Folhas de papel impressas com letras de forma. Foto: flickr.com/photos/jeffeaton/

Meu primeiro emprego na imprensa foi no Hoje, um jornal diário da minha cidade, São Leopoldo, na região metropolitana de Porto Alegre. Eu comecei lá em algum ponto logo depois da queda das Torres Gêmeas.

Sabendo do destino trágico da publicação, eu gosto de brincar hoje em dia que Hoje era um nome muito apropriado para o jornal, uma vez que ele tinha pouco ontem e quase nenhum amanhã. 

A redação do Hoje ficava em duas salas numa galeria comercial a céu aberto no centro de São Léo, parecido com esses shoppings novos que fazem hoje em dia, só que com muita  personalidade e quase nenhuma loja dentro.

Na entrada, ficava a clássica barbearia dos Três Velhinhos, chamada assim porque, bem, a equipe era composta de três velhinhos, dos quais só um estaria trabalhando em qualquer momento do dia, fazendo um dos três cortes de cabelo oferecidos no local.

Os outros dois ficariam parados na porta, olhando as moças passando na Rua Grande, a grande artéria do centro da cidade. O Hoje, os três velhinhos e o prédio não existem mais. O prédio aliás, foi demolido e virou uma loja horrível da Radan. Radan: tsc, tsc, tsc.

Analisando com frieza, o Hoje era um empreendimento fadado ao fracasso em uma indústria que já então dava sinais preocupantes. Um jornal, 100% em papel. Mesmo em 2001, uma má ideia.

Para agravar, os fundadores tinham capital limitado e a missão de competir com o poderoso jornal VS, uma das publicações do Grupo Sinos, cujos jornais circulam há décadas e seguem circulando hoje na região do Vale do Rio dos Sinos. 

É um mistério para mim o que os fundadores do Hoje queriam fazer. Esse é o lado obscuro da visão empreendedora: às vezes, onde parece que não tem nada, não tem nada mesmo; quando todos dizem que é algo é impossível, eles podem muito bem estar certos. 

De todas formas, eu acabei trabalhando lá, assim como outras pessoas. Lições foram aprendidas. Eu gosto de rememorar meus dias como repórter do Hoje, sempre que a ocasião permite e em algumas vezes em que não permite também. 

Você agora pode estar se perguntando porque diabos eu estou falando de um jornal que não existe mais aqui no Baguete. Acredite, eu também não sei. Às vezes o cara simplesmente precisa fazer algo.

Mas vamos ver. O Baguete é um site de tecnologia, isso é a Internet e a Internet gosta de posts com mensagens práticas, de preferência organizadas em listas, com palavras chave e alguns aspectos realçados em negrito.

Muito bem, vou seguir as minhas reminiscências sem propósito organizando minhas memórias sobre o Hoje em três tópicos de uma lista chamada “Três observações para analisar se sua startup é uma canoa furada mais um bonus track”. Vamos lá:

Observe sua liderança.

Como eu disse, as intenções dos fundadores do jornal Hoje eram e permanecem um mistério para mim. Até onde eu lembro, eles eram dois, um com gravata e outro sem, ambos sempre de óculos escuros e com o cabelo lambido para trás. 

Pelo o que eu consegui pescar na época, eles eram ex-funcionários do VS e estavam apostando tudo em criar um competidor. Talvez eles conhecem as fraquezas do líder do mercado. Por outro lado, eles com certeza superestimaram as suas próprias forças.

Já no segundo mês de existência da publicação os salários da equipe começaram a atrasar. O tema logo se tornou uma nuvem pesada dentro da redação. A moral estava baixa. 

Um dia, visando desanuviar o ambiente, eu decidi fazer uma brincadeira com um dos meus dois superiores imediatos, o José Carlos (nomes foram alterados por razão de falta de memória).

Eu me aproximei dele depois do almoço e disse: “José Carlos, encontrei um meio de fazer a gente ser pago”. Abrindo a carteira, eu tirei de dentro dela uma imagem de Santo Expedito, padroeiro das causas impossíveis e entreguei para ele, com um ar sério.

Era quando eu esperava que ele fosse dar uma risada e amenizar a situação. O riso é o melhor remédio, etc. No lugar disso, ele abriu a própria carteira e me entregou outra imagem de Santo Expedito, que ele mesmo já carregava: “Valeu Maurício, vai dar tudo certo”.

A lição a ser tirada é: se a liderança da sua empresa parece que não sabe o que faz e a gerência média parece desesperada, talvez você esteja numa fria.

Observe os stakeholders da sua organização.

O jornal Hoje não oferecia vale refeição, mas tinha estabelecido uma permuta com o Buffet, um restaurante de buffet a quilo que ficava a poucas quadras de distância. Todos os dias, comandas do restaurante eram distribuídas aos funcionários, que podiam então ir almoçar sem pagar.

Na época, eu achava o sistema ineficiente: porque não distribuir comandas por um mês inteiro de uma vez, ou adotar algum outro sistema de identificação? 

Hoje eu sei que, como muitos outros jovens antes de mim, eu achava que seria capaz de melhorar as coisas, quando na verdade somente não tinha a menor ideia do que estava acontecendo.

O que estava acontecendo é que o dono do Buffet não estava mais interessado em alimentar 20 pessoas em troca de anúncios em um jornal que ninguém lia. 

De uma forma ou outra, no entanto, a gerência conseguia manter ele dentro, muitas vezes com base numa negociação diária, que resultava nos vales entregues cada vez mais tarde. 

O dono do restaurante nos olhava com animosidade crescente na saída, até o dia que ele cancelou definitivamente os vales.

Isso foi só o começo: o nosso motorista, um senhor careca que dirigia um Del Rey Azul ao qual ele se referia apenas como Azulão, um dia deixou de vir, deixando os repórteres a pé. Foi a mesma coisa com as faxineiras, quando o lixo passou a se acumular pelos cantos. 

O golpe final foi quando a dona da lanchonete do andar de baixo, que costumava vender lanches fiado (incluindo aí o copo de Coca a 25 centavos), um dia anunciou a um colega surpreso que não poderia continuar, devido aos rumores crescentes de fechamento do jornal.

No final das contas, apenas os remanescentes da redação seguiam adiante, sem vales, sem fiado na lanchonete e com as lixeiras transbordando. Eles não tinham um plano melhor. 

A lição a ser tirada é: se todos os stakeholders de um empreendimento que podem dar o fora o fazem, deixando só quem não tem um plano B no barco, é provável que quem deu o fora esteja certo.

Observe a você mesmo.

Eu quase não tinha experiência profissional ao ser contratado pelo Hoje. Meu portfólio se resumia a matérias publicadas no Diário Sapucaiense, incluindo temas como destinos de férias favoritos dos sapucaienses e uma entrevista com o dono de um “drive”, no qual era possível estacionar um carro para “namorar” (o dono se orgulhava muito do cuidado com as plantas que garantiam a privacidade do clientes).

No entanto, eu era amigo do Alex, que era amigo da editora chefe do jornal. Ser amigo do Alex é o meu melhor conselho profissional para alguém: por causa dele eu consegui aquele emprego no Hoje, mas também uns anos depois este aqui do Baguete, no qual eu estou até agora.

Eu era um rapaz esperto, mas sem exageros. Mesmo assim, eu assumi toda a editoria de esportes do jornal, incluindo uma coluna de opinião. O detalhe é que eu sabia muito pouco do assunto. O que eu fazia era ligar para o meu irmão e perguntar o que ele achava sobre coisas, para depois adornar as opiniões dele com trocadilhos.

Do meu lado se sentava um cara magro e alto chamado Cristian, que em algum ponto começou a fazer uma coluna sobre cultura pop no jornal. Eu comecei a ajudar. Logo, a diretoria ampliou o nosso espaço de uma coluna para uma página inteira. 

Nossas colunas eram boas? Vai saber. Mas nós tínhamos uma grande capacidade de preencher folhas de jornal, um artigo em falta a medida em que os repórteres do jornal Hoje debandavam e os anunciantes não apareciam. Se o jornal tivesse durado mais um mês, eu e o Cristian teríamos feito ele sozinhos.

A lição a ser tirada é: se você tem uma trajetória de crescimento profissional fulgurante, pode ser porque você é um excelente profissional, ou simplesmente porque a empresa não tem critérios. Seja humilde.

Bonus track.

Com o tempo, eu fui vendo que eu era capaz de fazer graça com situação do Hoje porque no final das contas não era muito afetado por ela: na época eu morava com meus pais e não conhecia a pressão dos boletos, ou, para ser sincero, qualquer outra.

Um dos fundadores do Hoje perdeu uma propriedade familiar quando o jornal quebrou de vez (o fundador que sempre usava gravata sumiu, deixando o outro numa fria).

Meus editores, que eu considerava anciões do jornalismo, tinham mais ou menos a minha idade hoje. Contas para pagar, filhos pequenos. 

Eu nunca mais vi a maior parte dos meus colegas do Hoje. Cheguei a fazer uma pesquisa no Google para tentar localizar algo, mas é como se ele nunca tivesse existido. Mas ele existiu e deixou lá as suas lições.