Cylon Gonçalves da Silva.

O Ceitec assinou nesta sexta-feira, 14, um convênio com a Casa da Moeda do Brasil para a produção do novo chip do passaporte brasileiro. Inicialmente, só o projeto será daqui, com fabricação por parceiras de países não revelados.

Não há projeção de quando o chip possa começar a ser fabricado na planta gaúcha.

“Seria muito dispendioso implantarmos uma fábrica para esta tecnologia”, comentou o presidente do Ceitec, Cylon Gonçalves da Silva. “O projeto já está em andamento e a cabeça de série (protótipo final, testado e aprovado para produção) deve sair no começo de 2014”, completou.

Silva não comenta o potencial de lucro a ser arrecadado com o novo chip, apenas afirma que “é um negócio permanente”, já que, conforme divulgado pelo presidente da Casa da Moeda, Francisco Franco, a instituição emitiu 2,1 milhões de passaportes em 2011 e este ano devem ser 100 mil a mais.

Os documentos deste ano ainda utilizarão chips projetados e produzidos no exterior. Onde, especificamente, Franco alega questões de segurança para não revelar.

A FÁBRICA É NOSSA

Fato é que, depois do Chip do Boi – primeiro produto de prateleira do Ceitec, que há pouco ganhou sua primeira revendedora, a Fockink, de Panambi, interessada em adquirir 500 mil das 1 milhão de unidades que devem estar disponíveis ainda este ano -, a planta porto-alegrense vai fazer dinheiro.

Até porque, agora é dona do próprio nariz – ao menos em relação à operação e manutenção da fábrica, já que a gestão segue sendo público/privada.

No fim de 2011, o Ceitec recebeu do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) a posse da fábrica de Porto Alegre, passando a ter autonomia na planta, que tem potencial para produzir 70 milhões de chips/ano.

Em julho passado, a unidade começou a fabricar suas primeiras lâminas de silício, procedimento que faz parte da transferência de tecnologia de fabricação XC06 (CMOS 600 nanômetros) para fabricação do Chip do Boi, hoje produzido pela alemã X-Fab.

A meta é concluir a transferência de tecnologia e iniciar a produção local deste chip em Porto Alegre em julho de 2014.

ABRINDO O ESCOPO

Outros projetos em andamento dão noção do interesse do Ceitec em caminhar para uma atuação mais “aberta”, fora de padrões atrelados ao governo, como evidenciam o Chip do Boi, que se vincula a políticas estatais de rastreabilidade bovina, e o do passaporte, documento cedido e gerido pelo governo.

Na esteira dos novos projetos vêm acordos fechados com nomes como HP Brasil, que no fim do ano passado testou com sucesso em seu Centro de Excelência em RFID o chip CTC13000, projetado pela empresa gaúcha para identificação de itens em mercados como logística, varejo e área de saúde.

A ideia da HP é utilizar o microcircuito, que já entrou em produção, em impressoras. O pedido em orçamento inclui 18 milhões de unidades do CTC 13000.

Outro caso é o Argentum, que vem sendo desenvolvido em parceria com a gaúcha Novus para ser usado em cargas perecíveis, com o objetivo de medir e registrar a temperatura, transmitindo os dados por radiofrequência.
Isso permitirá o uso do chip em mercados como os de alimentos e medicamentos.

Exemplos de uma mira na iniciativa privada. Mas o foco no governo não para no boi e no passaporte: o Ceitec também testa o chip o Siniav, baseado em RFID UHF para identiridação de veículos pelo Sistema Nacional de Identificação Automática de Veículos, do governo federal.  

Outro em fase de testes é o chip Aurum, baseado em RFID HF para rastreabilidade de produtos perecíveis, que tem como maior cliente potencial a Hemobrás, empresa brasileira de plasma sanguíneo em implantaçao em Pernambuco.

De olho nas duas áreas, pública e privada, em 2011 o Ceitec realizou cinco tape-outs (prototipagem de chips) e mais de 100 prospecções de negócios.

GRANDE STARTUP
Com a autonomia da fábrica e o crescente interesse do mercado em seus produtos, o Ceitec se encaminha de uma instituição 100% detida pelo governo federal, como era na época de seu lançamento, que consumiu investimento sem torno de US$ 40 milhões, para uma empresa – ainda não totalmente privada, mas já bastante independente.

A definição do presidente, entretanto, é modesta.

“Somos uma startup. Uma empresa relativamente pequena em um mercado grande. E como toda startup, nosso prazo médio de retorno do investimento com geração de fluxo de caixa é em torno de sete anos”, comentou Silva.

Isso para chegar ao equilíbrio financeiro. A amortização, esta ainda está bem longe.

“Amortizar é muito difícil, ainda vai levar muito tempo”, avalia Silva. “Por isso o governo está aqui. Se fosse fácil amortizar, o setor privado é que estaria”, completa, referindo-se aos investimentos na planta.

Previsão que talvez adie os planos anunciados em 2009, pelo então presidente Eduard Weichselbaumer, de alteração no controle do centro de design de chips de uma S.A em mãos do governo federal para abertura de capital em três anos.

Silva não comenta tais planos, mas o próprio Weichselbaumer já avaliava, na época, quesitos que podem soar como dificuldades.

Segundo analisou o presidente do Ceitec em 2009, os custos administrativos da organização são altos, na faixa dos 20%, quando uma empresa privada do ramo fica em 7%. Na diferença fica a margem de lucro.

Ainda para Weichselbaumer, o ritmo da administração pública não funciona no mercado-alvo do Ceitec.

“Não temos controle de nenhum recurso natural, como petróleo. Precisamos competir com agilidade em nível mundial”, afirmou, na época, o então presidente.

EQUIPE EM EXPANSÃO
Hoje, o Ceitec emprega 160 colaboradores, dos quais 142 são brasileiros e outros 18 provindos de 13 países.

Em março passado, abriu um concurso público com 186 novas vagas.

A previsão, segundo Silva, é encerrar os testes e abrir prazo para recursos até o fim de setembro, iniciando as contratações no final de outubro deste ano.