O MasterChef anunciou seu vencedor no Twitter antes da TV , e deu esse spoiler com orgulho. Foto: Divulgação.

Quando os escafandristas escreverem seus livros sobre a convergência de mídia em 2015, provavelmente vão lembrar do dia em que o MasterChef anunciou seu vencedor no Twitter antes da TV —  e que deu esse spoiler com orgulho.

 

Um milhão e seiscentos mil tweets depois (só durante o programa) e com inserções de interatividade patrocinadas, é necessário dizer que o uso da segunda tela na segunda edição do MasterChef foi um marco na televisão brasileira. Agora, o desafio parece ser evitar o que os diretores de ‘Happy Days’ fizeram com Fonzie: pular o tubarão.

Diz o Maurício Stycer que o resultado comercial do programa foi excelente, “uma dádiva em 2015”, tempos de crise. Durante nove minutos, a Band foi líder na audiência — nove minutos na madrugada, mas ainda assim nove minutos. Em TV aberta, não precisa de muito além de resultado comercial + boa audiência para garantir novas edições, prestígio e dinheiro. Além de tudo, o programa representou uma grande vitória para o Twitter.

Em 2014, ainda no Terra, fui apresentado a várias das ferramentas que o Twitter comercializava para coberturas em segunda tela. Com muitos benchmarks internacionais — especialmente na área esportiva — e parcerias de dados com startups estrangeiras, era de interesse da rede fechar contratos para aprimorar a experiência dos demais veículos de mídia, especialmente a TV.

Na visão de Leonardo Stamillo, líder da equipe editorial do Twitter no Brasil, comprar os dados poderia ajudar o veículo de mídia a ampliar as suas possibilidades comerciais. Foi exatamente o que a Band fez: o momento do anúncio no Twitter foi patrocinado pela TIM.

Nem toda fórmula comercial tem o mesmo sucesso se repetida, mas o sucesso do MasterChef mostra que a tendência é que ESTA fórmula comercial seja repetida mais vezes, por mais redes. Veremos muitos “momentos TIM” decisivos sendo replicados. Não é exatamente uma inovação — programas esportivos e ligas como NBA, NFL e NCAA fazem isso há tempos — mas é, sim, uma alteração de paradigma.

O que não é inovação nem alteração de paradigma é estragar o ritmo e a linguagem do programa por causa disso. Se você tem 1,6 milhão de tweets sobre o seu programa, a presença de “tuiteiros famosos” realmente faz diferença? O programa colocou Preta Gil, Milton Neves e mais algumas pessoas influentes nas redes para falarem por poucos segundos e mostrar “nossa, o Twitter está bombando, uhu”.

A influência do Twitter nos episódios de MasterChef já era medida pelo contador de tweets no alto da tela, pelos gráficos de torcida e de carinho dos chefs e pelos comentários pulando na tela. No primeiro capítulo do programa, com incertezas sobre o sucesso da segunda tela, é aceitável alterar a linguagem para chamar influenciadores. Mas no último? Com o sucesso consolidado, a fórmula estabelecida? Para que correr o risco de críticas desnecessárias?

Isso sem falar nos vídeos-piadas com autotune, que são simplesmente inqualificáveis. Eles já remetem a coisas velhas (Werner Schunemann, um abraço) na internet e no Netflix (Unbreakable Kimmy Schmidt, outro abraço), imaginem na TV.

A estratégia MasterChef — Twitter foi brilhante, muito bem sucedida e deve render muito dinheiro para a Band na próxima edição. Eu apenas espero que a essência não se perca. É um programa que fala sobre cozinha, ainda, que é complementado pela ativa participação do público nas ferramentas de segunda tela. Se o complemento virar o prato principal, os milhões de chefs na TV vão eliminar a Band rapidinho.

* Luis Felipe dos Santos é jornalista, trabalha com mídias sociais e escreve sobre o tema no site A La Fresca.