Depois de 10 anos, comunidade do software livre está em encruzilhada. Foto: Eduardo Seidl/Indicefoto

O Fisl 14, encerrado em Porto Alegre neste sábado, 06, mostrou a comunidade de software livre numa encruzilhada no que tange a adoção de open source no governo, o grande comprador desse mercado no Brasil.

Depois de 10 anos de uma política em nível federal visando privilegiar a adoção de soluções abertas no governo, os resultados ainda são inconclusivos – alguns grandes órgãos públicos, como a Caixa, estão retrocedendo.

Ao mesmo tempo, começam a entrar em cena softwares hospedados em nuvem. Muito mais econômica, a nova opção sabota o discurso de corte de custos que era uma das armas do movimento frente ao software proprietário e coloca no lugar um discurso menos convincente sobre segurança tecnológica e desenvolvimento nacional.

“Temos que voltar a discutir o que o país ganha com o software livre. O nosso discurso não pode ser sobre preço, tem que ser sobre onde queremos estar em 10 anos”, afirmou Deivi Lopes Kuhn, coordenador estratégico de software livre do Serpro e secretário-geral do Comitê de Software Livre no Governo Federal.

O “onde vamos estar” passa principalmente pelo desenvolvimento de tecnologia made in Brazil e o controle de dados por parte da administração, em um discurso turbinado pela descoberta de que a Agência Nacional de Segurança americana estava coletando dados sobre conversas telefônicas e e-mail de cidadãos americanos e brasileiros.

“Nosso produto é tão qualificado quando o da concorrência e não está sujeito a espionagem”, resumiu Marcos Mazoni, diretor-presidente do Serpro, ao anunciar o lançamento do Expresso V3, suíte de produtividade em nuvem da estatal construída para competir com o Google Apps for Business e Office 365 na administração pública.

A dúvida é se o governo terá condições de competir na nova área de computação em nuvem, uma vez que o escândalo desatado pelo ex-agente da CIA Edward Snowden saia do noticiário e a discussão fique em assuntos mais prosaicos como preço e funcionalidades.

O Expresso V3 custa um terço do que o Google Apps, mas oferece caixas de 500 MB, metade do que o Google dava de graça em 2004, para comparar a feature disponível publicamente no momento. Em buscas por conteúdos de e-mails, dificilmente a estatal baterá a gigante americana, que faturou US$ 50 bilhões ano passado.

Os últimos números sobre adoção de software livre no governo são de 2009 e mostravam um cenário pouco animador fora da área de servidores. Os softwares de e-mail abertos eram os únicos com liderança de uso, com 55%. Em suítes de escritório, o número era 15% e em sistemas operacionais, 5%.

As cifras hoje podem ser piores – o que justificaria a não divulgação de novos dados – já que alguns órgãos retrocederam na adoção de software livre. A Caixa gastou R$ 112 milhões em  um pacote que envolvia a compra de milhares de licenças de Office, Exchange, Lync, Sharepoint, bancos de dados SQL e um longo etc.

Entidades empresariais que consideram a preferência por software livre uma distorção promovida pelo governo no mercado tem afiado seu discurso e partiram para a ofensiva nos últimos anos.

"O Brasil perdeu dez anos anos insistindo com software livre enquanto outros países apostaram em  redes, nuvem e em outras tecnologias que dominam o mercado”, fulmina o presidente do conselho da Abes, Gerson Schmitt.

A entidade na qual Schmitt presidente o conselho reúne 1,5 mil empresas brasileiras e multinacionais baseadas em software proprietário com faturamento de US$ 14 bilhões ao ano, muitas das quais perderam negócios nos últimos anos pelas exigências do governo [A Allen, vencedora do pregão da Caixa, é associada da Abes, por exemplo].

“Dados da ONU apontam que o Brasil caiu da 18º para a 56º posição no ranking de e-gov desde 2002. Todas as grandes inovações brasileiras nessa área, a urna eletrônica, o imposto de renda online e outros são anteriores”, critica o empresário.

Schmitt cita um levantamento da IDC pago pela Abes apontando que as empresas nacionais de software livre sobrevivem em média menos de um ano e geram um apenas 4% do faturamento do setor, sendo que desse total, 66% são compras públicas.

Para o presidente da Abes a ênfase em software livre só produziu estatais inchadas tentando fazer de novo o que já foi feito – o Serpro já tem mais de 10 mil empregados. “É um absurdo que as duas maiores empresas de TI do Brasil sejam públicas. Essa coisa do Expresso, algum país faz isso?”, questiona Schmitt.

Mais atrito deve vir para frente, porque pelo que se pode ouvir no Fisl, parte da estratégia do governo é “retribuir” os ganhos com o uso de software livre por meio de investimentos diretos no desenvolvimento das soluções.

“Todos os nossos portais são construídos em cima de Zope e Plone e no entanto a contribuição do Serpro no desenvolvimento é muito pequena”, exemplificou Mazoni, citando o caso da dobradinha de  gerenciamento de conteúdo e servidor de aplicações usado em muitos sites do governo.

Durante o Fisl, um representante do Ministério do Planejamento adiantou ao Baguete que o governo planeja investir R$ 2 milhões em melhorias no software de gestão para municípios e-Cidades, através do Serpro ou de uma fábrica de software terceira, visando resolver problemas de 55 cidades que relataram bugs.

O e-Cidades é parte ainda de um pacote de gestão na nuvem que o Serpro deve oferecer para 80 cidades brasileiras com menos de 50 mil habitantes, 15 delas na região sul, dentro do Programa Cidades Digitais no que será visto pelas entidades de TI como mais intromissão indevida.

Onde tudo isso vai acabar? Parte da resposta estará no Fisl 15, que acontece no ano que vem em Porto Alegre.