Cylon Gonçalves da Silva. Foto: Baguete.

O presidente do Ceitec, Cylon Gonçalves da Silva, publicou um artigo no portal brasiliense Convergência Digital nesta segunda-feira, 17, afirmando que a empresa gaúcha de semicondutores não irá entrar “no debate privado versus estatal” em relação à SIX, fábrica de chips em construção em Minas Gerais que levou investimento de R$ 1 bilhão, do que o governo banca mais da metade.

No projeto mineiro, a SIX Soluções Inteligentes, do empresário Eike Batista, e o Bndespar, braço de participações acionárias do BNDES, terão 33% de participação cada, investindo o mesmo valor – R$ 245 milhões -, mas o BNDES também entra com mais R$ 267 milhões, sendo R$ 202 milhões na modalidade direta e R$ 65 milhões repassados pelo BDMG.

Além disso, Finep, com R$ 202 milhões em financiamento, sendo parte proveniente de recursos do Funttel, também tem participação.

“Tanto SIX Semicondutores como Ceitec só se viabilizam com maciços recursos públicos, ainda que a primeira tenha a institucionalidade jurídica privada e a segunda, estatal”, afirma Silva, no artigo.

Para ele, o que tem de ser examinado é o ponto de vista tecnológico, no que a avaliação do gestor se divide entre alfinetadas e comentários mais amigáveis.

Silva reconhece que o Ceitec enfrenta “atribulações e dificuldades” em função de ser “empresa estatal, sujeita a um regime de gestão voltado ao controle de processos, não à eficiência e produtividade empresariais”.

Por outro lado, ressalta que, mesmo com este cenário, já está em curso na planta gaúcha, desde julho deste ano, a transferência da tecnologia CMOS de 600 nanômetros, e que, à medida que esta transferência for se dando, “aumentará o porcentual das etapas de fabricação de chips realizado no Brasil, até atingir 100% em meados de 2014”.

Ainda de acordo com o presidente, a tecnologia de 600 nanômetros tem fatia de 10 a 15% na produção mundial de chips.

A SIX, por sua vez, opera com tecnologias de 130 e 90 nanômetros, as quais, conforme Silva, detêm fatia de produção da ordem de 20%.

“Em outras palavras, Ceitec e SIX não competem, complementam-se do ponto de vista tecnológico. (...) Hoje, a Ceitec terceiriza para empresas da Ásia a manufatura daqueles projetos que requerem tecnologias outras que a de 600 nanômetros. Com a SIX em operação, a empresa poderia trazer para o Brasil parte dessa produção, se os custos da SIX forem competitivos. Ganham o Brasil e as duas empresas”, pondera Silva.

Mas nem tudo são braços dados: o presidente da design house de chips gaúcha lembra que a SIX ainda está no campo da promessa.

“Por outro lado, a SIX está engatinhando e promessa de recursos financeiros não garante prazos”, avalia o gestor.

Para ele, tanto o setor privado sofre tanto quanto o estatal com os chamados custos Brasil e com os consequentes atrasos que estes acarretam.

Além disso, Silva ressalta a complexidade de operação de uma fábrica de semicondutores, exigindo altíssimos padrões de qualidade em tudo, incluindo a mão de obra.

“Não bastam engenheiros e técnicos de alto nível acadêmico e profissional, ou especialistas acostumados a trabalhar em países desenvolvidos, com a cadeia de suprimento e o apoio técnico ao alcance da mão, com prazos de uma pizza delivery. São necessários operários de nível suíço”, afirma o presidente.

Assim, conclui Silva, será “um imenso desafio cumprir os prazos anunciados pela SIX”.

NENHUMA DAS DUAS
Competidoras ou aliadas, o fato, na opinião de Silva, é que nem SIX, nem Ceitec, irão resolver o problema da importação de componentes eletrônicos do Brasil.

“Nenhuma das duas empresas tem escala, ou tecnologia, para resolver esse problema”, avalia ele.

Conforme o dirigente, cada bilhão de faturamento anual de uma empresa de semicondutores é gerado por alguns milhares de empregos diretos, e o Brasil importa cerca de US$ 5 bilhões de componentes por ano, o que representa “dezenas de milhares de empregos” para a criação dos quais nem mesmo os massivos investimentos na SIX são suficientes.

“Na realidade, essas duas empresas têm de ser vistas como os primeiros passos de um bebê”, avalia Silva. “Quem vai julgar a partir desses passos se esse bebê não irá no futuro ganhar medalhas em competições internacionais? É muito cedo para dizer”, finaliza.

O Baguete reproduziu o artigo publicado por Silva. Confira a íntegra.