José Domingos Favoretto. Foto: Nabor Goulart

Uma das aplicações mais comentadas da mobilidade, o pagamento móvel, tem na sigla TSM, do inglês Trusted Service Management, seu “mundo dos sonhos”.

É o que define José Domingos Favoretto Jr., gerente de Arquitetura de Soluções do CPqD, que palestrou no Fórum de TI do Banrisul nesta quinta-feira, 10, em Porto Alegre, e defende a instituição de uma entidade de TSM como substituta das tradicionais redes de captura para evoluir o mobile payment a um nível de liberdade total para o usuário.

Trocando em miúdos: atualmente, o cliente de cartão de crédito, por exemplo, faz suas operações e paga para a bandeira específica do cartão, ou o correntista usa a função de débito para pagar suas contas, todas pelo mesmo banco onde tem a conta.

Nestes casos, a rede de captura é a bandeira do cartão, ou o banco onde se tem a conta, e não é possível, por exemplo, usar um cartão de crédito de uma determinada administradora para fazer compras de outra, ou efetuar pagamentos debitados de contas em diversos bancos com o mesmo cartão.

Com o TSM dos sonhos, isso seria possível, explica Favoretto.

“O TSM controlaria a rede e permitiria aceitar transações realizadas pelo cliente, com um único dispositivo, para diversos fornecedores – bandeiras de cartão de crédito, bancos,serviços diversos etc”, comentou o gestor.

Candidata

Um papel que, segundo Favoretto, o CPqD é forte candidato a assumir

“Teria de ser uma entidade isenta, e por isso o CPqD é um bom nome, mas não poderia fazer nada sozinho. Precisaríamos de parceiros, e a Gemalto, que já tem soluções e projetos do gênero fora do país, seria um indicado”, destacou.

O CPqD é uma instituição independente com foco em P&D na área de TIC, com soluções utilizadas por diversas organizações de Telecom, energia, setor financeiro, industrial, corporativo e governo do Brasil.

Já a Gemalto, que é francesa e especializada em soluções de segurança digital como cartões de identificação eletrônicos, cartões de débito/crédito com chip e pagamento contact less entrou na história por cases como o que realizou em 2011 para a Chase, braço de serviços bancários da JPMorgan.

Para a Chase, a Gemalto forneceu sua solução de TSM para a plataforma de pagamento móvel de toda a empresa.

Pelo contrato, a Gemalto faz gestão do ciclo de vida, emissão e personalização das ferramentas de pagamento, e, com a infraestrutura de TSM integrada à sua plataforma de mobile payment, a Chase carrega uma versão digital do cartão de um cliente na carteira móvel deste, em tempo real.

A partir disso, o cliente pode fazer transações em pontos de venda físicos ativados por NFC (Near Field Communication), bastando para isso aproximar o celular do terminal POS.

Ou seja: uma entidade, como o CPqD, seria o gestor de rede geral, e uma empresa, como a Gemalto, forneceria a solução para as empresas da ponta, basicamente.

E o mercado, concorda?

Para Favoretto, esta será uma “briga boa”, especialmente no que tange às operadoras de Telecom, já que é pela rede delas que os celulares têm conexões para realizar qualquer transação.

Neste caso, acordos entre operadoras e administradoras de cartão, por exemplo, perderiam o caráter de exclusividade.

“Acredito que uma ação regulatória é fundamental. Pode ser por parte do governo, o que catalisaria este processo, mas pode também não ser. Há que se estudar”, pondera o gerente.

Compota de interesses

Um páreo ainda longe de ser definido, segundo a analista de Pequisas em Telecomunicações do Gartner, Elia San Miguel, também palestrante do Fórum de TI do Banrisul.

“As operadoras são muito conservadoras”, disparou a especialista.

Segundo ela, o âmbito do pagamento móvel se desenha em um ecossistema formado pelos braços financeiros (bancos, etc), operadoras e fornecedores de tecnologia para os dispositivos e redes.

“Neste meio, é preciso resolver muitas questões. Por exemplo: de quem é o cliente, do bando, da administradora de cartão, ou da operadora de Telecom? São questões ainda a serem respondidas”, cutucou.

Sem contato

Participante do mesmo painel no Fórum, o gerente de Marketing e Vendas da HT Micron, Leandro Profes, também enfatizou o ecossistema do mobile payment, e lançou outra questão: a da massificação do uso, para popularização das tecnologias.

“As classes C e D têm mais celulares, em número, do que muitos usuários das classes A e B. Não é este o problema: celular, tem, mas há que se pensar na ampliação do uso tanto dele quanto de outras tecnologias de m-payment, a preços menores”, afirmou.

Entre as “outras tecnologias”, Profes destacou o Near Field Communication, que se adéqua ao conceito de contact less, ou dispositivos que permitem fazer transações apenas aproximando-se uns dos outros, sem necessidade de conexão ou qualquer contato direto.

Por exemplo: não seria necessário ter bateria no celular para fazer um pagamento se o dispositivo receptor atuar em NFC, já que este leria o chip do celular e... pronto, tudo pago.

Da mesma forma com o contact less, tecnologia em que máquinas habilitadas para transação por aproximação via radiofrequência identificam o símbolo dos cartões de crédito e permitem o pagamento sem que o cliente precise encostar a tarjeta no equipamento, evitando desgaste do chip.