Sede no Royal Bank of Canada em Toronto. Foto: flickr.com/photos/swisscan

A TI ganhou as manchetes dos jornais e das TVs na última semana como centro de uma polêmica trabalhista envolvendo estrangeiros no Canadá – um dos destinos preferidos dos brasileiros que buscam emprego na área no exterior.

O rolo envolve a contratação de trabalhadores temporários da Índia pelo Royal Bank of Canada, a maior instituição financeira do Canadá, com 80 mil empregados e receita de 29,8 bilhões de dólares canadenses em 2012 (cerca de R$ 58,4 bilhões).

Quem trouxe o caso à tona foi a rede Canadian Broadcast Company da Columbia Britânica, província onde o escândalo se desenrolou. Tudo começou em fevereiro, quando 45 funcionários em Toronto foram informados de que imigrantes indianos iriam substituí-los até o final de abril.

A maioria dos trabalhadores que serão substituídos têm entre 50 e 60 anos – aquela faixa etária insuficiente para a aposentadoria e incompatível com uma recolocação no mercado. Para piorar, os substituídos tiveram que treinar os substitutos.

Frente à opinião pública, além de serem descartados pelo banco, os canadenses teriam que passar pelo “insulto”, como disse um dos demitidos, de ensinar as rotinas de trabalho aos seus algozes.

O “outsourcing portas à dentro” no RBC é fornecido pela empresa indiana iGATE – que em 2012 anotou US$ 1 bilhão de faturamento e 27,5 mil funcionários. A parceria com o RBC vem de 2005, segundo a CBC. Até então, a dobradinha não tinha chamado a atenção.

Com a pisada fora da linha do RBC, no entanto, o governo federal abriu uma investigação para saber como um dos princípios básicos da conhecida abertura canadense aos estrangeiros – a condição de que trabalhadores temporários não sejam “importados” para tirar o emprego de “nativos” – foi driblado.

FOI MAL AÍ
Enquanto isso, um dos funcionários demitidos foi à mídia dizer que os indianos contratados não têm as qualificações necessárias e que a mudança vai prejudicar os clientes do banco, abrindo um debate cheio de fervor.

Nas mídias sociais, correntistas ameaçaram deixar o banco, uma comunidade – Boicote o Royal Bank of Canadá – foi de 300 para 3 mil usuários em uma noite no Facebook e sindicatos disseram que retirariam seus fundos de pensão da instituição.

O barulho funcionou, para alguns.

Quatro dias depois do caso vir à tona, e 20 dias antes das demissões, o banco, que inicialmente justificou-se alegando economia, acabou fazendo um mea culpa de quatro medidas: um pedido de desculpas aos funcionários, acompanhado de uma nova oferta de emprego similar no próprio RBC; uma promessa de revisão no uso de fornecedores; um lembrete de que o RBC têm os call centers (o clássico do outsourcing com sabor indiano) no Canadá; e a preparação de uma nova estratégia de contratação de jovens canadenses.

O plano foi explicado em uma carta à população, publicada no site da instituição, assinada pelo CEO do banco, Gord Nixon.

Enquanto o RBC tenta salvar o próprio filme, o dos estrangeiros que sonham em encarar o congelante inverno canadense por uma qualidade de vida melhor pode sair chamuscado.

O primeiro ministro canadense, Stepehn Harper, acordou para a polêmica no final da semana e se disse preocupado com o “crescente uso de trabalhadores temporários estrangeiros no país”.

Segundo dados do governo, foram 213 mil profissionais estrangeiros no Canadá em 2012, e outros 160 mil chegando ao país como mão de obra qualificada.

Dados apurados pelo jornal National Post indicam que o número de aplicantes só do programa de trabalhadores temporários mais que dobrou nos últimos sete anos.

Resultado: reformas foram prometidas para breve por Harper. Ou seja, por mais que as empresas assumam a culpa, a realidade pode ficar mais dura para quem quer uma vaga num dos programas de trabalho do país.

LACUNA ABERTA
Em média, a taxa de desemprego no Canadá é de 7,6%, parelho com os Estados Unidos e quase o dobro da Índia (3,9%). No Brasil, o indicador é de 5,6%.

O que a Índia e o Brasil não oferecem, no entanto, é qualidade de vida equivalente. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) coloca o Canadá na posição número 11 do ranking mundial, à frente do Reino Unido. Brasil e Índia são, respectivamente, o número 85 e o 136.

E os EUA? Não são tão abertos à imigração.

Por que a abertura canadense? Segundo dados do Outlook for Human Resources in the ICT Labour Market, 2011-2016, enquanto as empresas de TI no Canadá, por exemplo, estarão oferecendo 106 mil vagas no setor até 2016, não haverá profissionais qualificados o suficiente para preenchê-las.

O gap tem levado grupos de empresas a fazer suas próprias missões para recrutar fora do Canadá, levando os candidatos pela mão para o país, como já aconteceu em Curitiba e Porto Alegre.

Resta observar se a mão vai fechar, ou vai resistir a essa recente polêmica.

* Guilherme Neves é jornalista e escreve direto de Montreal sobre o cenário de TI no país.