Sady Jacques.

A realização do Fórum de Software Livre e a continuidade da Associação Software Livre, responsável pela organização do evento, estão sob risco devido a problemas de financiamento.

Sady Jacques, coordenador geral da Associação Software Livre, enviou um email nesta segunda-feira, 13, reforçando a divulgação de uma campanha de doações lançada pela entidade há algumas semanas, a primeira do tipo na história de quase duas décadas do Fisl, este ano na sua 17ª edição.

“Ainda não conseguimos recursos suficientes, há pouco mais de 30 dias de seu início, para fazer o evento sem grave prejuízo para a manutenção das atividades da Associação Software Livre”, explica Jacques no texto.

De acordo com o coordenador geral da ASL, a organização chegou a considerar a possibilidade de cancelar o evento, marcado para acontecer de 13 a 16 de julho no Centro de Eventos da PUC-RS, mas decidiu por continuar.

Até agora, foram arrecadados R$ 21 mil de 144 doadores. Na prática, a ASL vai bancar um evento reduzido com recursos do seu caixa e aguardar por uma melhoria do cenário de patrocínios para o ano que vem.

O quadro de patrocinadores para este ano é quase inexistente. Não foi adquirida nenhuma cota ouro. O CPD da Ufrgs e a Rede Nacional de pesquisa uma prata cada uma.  Os patrocínios em nível bronze também são dois, do Banrisul e o Governo do Rio Grande do Sul.

O governo federal, que no ano passado patrocinou o evento através do Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Datasus e Empresa Brasileira de Comunicação, além de diversos ministérios, está totalmente ausente.

De acordo com Jacques, a ASL já esperava uma redução no volume de patrocínio vindo do governo federal devido às restrições orçamentárias em Brasília. Com o processo de impeachment da presidente Dilma, a diminuição virou bloqueio total.

O coordenador geral da Associação Software Livre atribui o corte de verbas federais a uma combinação das indefinições da  transição de poder nos múltiplos escalões do governo com a política de austeridade fiscal em curso. 

No Serpro, estatal federal de processamento de dados que é uma das apoiadoras mais tradicionais do Fisl, uma nova presidente só foi nomeada em 23 de maio, quase duas semanas depois da posse do presidente interino Michel Temer. 

Jacques diz que pleitear apoio do governo federal segue na pauta da ASL, independente da coloração política de turno. Como isso vai funcionar na prática precisará ser visto.

A história do Fisl está intimamente ligada a diferentes administrações petistas. A primeira edição, em 2000, aconteceu durante o governo de Olívio Dutra (PT) apresentando cases de quase uma década de adoção de software livre nas gestões petistas de de Porto Alegre nos anos 90.

Com a chegada do PT a Brasília, o evento começou a receber o apoio continuado de empresas públicas e ministérios e passou por uma era de expansão, chegando ao recorde de 8,2 mil inscritos em 2009 (no ano passado, foram cerca de 5 mil).

Profissionais ligados ao software livre em Porto Alegre, como Rogério Santanna e Marcos Mazoni, chegaram a altas posições em Brasília, como a presidência da Telebras e do Serpro. Marcelo Branco, presidente da ASL por um período, chegou a trabalhar com iniciativas de mídias sociais na primeira campanha de Dilma Rousseff para a presidência. 

Em nível estadual e municipal, essa associação não prejudicou o Fisl, com governos de diferentes matizes apoiando o que viam como um evento benéfico para Porto Alegre. Ainda neste mês, foi aprovado um projeto de lei que inclui o evento no calendário oficial da cidade.

A situação de tempestade perfeita sobre o Fisl (patrocinadores privados como Google, Intel, Oracle, que participavam em outros anos, também sumiram do mapa devido à crise) explica parte dos problemas da ASL, mas também pode haver outras questões de fundo.

É uma queixa frequente de profissionais de TI presentes nas primeiras edições que com o passar dos anos o Fisl se tornou “ideológico demais”, à medida em que o movimento se integrava com a pauta da esquerda de maneira geral.

Em alguns eventos, isso significou uma tentativa complicada de equilibrar pautas pautas como direitos autorais e a ala mais governamental do movimento, e um lado mais pró-negócios e não necessariamente de esquerda.

É uma discussão que tem implicações na escolha de definições como software livre ou open source, por exemplo, além de uma série de discussões para iniciados sobre distribuições de software e terminologia, em meio a uma comunidade bastante segmentada.

Se o Fisl quiser continuar, essas questões acabarão vindo à tona.