Acabou a luz?

Nunca antes na história as inovações se sucederam com tanta rapidez e produziram tantos ganhos de produtividade como hoje em dia. O Vale do Silício é o coração de uma revolução sem precedentes.

Será mesmo? Um artigo da edição da The Economist deste sábado, 12, faz uma discussão interessante sobre o impacto econômico real das inovações das últimas décadas.

Vozes como o excêntrico investidor Peter Thiel já têm dado a nota dissonante - “queríamos carros voadores, ganhamos 140 caracteres”, debocha Thiel, para quem a inovação nos Estados Unidos está “em apuros ou morta” – mas uma série de estudos de economistas apontam dados que fazem pensar.

Para os chamados “pessimistas da inovação”, o papel da adoção de novas tecnologias como motor de crescimento econômico no século XX se esgotou e que as últimas novidades já não tem o mesmo resultado quando se exclui o hype e se olham os números.

Os pesquisadores apontam que o crescimento impulsionado pela tecnologia – o que sobra do crescimento do PIB depois de excluído o impacto de fatores como trabalho, capital e educação – está em queda nos países desenvolvidos e só aumenta nos em desenvolvimento porque estes ainda estão cobrindo o gap que os separa da turma de cima.

Dados citados pela The Economist mostram que o crescimento de produção por pessoa nos Estados Unidos ficava em uma média anual de 2,5% na metade do século passado. O ritmo levou a produtividade e a renda a dobrar em uma geração.

Nos anos 70, o ritmo de crescimento caiu do pico pós Segunda Guerra Mundial de 3% para 2%, para ficar abaixo de 1% nos anos 2000.

Economistas ouvidos pela publicação vão mais longe ao apontar que os últimos dois séculos de crescimento podem ser na verdade uma exceção à regra até então prevalencente no progresso material da civilização.

Após anos de progresso fora do comum, o mundo estaria voltando a uma ordem de coisas na qual o crescimento será produto de um uso mais intensivo de capital, trabalho ou recursos e não inovações tecnológicas disruptivas.

Para esses economistas, as inovações fundamentais nas áreas de energia, transportes e telecomunicações já foram feitas. Acréscimos futuros não teriam o impacto relativo que a eletricidade, o motor de combustão interna e o telefone tiveram no seu momento.

Outros, mais otimistas, reconhecem a possibilidade de inovações de maior impacto no futuro, mas destacam que elas serão mais dificultosas e menor número: transformar terabytes de dados sobre o genoma em benefícios para a saúde é bem mais difícil do que descobrir e fabricar antibióticos em massa.

A segunda linha de argumentação tem a ver com o próprio retorno das atividades de P&D das empresas.

Apesar da parcela do PIB dedicada a pesquisa ter aumentado um terço nos Estados Unidos desde 1975, para quase 3%, pesquisas apontam que em 1950 um pesquisador contribuía sete vezes mais para o crescimento econômico do que seu colega nos anos 2000.

A explicação seria que, à medida em que as ideias se acumulam, fica mais e mais demorado para um pesquisador chegar nas fronteiras da sua área da ciência, a partir da qual ele pode fazer uma contribuição relevante.

Um contraponto a essa visão pessimista da capacidade de novas invenções contribuírem para o avanço econômico poderia estar na área de TI, que constituiria em tese um novo campo de conhecimento capaz de entregar ganhos de produtividade extra.

Os pessimistas apontam que o efeito de toda essa tecnologia ainda não apareceu nas estatísticas que medem o ganho de  produtividade da força de trabalho americana, além de um pequeno incremento nos anos 90.

É na interpretação sobre o papel que a TI exerceu ou pode vir a exercer é que está a disputa, aponta a The Economist.

De acordo com a publicação, outras análises apontam que o crescimento nos anos 90 pode ter sido um resultado da entrada na economia das empresas fabricantes de computadores, celulares e software. O ganhos gerados pela adoção dessas tecnologias seria uma progressão exponencial ainda nas suas primeiras fases.

Inovação e tecnologia, ainda que usados como termos intercambiáveis, estão longe de ser a mesma coisa, avalia a publicação. Caixas de metal e motores a diesel foram inventados ao redor de 1900, o uso de transporte por containers começou nos anos 50 e o impacto total da novidade no comércio global chegou décadas após isso.

Tecnologias como veículos autônomos, computadores capazes de entender a linguagem natural e o controle de equipamentos por movimento e a impressão 3D ainda estão na infância e podem produzir impactos futuros na produtividade, destaca a The Economist.

Mais do que isso, as trajetórias do crescimento propulsionadas pela tecnologia não precisam necessariamente ser crescimento ou declínio imparáveis. Outras pesquisas apontam que mesmo os ganhos gerados pela eletricidade vieram aos tropeços entre o final do século XIX e o XX, numa curva que lembra os da TI.

Desde esse ponto de vista, a diminuição da contribuição das novas tecnologias para o crescimento econômico é uma pausa, não uma inflexão permanente, produto da exaustão das inovações anteriores, enquanto a computação, a biotecnologia e as comunicações pessoais ganhavam impulso.