Balde de água fria no setor de tecnologia. Foto: flickr.com/photos/juldavs

Representantes das operadoras de telecomunicações aproveitaram um painel na Futurecom nesta quarta-feira, 15, para dar o seu recado sobre a viabilidade do badalado conceito de Internet das Coisas (IoT, na sigla en inglês) no mercado brasileiro: nem tudo é a alegria que parece.

O recado das operadoras, que se escudaram nas deficiências da legislação sobre telecomunicações para como uma defesa para a parca infraestrutura, é um balde de água fria no buzz que chegava por aqui gerado por fabricantes de hardware como Dell, Cisco e HP, assim como consultorias como Gartner e IDC.

"O que ainda precisa ser feito? Precisamos de conectividade. As operadoras já têm um trabalho enorme para conectar pessoas, imagina o que teremos pela frente para conectar aparelhos vivendo o cenário que todos enfrentamos no mercado", disparou Leonardo Capdeville, chefe de Tecnologia da TIM Brasil.

Roberto Piazza, diretor de Negócio Digitais da Vivo, sinalizou para o potencial da aplicação da IoT no cotidiano dos usuários, mas foi cauteloso ao comentar sobre a demanda real da tecnologia no país.

"O que temos mesmo dando certo apesar dos obstáculos que temos no mercado são os meios de pagamentos por meio das máquinas de cartão. Temos algo envolvendo medição residencial inteligente e alguns recursos em veículos. Mas devemos ficar um tempo restritos a poucas aplicações", disse o executivo.

O discurso escolhido pelas operadoras TIM e Vivo, dos dois principais players que atuam no país, é importado em parte da discussão mundial em torno dos aparelhos conectados, na qual imperam os argumentos em favor do IoT, esgrimidos por players que não precisam enterrar cabo para fazer o conceito existir.

Uma pesquisa realizada pela Ericsson em 2013 projeta até 2020 que cada habitante do país terá sete interfaces de M2M no seu cotidiano. O mercado é estimado em US$ 7,1trilhões para 2020.

"Isso pode acontecer, mas será que teremos antenas suficientes para isso? Veja, não é um problema de tecnologia, é basicamente um conjunto de fatores que esbarram na regulamentação das antenas no país", explica Capdeville.

A menção às antenas que carregam os equipamentos de conexão e distribuição de rede serve de agente de pressão ao governo federal, sobretudo ao desempenho do Ministério das Comunicações e da Anatel no trato com os trâmites relacionados ao tema em Brasília.

"As operadoras têm planos de instalar antenas e as que não podem pleiteiam que sejam compartilhados os ativos. Enquanto isso, deve existir um movimento na esfera federal que simplifique as regras de instalação e agilize as licenças", conta Piazza, da Vivo.

Maximiliano Martinhão, secretário de Telecomunicações do Ministério das Comunicações, reconhece que a qualidade da rede e a regulamentação das antenas são pontos que precisam avançar em Brasília, mas que, entretanto, a adoção da tecnologia no país depende também de questões que envolvem a indústria, como padronização de protocolos e investimentos no desenvolvimento de software que irão rodar nos equipamentos conectados.

"O governo desonerou o mercado de M2M no país para fomentar a exploração da tecnologia. Foi um corte de 80% no Fistel. Agora, quem vai definir qual protocolo usar e quem vai projetar os sistemas necessários para que decole, isso cabe às empresas", disse o secretário.

A verdade, no entanto, é que qual será o padrão que viabilizará o ganho de escala do IoT ainda é um debate em aberto, sendo travado em uma esfera distante das operadoras e players de tecnologia brasileiros.

Hoje existem três diferentes consórcios pra estabelecer as tecnologias que nortearão a IoT.

A ideia destes consórcios é lançar especificações para que desenvolvedores criem ações sinérgicas que melhorem os fluxos entre sistemas operacionais, dispositivos no caso, “as coisas”.

Dell, Intel e Samsung revelaram uma aliança focada em automação residencial. Batizada de Open Interconnect Consortium, a iniciativa ambiciona definir standards para comunicação entre máquinas (M2M).

Outra iniciativa é a AlSeen Alliance, puxada pela Qualcomm e que conta com LG, AT&T e Microsoft entre seus 51 membros. 

Vale lembrar ainda que, em março, IBM, Cisco, Intel, AT&T e GE formaram um consórcio para derrubar barreiras e impulsionar envolvendo o conceito de internet das coisas “entre todos os setores da indústria”.