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Como trazer a inovação dos posts-its para a prática?

17/09/2019 09:50

"Muitas empresas são incapazes de criar uma cultura, de fato, inovadora."

Marília Cardoso, fundadora da InformaMídia e sócia-fundadora da PALAS. Foto: Divulgação.

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Inúmeras empresas já perceberam que a inovação é um caminho sem volta. Diante de rápidas, constantes e profundas transformações, muitas estão recorrendo a treinamentos, consultorias e novas metodologias capazes de prepará-las para o futuro emergente.

Tem sido cada vez mais comum a implementação de técnicas como Design Thinking e Scrum, que facilitam a busca por novas ideias e criam métodos mais ágeis para fazer implementações. No entanto, a grande maioria dessas empresas ainda lamenta o fato de que boa parte dessas possíveis inovações acabam morrendo nos próprios post-its.

Isso acontece porque, embora estejam atentas às essas demandas, muitas empresas são incapazes de criar uma cultura, de fato, inovadora. Dessa forma, treinamentos e novas metodologias acabam surtindo um efeito parecido com o das palestras motivacionais: engajam, empolgam, mas seus efeitos não são duradouros.

Foi pensando nisso que me dediquei a buscar algo mais profundo, capaz de fazer com que as inovações fizessem parte da rotina de uma empresa, de forma sólida, sistêmica e não apenas esporádica. Só assim seria possível colher frutos verdadeiros e com constância.

Acabei me deparando com algo até então inimaginável: uma norma ISO de inovação, a 56.002. A ISO - Internation Organization for Standardization, é uma organização sem fins lucrativos, sediada na Suíça, que surgiu no pós-guerra, com o objetivo de estabelecer padrões para reconstruir um mundo devastado por bombardeios.

Hoje, são centenas de normas que ajudam a regular mercados e estabelecer padrões internacionais. A mais famosa, a 9.001, se refere à qualidade e chegou ao Brasil na década de 80. Depois, vieram a 14.001, de meio ambiente, e a 45.001, de saúde e segurança, só para citar as mais comuns por aqui.

Num primeiro momento, uma norma para inovação me pareceu algo extremamente contraproducente. Como profissional da área, entendo que a inovação precisa de mentes abertas, intuitivas e até um pouco rebeldes. Colocar tudo em “caixinhas”, de modo padronizado e linear, não parecia um bom caminho.

No entanto, percebi que a própria ISO inovou. A 56.002, diferente da maioria das outras normas, não é de requisitos, mas sim de diretrizes. Ou seja, não diz o que a empresa precisa fazer, apenas aponta caminhos possíveis. Ela entende que a inovação é diferente para cada um, sendo impossível criar algo padronizado e engessado. Não tem receita de bolo!

Para chegar a essa norma, um comitê técnico estudou as melhores práticas de inovação nos 163 países membros da ISO desde 2008, tendo o Brasil participado ativamente. Nosso país, está entre os três primeiros certificados nessa norma, ao lado de China e Inglaterra.

Como é mais flexível, a ISO 56.002 está ancorada em oito pilares: gestão de risco, direcionamento estratégico, liderança visionária, cultura adaptativa, resiliência, gestão de insights, gestão por processos e realização de valor.

Em gestão de risco, a empresa avalia todo o contexto da organização, levando em consideração possíveis ameaças disruptivas. Da mesma forma, avalia seu direcionamento estratégico, considerando de onde a empresa vem, onde está no momento e onde pretende chegar no futuro.

Para isso, as pessoas são peças fundamentais. Os líderes precisam ser visionários e capazes de engajar todos os stakeholderes, internos e externos, em prol de uma cultura de inovação. Capacidade de adaptação e resiliência são fundamentais nesse processo.

Só depois dessa base tão sólida é que finalmente se chega a hora da gestão de insights. Ou seja, aqui fica explicado porque tantas inovações acabam morrendo no meio do caminho. A empresa, normalmente, pulou as etapas anteriores, sendo incapaz de efetivamente criar uma gestão voltada ao futuro.

Com processos bem definidos tanto antes quanto durante a geração de novas ideias, fica muito mais fácil desenvolver uma gestão por processos, baseada em inovação e com foco na realização de valor. Principalmente, porque uma das maiores premissas dessa norma é transformar ideias em resultados.

Para a ISO 56.002, inovação é tudo aquilo que traz novas fontes de receita para a empresa. Ou seja, é a criatividade emitindo nota fiscal. Ideias que não trazem resultados financeiros são consideradas invenções e não inovações. A inovação precisa, impreterivelmente, gerar lucros!

E, ao contrário do que possa parecer, sua implementação não é nenhum bicho de sete cabeças. É feito um diagnóstico da empresa, onde se identifica o contexto e o seu nível de maturidade em relação ao tema. Depois, as pessoas são envolvidas, a fim de se desenvolver a cultura e o mindset inovador. Os processos são definidos por todos, de forma colaborativa.

Uma vez que todos os itens estejam implementados, é hora de validar o processo com uma empresa acreditadora, ligada ao Inmetro, que certifica a ISO 56.002. Oportunidades de melhoria são apontadas e, estando tudo dentro das diretrizes desses pilares, a empresa recebe a certificação, um documento que atesta sua gestão para o futuro. Em média, o processo leva em torno de oito a doze meses e o investimento é rapidamente recuperado, haja vista o foco em executar ideais que geram valor.

De tudo o que tenho visto até agora sobre gestão da inovação, essa me parece a melhor forma de criar um processo realmente estruturado, capaz de tirar as ideias dos post-its e fazer a inovação acontecer na prática.  Cabe destacar que ideias só tem valor quando são bem executadas. Se não ajudar a emitir nota fiscal, é apenas invenção e não inovação.

Por Marília Cardoso, fundadora da InformaMídia, agência de comunicação, e sócia-fundadora da PALAS, consultoria de inovação e gestão.

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