Valério Regente.

A BITS - Business IT South America, feira irmã da Cebit cuja quarta edição foi encerrada em Porto Alegre nesta quinta-feira, 15, terminou com resultados para todos os gostos. 

Ao mesmo tempo em que a estimativa de negócios subiu, assim como o número de empresas participantes, a metragem e o público caíram. A quinta edição está confirmada, devendo acontecer entre 11 e 13 de agosto de 2015, novamente na Fiergs.

Em nota, a organização comemora os “melhores números de todas as edições”, destacando uma projeção de negócios futuros fixada em US$ 31 milhões, 2,3 vezes mais do que no ano passado e a participação de 240 empresas, uma alta de 15%.

Ao mesmo tempo, o número total de visitantes foi de 7 mil, frente aos 12 mil do ano passado, e a metragem total vendida ficou 4.439 metros quadrados. Foi a primeira vez que a organização divulgou sua área exata. Em outros anos, as estimativas ficavam na faixa dos 5 mil.

“Observamos uma qualificação muito grande do público, que não cresceu em relação aos anos anteriores, mas esteve presente quem realmente quer comprar, vender ou obter conhecimento”, defende Constantino Bäumle, diretor da Hannover Fairs Sulamérica. 

Bäumle também frisa o aumento do número de rodadas de negócios dentro do  BITS Business Matchmaking, o número de CIOs presentes no CIO Project [60, três vezes mais do que na última edição] e outras atividades paralelas relacionadas a games, telecomunicações, setor público e entidades. 

Nos bastidores, circulou a informação de que a feira entrou no azul pelo primeiro ano. O dado não foi confirmado oficialmente.

O que uma caminhada pelos corredores da BITS revela, no entanto, é uma feira cada vez mais dependente de apoio institucional para operar.

A grande maioria dos expositores estava em estandes coletivos, com participações subsidiadas por Sebrae, Rede CIN/Apex e os governos de português, indiano, argentino e alemão. 

Os patrocinadores foram quase puramente institucionais, incluindo Sebrae-RS, Prefeitura de Porto Alegre, Procempa e Unisinos. No ano passado, integravam a lista a Totvs e GetNet.

Apenas 15 empresas bancaram seus próprios estandes, todas em áreas de menor destaque. Todas optaram pelo stand mais básico, sem os investimentos em apresentação que se viram nas primeiras edições, quando empresas como Locaweb e Teevo apostaram em estandes chamativos. Assim como em outros anos, não houve presença de grandes multinacionais de TI.

Valério Regente, novo diretor da Hannover Fairs Sulamérica, que em um ano deve substituir Bäumle no comando da empresa, reconhece a dependência crescente da BITS de apoiadores institucionais, mas acredita que o apoio deve continuar.

[Sendo justo, é fato que o Forum Internacional Software Livre, case de sucesso de Porto Alegre no quesito feiras de tecnologia, segue operando em grande parte devido ao apoio de estatais ligadas ao governo federal, defensoras da causa. Também é preciso destacar que o desenvolvimento do setor de TI tem defensores menos apaixonados que os do open source].

A meta de trazer grandes multinacionais de tecnologia para expor na feira também parece deixada de lado. Regente destaca que muitas dessas empresas já organizam seus próprios eventos para o público brasileiro. SAP e Totvs, por exemplo, fazem para milhares de pessoas em São Paulo há anos.

“Todo o conceito de feira está mudando. É preciso se adaptar, não tem receita de bolo para isso”, aponta Regente.

Definir qual vai ser a “fórmula de bolo” para a BITS é justamente o desafio de Regente, que entrou na empresa a partir da aquisição por parte da Deutsche Messe dos 49% de participação na  Hannover Fairs Sulamérica de Bäumle, fechada em outubro do ano passado.

Desde a primeira edição, na qual contou com um empurrãozinho do fator novidade, a BITS parece sofrer com a indefinição sobre qual é o seu target, com um público dividido entre empresas de informática [as rodadas de negócios são entre companhias de tecnologia], curiosos e relativamente poucos compradores.

Nesta edição, a organização colocou ênfase em atrair gestores de informática de porte, no que foi bem sucedida. Compareceram representantes de organizações como Grendene, Herval, AGCO, Artecola e Randon. Os executivos assistiram palestras em um ambiente especialmente preparado.

O público CIO, no entanto, é assediado por uma série de eventos organizados específicamente para esse propósito em resorts com direito a acompanhante. Esse tipo de gestor é também um cliente distante para muitas das empresas de pequeno porte que formam o grosso dos expositores.

Aumentar o volume de possíveis clientes de pequeno porte permanece o desafio. Interlocutores da organização do evento tem fórmulas variadas e contraditórias para isso, indo desde a tentativa de atrair público com shows e atrações para consumidor final até a segmentação por áreas da economia.

Seja qual for o caminho escolhido, existe tempo hábil para articular um futuro mais promissor para a BITS. A Hannover Fairs Sulamérica e a Fiergs, os dois principais parceiros do evento, supostamente tem um contrato de 10 anos [o fato nunca foi confirmado pelas partes].

Mais do que compromissos contratuais, ambas organizações estão envolvidas em uma série de outras iniciativas bem sucedidas como a feira do setor metal mecânico Mercopar e as missões brasileiras anuais para feiras em Hannover, sede da Deutche Messe. É uma família grande e bem sucedida que pode bancar as contas de um primo pobre por um bom tempo.

Mesmo com todos os problemas recentes na Procempa, muitos deles justamente relacionados ao patrocínio de eventos, a prefeitura de Porto Alegre seguiu usando a estatal como um apoiador institucional da feira [o governo do estado, por outro lado, parece ter perdido interesse e nem sequer mandou algum representante para a abertura].

Outro fator positivo é a entrada de Valério Regente. Profissional com 20 anos de experiência na área de TI, tendo sido vice presidente de vendas da Software AG no Brasil e passagens pela BEA Systems, BMC e IBM, Regente pode ter um entendimento melhor das particularidades do setor de TI do que o seu antecessor.

Boa parte da descoberta de uma fórmula de bolo bem sucedida da BITS, no entanto, tem mais a ver com lidar com as contradições e idiossincrasias da gauchada do que com as particularidades do universo de tecnologia. É essa a missão de Regente agora.

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