Cais do Porto de Porto Alegre. Foto: flickr.com/photos/pernasproar

A Cais Mauá do Brasil, empresa responsável pela revitalização do cais do porto de Porto Alegre, começou a vender os espaços nos antigos armazéns no centro da capital gaúcha, com foco em operações de design e decoração.

“Fizemos um estudo de viabilidade e percebemos que a capital gaúcha não possui um polo de design como São Paulo e Rio de Janeiro. Além da oportunidade de trazer algo novo para cidade, a arquitetura dos armazéns favorece este tipo de operação”, destaca Andre Albuquerque, presidente da Cais Mauá do Brasil.

Além das lojas, está prevista a presença de serviços, gastronomia, cultura e um total de nove praças que vão abrigar espaços para crianças, bicicletários, áreas de estar, de exercícios físicos e áreas gramadas de ócio.

Os espaços serão locados por cinco anos e os empreendimentos nos armazéns deverão começar a operar no primeiro semestre de 2016. 

O anúncio pode ser considerado uma pedra enorme em cima da tumba cheia de cal do plano de representantes do setor de TI gaúcho de que o Cais do Porto de Porto Alegre fosse a versão local do bem sucedido Porto Digital de Recife.

Para ser justo, é preciso dizer que o plano constou da agenda setorial há quase uma década, em 2005, quando o então recém-criado CETI fez uma mobilização liderada pela então presidente César Leite, diretor do Grupo Processor.

Quando depois de algumas indas e vindas [muitas indas e vindas, na verdade] o projeto de revitalização começou a tomar o contorno atual, em 2008, a Assespro-RS também veio a público criticar a ausência de um espaço específico para empresas de TI no novo cais.

Na ocasião, a discussão era sobre as torres comerciais que estão envolvidas no projeto do Cais do Porto, parte de um plano maior com R$ 650 milhões em investimentos e prazo de cinco anos para construção e licenciamento.

Desde então, o setor não voltou a fazer manifestações públicas sobre o tema e parece ter desistido de movimentações de bastidores sobre o plano. 

Uma iniciativa da área, mas não articulada com os outros planos foi a tentativa de levar o Fórum de Software Livre para o local em 2010, que acabou abortada de última hora em meio a temores sobre a ausência de infraestrutura para um evento de 8 mil participantes no local.

A ideia das entidades de TI é que um espaço específico para empresas de TI fortaleceria a “marca” de Porto Alegre como um polo de tecnologia, e, por tabela serviria como um apelo de marketing para as próprias empresas.

Com a visibilidade, estaria aberta a possibilidade para legislações específicas, recursos e outros incentivos para o desenvolvimento da área. A compensação para os operadores do Cais seria a circulação de um grande número de profissionais com altos salários no local.

A lógica tentou ser posta em prática mais uma vez em agosto de 2010, quando um grupo de 14 empresas de TI tentou se organizar com ajuda do Seprorgs para obter facilidades da prefeitura para converter um prédio no centro da cidade em um destino exclusivo de tecnologia, em uma iniciativa batizada de Tecnocentro.

Os participantes tinham em vista três prédios na região da rua Sete de Setembro, com espaço total disponível de 21 mil m2. A ideia era aproveitar os aluguéis mais baixos, as facilidades de transporte e o grande número de instituições de ensino presentes na área. O plano afundou.

No ano seguinte, a prefeitura fez algum barulho em torno do projeto da Região de Potencial Tecnológico (Repot), batizada com o chamativo nome de Lomba do Silício.

A ideia era estabelecer regras mais flexíveis para empresas de tecnologia se instalarem que se inicia no Ceitec – na Lomba do Pinheiro – até o centro Histórico de Porto Alegre. 

O trocadilho era bom e uma lei chegou a ser encaminhado ao Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano Ambiental, mas desde então não se ouviu mais nada sobre a iniciativa. 

No  site Guia ICT de Porto Alegre, organizado pela prefeitura, o link para o projeto aparece somente com um texto de preenchimento, sem informações.

Outro projeto que daria mais visibilidade ao setor de TI de Porto Alegre é o parque tecnológico da UFRGS, no Campus do Vale. A iniciativa não está morta, mas se arrasta desde 2010 por uma combinação de fatores.

Em entrevista ao Baguete em setembro de 2011, o recém nomeado diretor do Parque Científico e Tecnológico da federal gaúcha estabeleceu como prazo para os primeiros prédios para meados de 2013, o que não aconteceu.

O projeto de parque tecnológico da UFRGS já teve um começo difícil, precisando enfrentar o lobby contrário de estudantes ligados ao PSOL, PCdoB e PSTU, com o apoio de organizações como a Via Campesina e o Movimento dos Trabalhadores Desempregados.

Segundo o Baguete pode averiguar com fontes próximas, o projeto encontra-se atualmente atolado na prefeitura, esperando diversos licenciamentos.

Para os leitores que chegaram até aqui, aos quais me resta cumprimentar pela resistência, fica o prêmio do exemplo positivo. 

O Tecnopuc inaugurou no final de 2011 o Portal Tecnopuc, um edifício de R$ 21 milhões financiados por Caixa-RS e BNDES que sozinho dobra o espaço disponível no parque de tecnologia com 22 mil m2 adicionais.

Mas Tecnopuc, aberto desde 2003 e um dos pioneiros da cena de parques tecnológicos do país, já sinalizou que seus investimentos daqui para frente não serão concentrados em Porto Alegre.

Depois de reformar totalmente o antigo quartel do 18º Regimento de Infantaria de Porto Alegre, onde hoje estão abrigadas 120 organizações, empregando 6 mil funcionários, a PUC-RS tem atualmente seus olhos voltados para a expansão do parque em Viamão, na região metropolitana.

Foram investidos R$ 3,5 milhões na ala frontal do antigo seminário de Viamão, disponibilizando uma área de quase 5 mil m2 para instalação imediata de novas empresas no local, pertencente à mesma ordem religiosa da PUC-RS.

A prefeitura da cidade apresentou um projeto de lei que possibilita até 100% de isenção dos impostos municipais pelo prazo máximo de cinco anos para novas empresas e deve apresentar em novembro outra iniciativa reduzindo alíquotas de ISSQN, hoje variando entre 3% e 5% para o mínimo de 2%.