Sede da Procempa em Porto Alegre.

A Procempa, estatal municipal de processamento de dados de Porto Alegre, enviou uma nota oficial para a reportagem do Baguete contestando informações divulgadas recentemente pelo prefeito, Nelson Marchezan Júnior (PSDB).

Durante palestra na Associação Comercial de Porto Alegre (ACPA) em 28 de fevereiro, Marchezan disse, segundo relatado pelo Jornal do Comércio e repercutido pelo Baguete, que a Procempa teria um “déficit” de R$ 90 milhões em 2017.

Na nota enviada ao Baguete, e provavelmente também ao Jornal do Comércio (veja a íntegra no final do texto), a Procempa afirma que esse valor se refere ao valor total previsto no ano de 2018 para os serviços que a Procempa presta para todos os órgãos da Prefeitura de Porto Alegre.

A empresa, no entanto, tem a cautela de se referir “à matéria publicada pelo Baguete”, sem mencionar o nome do prefeito, que nomeia o presidente da Procempa e é a fonte original da informação.

Desde a campanha eleitoral, Marchezan mencionou a Procempa em diferentes ocasiões e contextos como um exemplo de empresa estatal que custava caro demais para a prefeitura e seria um alvo para venda ou redução drástica.

Durante encontro com entidades de TI gaúchas, em setembro de 2016, Marchezan falou aos empresários presentes que a Procempa era “mais cara do que Porto Alegre pode pagar”. 

O então candidato listou como problemas altos salários “50 pessoas ganhando R$ 50 mil, operadores de call center ganhando R$ 8 mil” e o alto custo dos serviços oferecidos “R$ 650 por ponto de rede, incluindo conexão e sistemas”.

Na mesma ocasião, disse que “sinceramente, não sabia o que fazer com a Procempa”, preferindo questionar os presentes sobre se eles achavam que os valores cobrados estavam dentro da realidade de mercado.

Em sua nota, a Procempa rebate muitos dos argumentos do prefeito, citando por exemplo a participação da estatal no orçamento da cidade, que teria caído de 3,20% em 2008, para 1,88% em 2017, com perspectiva de chegar a 1,33% em 2018.

A empresa também afirma que desde 2016, não reajusta seus contratos com a administração pública, que não há previsão também para elevação dos valores em 2018, e que os preços praticados são “periodicamente monitorados em relação ao mercado”.

Independente do mérito da questão, a decisão da Procempa de argumentar publicamente contra o prefeito, mesmo que de maneira indireta, é fora do comum e um sintoma dos problemas de comunicação e relacionamento interno que são uma das características mais fortes do governo Marchezan até o momento.

Em novembro, o diretor-geral-adjunto do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae), Rafael Zanette, pediu exoneração, tornando-se a 15° desembarque do governo em cargos estratégicos de primeiro e segundo escalões.

Assim como muitos dos seus antecessores, Zanette justificou a decisão por “motivos pessoais”, o que a essa altura já se tornou um eufemismo para “problemas de relacionamento com o prefeito”.

Os campeões de baixas até o momento são o DMLU, que perdeu dois diretores-gerais em menos de dois meses, e a Carris, cuja primeira baixa veio em fevereiro, menos de um mês depois da nomeação.

Uma das saídas foi na própria Procempa, onde em agosto do ano passado o diretor técnico Michael Costa pediu para sair depois da revelação pela Zero Hora de um suposto conflito de interesse do empresário em um projeto da estatal.

O prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan Júnior (PSDB), teve mais uma baixa na equipe de governo com a saída do diretor-geral-adjunto do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae), Rafael Zanette. A exoneração foi divulgada nesta terça-feira, no Diário Oficial de Porto Alegre (Dopa).

Desde o início da gestão Marchezan, esse é o 15° desembarque do governo em cargos estratégicos de primeiro e segundo escalões.

O presidente da Procempa é Paulo Miranda, ex-secretário Municipal da Informação e Tecnologia da Prefeitura de Curitiba.

A nomeação de Miranda foi interpretado por muitos como uma sinalização de mudanças, uma vez que a capital paranaense não tem uma estatal municipal de processamento de dados.

Esse papel é executado pelo ICI (Instituto das Cidades Inteligentes), uma associação sem fins lucrativos focada em fornecer soluções de tecnologia para diferentes prefeituras, incluindo a capital paranaense.

O modelo poderia ser a base para uma futura PPP que diminuísse o tamanho da Procempa, mas o assunto não andou. Apesar de todas as afirmações de Marchezan, nenhuma mudança mais radical parece ter acontecido na empresa.

A decisão da Procempa de vir a público defendendo a continuidade da sua operação no modelo atual (duas semanas depois das declarações do prefeito, o que indica uma decisão ponderada) parece sinalizar um desalinhamento entre os planos da companhia e os planos do prefeito, seja lá qual for o grau de consistência deles.

Até agora, o resultado desse tipo de choques tem sido um só. 

Veja a nota da Procempa:

Tendo em vista a matéria publicada pelo Baguete, em que é atribuído à Companhia de Processamento de Dados do Município de Porto Alegre (Procempa) um déficit de R$ 90 milhões, temos a esclarecer o que segue:

1 – O valor referido (R$ 90 milhões) é o valor total previsto no ano de 2018 para os serviços que a Procempa presta para todos os órgãos da Prefeitura de Porto Alegre. Assim, corresponde ao custo total dos serviços e não a um déficit.

2 – A Procempa vem desenvolvendo esforços contínuos de redução de custos e aumento de produtividade. Como resultado, nos últimos dez anos, a participação do custo dos serviços da Procempa sobre o orçamento total da prefeitura caiu de 3,20% em 2008, para 1,88% em 2017, e projeta 1,33% em 2018.

3 - Desde 2016, a Procempa não reajusta seus contratos com a administração pública e não há previsão também para elevação dos valores em 2018.

4 – Por fim, desde 2017 os preços praticados pela Procempa são periodicamente monitorados em relação ao mercado, assegurando, além da qualidade técnica, o melhor resultado econômico para o Município.

Esforços de aumento de produtividade são intensificados nesta gestão, assim como a busca de parceiros que permitam à Procempa ampliar a agregação de tecnologia aos processos e serviços da prefeitura, em benefício da população de Porto Alegre.