DECISÕES

SAP: hora de sair de vez da Rússia?

18/03/2022 11:55

Governo da Ucrânia pressiona gigante de software a tomar ações duras contra clientes russos.

Homem contempla destruição em Kiev, capital da Ucrânia. Foto: Oleksandr Ratushnyak / UNDP Ukraine.

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A Ucrânia está fazendo uma campanha aberta para que a SAP deixe de dar suporte para seus clientes russos, criando um transtorno para a multinacional, que atende alguma das maiores empresas da Rússia, hoje rumo a ser um pária internacional.

Como outras grandes empresas de tecnologia, a SAP anunciou que estava encerrando seus negócios na Rússia, que se tornou alvo de um grande embargo econômico liderado pelos Estados Unidos e a Europa depois de invadir a Ucrânia.

Não está muito claro o que isso significa na prática. A SAP fala em “não trabalhar mais” com companhias alvo de sanções na Rússia, mas não revela se esses clientes podem seguir usando seu softwares ou se têm acesso a suporte técnico.

Parece mais provável que a SAP esteja abdicando de fazer novas vendas (que, tendo em conta a situação econômica da Rússia, provavelmente não aconteceriam no curto prazo) enquanto segue sustentando as aplicações e fazendo updates.

A Oracle, que concorre com a SAP no mercado de software de gestão empresarial, disse que não faria novas vendas e também cortou suporte e updates.

Nos últimos dias, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e o ministro de Transformação Digital ucraniano, Mykhailo Fedorov, fizeram postagens no Twitter pressionando diretamente a SAP.

O post mais duro foi o de Fedorov, um jovem de 31 anos que até pouco tempo atrás tinha uma agência de marketing digital em Kiev, é a cara da Ucrânia no lobby junto ao mundo da tecnologia. 

"Você apoia isso, @SAP e @ChrstnKlein? Ou você pode parar o seu apoio? Após 21 dias de uma guerra sangrenta, a empresa alemã SAP continua apoiando seus clientes russos - Gazprom, Sberbank, Rosatom, e outros. Esse dinheiro assassina crianças ucranianas! É uma vergonha inacreditável!”, tweetou Fedorov nesta quinta-feira, 17.

A campanha de boicote liderada por Federov tem sido bem sucedida. Nas últimas semanas, os anúncios de saída da Rússia vêm se sucedendo, incluindo nomes como Apple, Google e Microsoft, além de grandes marcas como Coca Cola, McDonald's, Starbucks, Visa e Mastercard.

Uma das jogadas mais chamativas de Federov foi se dirigir diretamente ao bilionário Elon Musk, pedindo ajuda na cobertura de Internet com satélites da Startlink, um pedido prontamente atendido por Musk, que desde então vem se envolvendo diretamente na disputa, ao seu modo peculiar.

A situação da SAP é particularmente espinhosa. Outras empresas podem decidir abdicar por um tempo dos seus negócios na Rússia, que no final das contas tem uma economia menor que a do Brasil e uma população total de 145 milhões.

Uma decisão que custa dinheiro, mas que ainda assim pode compensar no clima de conflagração atual.

Em 2018, uma matéria da Reuters apontou que a SAP atendia 53 entre as 100 maiores empresas da Rússia em termos de faturamento. 

Segundo uma pesquisa da Forbes, os clientes incluem companhias estatais do setor de energia como Gazprom e Rosneft, além de grandes bancos como Sberbank e Rosselkhozbank.

As exportações de energia são a maior fonte de divisas da Rússia, respondendo por boa parte do orçamento do governo, e, por consequência, da capacidade do país de manter uma operação militar de grande porte.

Ao decidir negar suporte para esses clientes, a SAP não estaria gerando mudanças significativas no curso do conflito, mas provavelmente perderia suas grandes contas na Rússia no longo prazo, além de transmitir um sinal cujas consequências podem ser muito mais amplas.

Isso porque, se a gigante alemã topa aderir a um boicote a grandes empresas de um país envolvido em uma guerra impopular no Ocidente, clientes atuais e futuros podem tomar nota em países como a China, prejudicando a SAP em mercados muito maiores do que a Rússia.

A questão se torna ainda mais complicada pelo aspecto geopolítico. Como Federov fez questão de mencionar no seu tweet, a SAP é uma empresa alemã, e a verdade é que a Alemanha não vem se destacando por uma postura dura contra a Rússia.

Nesta semana, em uma de uma série de discursos por videoconferências pelo mundo afora, Zelensky falou também ao Bundestag, o parlamento alemão, fazendo duras críticas à conduta do país na crise.

Zelensky demandou que a Alemanha fizesse um embargo de compras de energia da Rússia, um dos maiores fornecedores do país, além de apoiar a criação de uma zona de exclusão aérea na Ucrânia por meio da OTAN.

A zona de exclusão teria o potencial de criar um conflito total (talvez nuclear) entre a Rússia e a OTAN, e não é uma proposta apoiada pela maioria dos integrantes da organização. 

Um embargo de importações de energia da Rússia (o país recebe cerca de 600 milhões por dia em pagamentos dessas vendas para países da União Europeia) teria efeitos desastrosos na economia alemã, cujo tamanho é tema de debate entre especialistas.

É pouco provável que a Alemanha adote uma medida dessas. O problema é que o país também já esteve entre os mais reticentes em relação a outras medidas, como a exclusão do sistema de pagamentos, ou mesmo a venda de armas para a Ucrânia.

Sem ter respostas a oferecer para Zelensky, o primeiro-ministro alemão, Olaf Scholz, optou por não dizer nada. O parlamento alemão ouviu a mensagem, e seguiu com a ordem do dia, besdebatendo uma eventual obrigatoriedade da vacina contra o coronavírus. A falta de resposta foi amplamente criticada dentro do próprio país.

Dessa forma, a SAP ainda tem o seu valor como alvo das iniciativas da Ucrânia ampliado por ter uma sede na Alemanha, apesar de ser uma multinacional com uma presença igualmente forte nos Estados Unidos e, até pouco tempo atrás, inclusive um CEO americano.

De maneira mais ampla, a SAP vem fazendo uma aposta numa linha de responsabilidade corporativa associada a temas como sustentabilidade, inclusão e outras pautas bem intencionadas, a tendência atual entre grandes empresas de tecnologia.

Parece difícil conciliar essa proposta com a sustentação técnica de empresas de energias fósseis patrocinando o país responsável pelo maior conflito militar na Europa desde a Segunda Guerra Mundial sob a liderança de um cada vez mais histriônico Vladimir Putin.

Analistas militares apontam que o conflito na Ucrânia pode escalar muito mais nas próximas semanas, com a destruição indiscriminada de grandes cidades, e, nos cenários mais pessimistas, o uso de armas químicas ou até nucleares.

Toda essa bomba está caindo no colo de Christian Klein, um profissional de 41 anos que assumiu a liderança da SAP em 2019. Klein é considerado um executivo modesto e pé no chão, com um background técnico. 

O CEO anterior, Bill McDermott, fazia o clássico estilo do executivo estrela americano, e talvez conseguisse sair dessa sinuca de bico geopolítica por meio de afirmações grandiloquentes e conversa fiada. Não parece o caso de Klein.

A SAP pode ter que lidar em breve com uma crise de imagem, ou com a perda de muito dinheiro. Como tudo no mundo atual, não parece haver uma saída fácil para o problema.

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