Julian Izquierdo, o aluno gaúcho do Nave.

Julian Izquierdo largou o terceiro ano do ensino médio em Porto Alegre para voltar ao primeiro ano em uma escola no Rio de Janeiro. Por quê? O jovem gaúcho de 17 anos quer fazer carreira na área de informática e essa foi a maneira que ele encontrou de tentar.

Izquierdo é um dos 421 alunos do Colégio Estadual José Leite Lopes/Nave, uma instituição de ensino carioca administrada em regime de parceira pública privada pela Secretaria de Educação do estado e a Oi, no qual cursos de programação, games e interatividade digital fazem parte do currículo.

“Meu sonho é me formar em Ciências da Computação, trabalhar com informática e um dia conhecer o Vale do Silício. Não vi como fazer isso em Porto Alegre”, explica o rapaz, que é uma pessoa tímida, mas não esconde o entusiasmo ao falar nos equipamentos de última geração disponíveis na escola, nas aulas de programação em JavaScript e na possibilidade de conseguir um estágio na área.

Izquierdo sempre estudou na rede pública de ensino gaúcha. Diz que um curso técnico na área de informática estava fora das possibilidades econômicas da família e temia não conseguir passar no vestibular da Ufrgs com a qualidade do ensino à que tinha acesso.

No Nave, as aulas vão das 7h às 17h – uma jornada mais extensa dos que os famosos CIEPs, que funcionam das 8h às 15h – e o currículo é composto de dois terços do conteúdo normal da rede pública de ensino, ministrado por professores concursados, e um terço de atividades extra por docentes pagos pela Oi Futuro, braço de responsabilidade social da operadora.

O currículo puxado não assusta os candidatos, que se inscrevem em peso para entrar na escola número 1 do Enem carioca. No último processo seletivo foram 3,6 mil disputando 160 lugares, 90% destinados a alunos da rede pública, 5% da particular e 5% deficientes . São 22,5 por vaga, quase a metade da proporção de Medicina na Ufrgs.

A qualidade de ensino tem seu preço. Cada escola Nave – existe outra no Recife – custa à Oi Futuro R$ 3 milhões por ano somando os salários dos professores extra e renovação bianual das máquinas. É um custo mensal de R$ 700 por aluno, sem incluir os gastos do governo. O Anchieta, um dos colégios mais caros de Porto Alegre, cobra R$ 1.138 de mensalidade.

Desde o início da experiência, que começou em 2006 em Pernambuco e em 2008 no Rio, a Oi já gastou R$ 42 milhões no projeto Nave, sigla para Núcleo Avançado em Educação, valor que inclui a construção de uma escola em Recife e a reforma total de uma velha central telefônica no bairro carioca da Tijuca.

José Augusto Gama Filho, presidente da Oi Futuro, diz que a intenção da Oi não é expandir mais o programa. “Educação é um papel do governo, que nós não podemos assumir. O objetivo é criar um modelo que os interessados possam reproduzir, com a nossa ajuda”, explica o executivo.

Rondônia já assinou um convênio com a Oi para introduzir duas escolas dentro do modelo e o Distrito Federal já teria manifestado interesse. A Microsoft reconheceu a escola carioca como uma das 33 mais inovadoras do mundo – e segunda da América Latina, junto com um caro colégio particular colombiano – durante uma cerimônia realizada nesta quinta-feira, 14.

No Rio de Janeiro, os planos da secretaria da Educação passam por ter 75 escolas na rede no mesmo molde até 2023. Uma parceria já foi iniciada com a Embratel, que oferece formação na área de telecomunicações e outra com a Embaixada da França,  em francês e gastronomia.

“O Nave foi a primeira PPP da educação pública carioca e é hoje um sucesso. Num momento em que o Ministério da Educação discute o futuro do ensino médio, acredito que é uma referência”, aponta Antônio Neto, subsecretário de educação carioca.

E NO RIO GRANDE DO SUL?
E o Rio Grande do Sul, terra de onde Julian Izquierdo deu no fora para ter uma carreira na área de Informática? Bem, a afirmação do jovem de que ele não tinha nenhuma opção de formação em TI no ensino médio em Porto Alegre não é verdade. Ele tinha uma.

Na capital gaúcha, a escola estadual Protásio Alves oferece formação em TI desde 2007. Fora da cidade, as opções são Solon Tavares, em Guaíba, e o Liberato, em Novo Hamburgo. Uma tentativa foi feita na escola municipal Emílio Meyer, mas foi abandonada.

As opções não tem a visibilidade e o impacto do Nave porque não tem os milhões da Oi por trás, é lógico, mas também porque impedimentos ideológicos e barreiras estabelecidas no ensino à aproximação com o mundo empresarial, afirmam fontes próximas ao assunto ouvidas pelo Baguete Diário.

As escolas bancadas pela Oi foram construídas do zero, tanto em termos de estrutura física como de pessoal. “Acredito que parte do sucesso na nossa experiência é que os professores querem trabalhar aqui. A seleção é tão disputada quanto a dos alunos”, revela Ana Paula Bessa, diretora do José Leite Lopes/Nave.

O currículo todo foi remontado na escola carioca. Uma aula de matemática pode incluir fazer um game sobre operações e uma de português pode incluir a redação de biografias em 140 caracteres. Os professores da rede pública são treinados para essa abordagem integrada e recebem um pagamento adicional pelas horas extra.

No Rio Grande do Sul, a opção foi por incluir desenvolvimento como uma atividade a mais, sem mexer no currículo tradicional, formando professores de carreira para as disciplinas extra – alguns até acabaram deixando o ensino devido aos novos conhecimentos – e mantendo o controle total da atividades.

A exceção é o Liberato, que é visto como exemplar na maneira como encaminha estudantes para estágios e permite às empresas pagar bolsas aos estudantes, influindo também no currículo. Mas a abordagem não foi exatamente uma mudança. Fundado em 1967, o Liberato sempre focou em ensino técnico de profissões para as empresas do Vale dos Sinos.

No Rio, os professores do currículo técnico vem da PUC-RJ. São pagos, mas sem dúvida seu trabalho têm uma parte de compromisso social. “Temos um professor da área de games que tem duas empresas”, comenta Izquierdo, sem esconder a admiração.

A meta não é tanto empregar os alunos – ainda que esse seja um subproduto, com estudantes sendo contratados para estágios em empresas – mas aumentar a aprovação no vestibular.

Dos alunos que concluíram o ensino médio no último ano no José Leite Lopes/Nave, 63% passaram em vestibulares da rede pública de ensino ou conseguiram bolsas integrais na rede particular. É o triplo da média da rede carioca.

Os nomes dos aprovados passam em telões dentro da escola, que destacam também a posição no Enem relativo à média estadual, em mais um aspecto do que parece ser a introdução de uma cultura de reconhecimento de resultados e meritocracia no ensino público, outros dois assuntos que já causaram fortes manifestações contrárias dos sindicatos de professores no Rio Grande do Sul.

O problema não é a possibilidade de uma migração de jovens talentos gaúchos como Izquierdo. O rapaz está no Rio morando com o irmão, que é programador e sem dúvida parte responsável pelo fascínio por tecnologia do irmão mais novo. Fora o jeito meio nerd e o fato de ter duas cabeça a mais de altura que a maioria dos colegas, ele não tem maiores problemas de adaptação.

Na verdade, o problema é mais sutil e bem mais grave. O problema são outros jovens na rede de ensino pública com as inclinações de Izquierdo, mas sem o conhecimento de opções de adquirir uma educação capaz de abrir portas em uma área promissora na qual eles podem ser bem sucedidos pelo seu esforço pessoal.

As vagas estão aqui, os jovens inteligentes estão aqui. O problema não são tanto milhões de reais a menos, mas algumas dezenas de ideias atrasadas a mais.

* Maurício Renner viajou ao Nave no Rio de Janeiro à convite da Oi.