Aplicativo anunciou nesta semana a entrada no mercado de meios de pagamento. Foto: divulgação.

A entrada do WhatsApp no mercado de meios de pagamento chamou a atenção pela ausência dos grandes bancos, como Itaú, Bradesco e Santander, no projeto. Eles teriam embarcado no negócio e depois, abandonado o barco.

Conforme a apuração do site NeoFeed, os três bancos disseram que não participariam faltando cerca de um mês para o lançamento do produto. Coincidentemente, os três teriam comunicado isso à plataforma na mesma época.

A justificativa teria sido a de que as equipes de TI dos bancos estavam sobrecarregadas por conta do coronavírus e não conseguiriam dar conta da integração com a plataforma do Facebook. Os bancos também alegaram preocupação com a questão da segurança.

Nos bastidores do mercado, a conversa é a de que as grandes instituições financeiras não querem dar munição ao WhatsApp e já estão pedindo que o Banco Central analise a solução à luz da lei de meios de pagamento.

Outro ponto levantado pela publicação é que os bancos devem se concentrar na PIX, plataforma de pagamento instantâneo do BC, que entrará no ar em novembro.

Procurados pelo NeoFeed, o Bradesco e Itaú disseram, por meio de suas assessorias de imprensa, que não se pronunciariam. 

Já o Santander negou que tenha participado do projeto do WhatsApp. Em nota, o banco presidido por Sergio Rial, disse que está “avaliando aderir à modalidade”. 

O WhatsApp não respondeu o site até o fechamento a reportagem, enquanto o Banco Central não quis comentar sobre a procura dos grandes bancos.

“O BC está acompanhando a iniciativa do WhatsApp e avalia que há grande potencial para sua integração ao PIX. Entretanto, o BC considera prematura qualquer iniciativa que possa gerar fragmentação de mercado e concentração em agentes específicos. O BC vai ser vigilante a qualquer desenvolvimento fechado ou que tenha componentes que inibam a interoperabilidade e limite seu objetivo de ter um sistema rápido, seguro, transparente, aberto e barato”, afirmou a instituição em nota.

Ainda de acordo com o NeoFeed, o Bradesco está desenvolvendo a sua própria plataforma, que será batizada de Bitz. Ela estaria, inclusive, em fase de testes e deve ser lançada dentro de dois meses. 

O Itaú, por sua vez, já tem a plataforma Iti que, além de fazer transferências instantâneas entre pessoas, tem como objetivo ser um SuperApp.

Apesar de o WhatsApp ter 120 milhões de usuários no Brasil, a força da plataforma no setor de meios de pagamento deve depender da adesão dos grandes bancos. “Se eles não derem respaldo, dificilmente isso vai tracionar”, disse um executivo do mercado financeiro ao NeoFeed.

Outro profissional que trabalha em uma das grandes instituições privadas disse ao site que os bancos estão sendo muito pragmáticos: “Se der espaço para as big techs, elas podem atropelar. Começam com esse produto e vão avançando. E elas têm força para isso”.

Se entrassem no projeto, o engajamento dos bancos com essa plataforma seria igual ao visto com as carteiras digitais Apple Pay e Samsung Pay. “Todos dizem que trabalham com elas, fazem bastante RP dizendo que estão inovando e isso não representa nem 2% dos usuários”, disse esse profissional.

“Se os riscos, o funding e os custos são dos bancos, você acha que eles vão ajudar uma big tech a entrar no meio da relação com os seus clientes? É preciso olhar esse negócio com uma certa racionalidade. Não vai ser fácil para nenhuma big tech dominar o mercado brasileiro”, destaca o executivo.

Outro ponto crucial é que a plataforma pode levar a uma queda de receita dos grandes bancos no que diz respeito às TEDs bancárias.

Em recente entrevista à publicação, Candido Bracher, presidente do Itaú Unibanco, foi perguntado sobre o temor em relação ao avanço das big techs no mercado financeiro. Ele  disse que “o setor financeiro não é o mais interessante para a entrada delas”.

“Somos extremamente regulados porque lidamos com poupança pública e os múltiplos do setor são modestos. São dez vezes ou onze vezes o lucro anual. Acho que, na escala desses gigantes, de onde pretendem entrar, o mundo financeiro não figura entre os primeiros. Eles competirão conosco em produtos isolados, em atividades específicas”, ponderou o executivo.

No fim do ano passado, o NeoFeed fez a mesma pergunta para Octavio de Lazari Junior, presidente do Bradesco, que disse ter preocupação com as big techs.

“Elas têm uma massa de dados, uma quantidade de informações do seu negócio de origem, que dá a elas uma vantagem competitiva muito grande para operar nesse mundo de banking com informações que elas possam gerar base de dados, aprovações de crédito de produtos e serviços de uma maneira muito contundente”, afirmou.

Lazari continuou na sua análise: “Que elas tenham de seguir os mesmos padrões de rigor, legislação e capital para que não haja nenhum risco sistêmico no mercado. Elas são muito grandes, têm muita informação e muito cliente”. 

Apesar disso, o presidente do Bradesco destaca que não é fácil se tornar um banco. 

“Se fosse fácil, você teria mais de três mil bancos no Brasil. É um negócio de capital intensivo, muito regulado, exige muita segurança. Elas também vão ter muita dificuldade para navegar nesse mercado financeiro brasileiro ou mundial”, afirmou Octavio de Lazari Junior ao NeoFeed.