizados no tratamento da Covid-19.