Wecsley Fey, retail technology manager da Pandora e aluno de mestrado da Unisinos. Foto: Jackson Freitas.

Ah, Amado Brasil! País de muitas oportunidades, barbaridades e desafios. Nosso contexto econômico nos coloca a prova todo o santo dia, seja no desenvolvimento de produtos, na gestão de projetos, na reformulação de processos.

Impostos, encargos trabalhistas, corrupção, demandas judiciais, elevados custos de importação resultantes da nossa pouca expressividade no mercado internacional. Eis o famoso Custo Brasil, um oponente de peso em um ringue que não foi feito para amadores.

Segundo o IBGE (instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) através da pesquisa POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares) em 2018 mais de 70% da população brasileira possuía uma renda de até R$5.724,00, cerca de 5 salários mínimos.

Famílias classificadas como Classe A representavam apenas 3% da população total. Um cenário econômico duro e que moldura os aspectos e regras do mercado brasileiro. Remuneração baixa, custos altos. Uma bela foto de como o brasileiro enfrenta round a round desta luta diária contra seu próprio contexto.

Para o lado das empresas, o cenário é bastante similar. O contexto econômico brasileiro castiga os empreendedores que precisam enfrentar atos custos tributários para manter seu sonho de pé.

Segundo o IBGE, a maioria das empresas no país não dura 10 anos, e 1 de 5 fecha após 1 ano. É assustador pensar que somente 25% das empresas nascidas em 2010 ainda continuam de pé.

Empreender no Brasil é pensar como reduzir custos a cada santo dia, a como aumentar margem, a como pagar os funcionários. Um case de sucesso no Brasil é inspirador para qualquer empresário em qualquer parte do mundo.

O dia-a-dia de um pequeno empreendedor brasileiro pode ser tornar uma rica aula para o mais alto empresário norte-americano, país mais rico do mundo.

Inovar dentro deste contexto não é algo fácil (e será ainda mais difícil no futuro). O "bum" da busca pela inovação disruptiva está desacelerando, seja pela alta liderança de players maiores e mais ricos quanto pelos altos custos e riscos deste modelo.

Para atender ao contexto deste emergente e desafiante contexto brasileiro, as empresas precisam buscar diferenciação em seus produtos com custo baixo e alto valor agregado, se encaixando nas regras da busca de oferta e demanda equiparada ao poder de compra do cidadão brasileiro.

Pois bem, é tempo de apresentar o ator principal desta fábula: A Inovação Frugal.

Uma das contextualizações formais mais difundidas sobre Inovação Frugal a define como "inovações de baixo custo, para extremidades inferiores não atendidas pelo mercado de massa" (Chaisung Lim, Takahiro Fujimoto, 2018).

Isto quer dizer que a Inovação Frugal visa inovar com baixo custo, atendendo a uma parte do mercado (população de compra) que não teria acesso a determinada classe de produto se não fosse pelo resultado da frugaridade.

Ao remetermos novamente sobre o contexto brasileiro, não é difícil pensar em uma grande parte da população que não tem alcance a diversas classes de produtos. Enquanto processo, a Inovação Frugal nos remete aquela famosa frase que certamente já ouvimos em nossas organizações: "Fazer mais, com menos".

O Oriente é líder em Inovação Frugal. A Índia, uma das pioneiras do processo, vem colhendo frutos da Inovação Frugal desde a década passada.

O famoso Tata Nano, conhecido como o carro mais barato do mundo, foi considerado símbolo de frugaridade em seu lançamento. Com um custo de cerca de US$2.000,00, buscava atingir a base da pirâmide de consumo da Índia.

Em termos de produto, não obteve tanto sucesso quando sua fama, porém se tornou base de diversos estudos sobre como inovar com baixo custo e alto valor agregado.

Como sucesso em termos de produto, podemos citar o Nokia 1100, um modelo básico, durável e com uma lanterna embutida, além de chamadas de voz, e serviço de envio de texto. Mais de 200 milhões de unidades foram vendidas em apenas 4 anos após o seu lançamento, se tornando o telefone mais vendido de todos os tempos.

Com um cenário macroeconômico e campo tão árido para a frugaridade, por qual motivo não vemos cases assim tão expressivos no Brasil? A Inovação Frugal não parece "um mar de oportunidades" para o contexto brasileiro?

No Brasil, talvez o case mais famoso que resultante de Inovação Frugal seja o famoso tanquinho de lavar roupas. Com o alto custo de uma máquina de lavar, o lançamento do tanquinho de lavar elétrico foi um grande sucesso no país.

Um produto mais barato e muito melhor do que os antigos tanques de concreto. Baixo custo e alto valor agregado. Check-Mate.

A Inovação Frugal ainda é pouco explorada no Brasil. Continuamos como coadjuvantes, dentro de um mar de oportunidades. A frugaridade pode nos ajudar a vencer nosso próprio contexto, mas infelizmente ainda assistimos muitas empresas quebrarem buscando a disrupção ou a cópia de produtos importados, entregando "produto de rico, com qualidade de pobre".

A crise que estamos passando por consequência da COVID-19 tem despertado o estudo sobre o tema, esperança para teremos mais cases de sucesso no futuro.

Segundo estudo realizado pela ABStartups (Associação Brasileira de Startups) em 2017, 77% das startups brasileiras focam seus negócios em clientes corporativos, além de quase metade delas (44%) focarem em modelos SAAS (Sofware como Serviço).

Este mapa pode nos ajudar a entender o pouco protagonismo em Inovação Frugal do Brasil: A alta busca por negócios amplamente escaláveis e pouca busca pelo desenvolvimento e inovação de produtos carentes no mercado brasileiro. Nem tudo é software.

Olhar para dentro, analisar nosso contexto, nossas necessidades, pode ser um caminho. Por sermos um país em desenvolvimento, temos a ânsia de querer chegar no topo, de criar alta tecnologia, de revolucionar mercados.

Muitas vezes buscamos "a inovação da lacração", mas esquecemos das necessidades do nosso próprio país. Talvez se começarmos a entender um pouco mais nosso próprio mercado e contexto, poderemos enxergar oportunidades e necessidades até então escondidas.

Inovaremos para nós mesmos, com resultados inclusivos, produtos de qualidade e resultados socieconômicos que irão contribuir para o crescimento do nosso país.

O Brasil é frugal há muito tempo. Um aluno tímido, mas que já poderia ser o professor.

*Por Wecsley Fey, retail technology manager da Pandora e aluno da disciplina de Gestão da Inovação, ministrada pelos professores Dr. Alsones Balestrin e Dr. Daniel Puffal, no Mestrado Profissional de Gestão e Negócios da UNISINOS - Universidade do Vale do Rio do Sinos e Université de Poitiers.