A cultura egípcia chega até nós fragmentada, incompleta e parcialmente ininteligível.

No início do mês passado, decidi me comportar como um jovem inconsequente e usar um sábado para viver no limite: acordei às 9 horas da manhã, tomei café da manhã em uma padaria da Cidade Baixa e fui caminhando até um dos sebos da Osvaldo Aranha. 

Na volta, aproximadamente duas horas depois, a minha audácia foi recompensada. "O que dois magrão com essa cara fazem na rua numa hora dessas?", pensei, sem nenhum respeito pelas regras do plural. "Ah, claro", pensei, quando um deles puxou uma pistola. 

Para azar dos ladrões, eles não me roubaram nada que tivesse algum valor pra eles: meu celular era velho, estava com a tela trincada e não era lá grandes coisas em primeiro lugar. E eu só tinha troco na carteira. 

Para meu azar, na minha carteira estavam meus documentos, incluindo aí cartão de crédito e CNH. 

Para minha sorte, eles não reconheceram a única coisa realmente valiosa que eu carregava comigo: o livro Símbolos e Mitos do Antigo Egito, de R. T. Rundle Clark, recém comprado por dez reais. Ele se provaria muito útil nos dias seguintes.

Clark foi professor de História Antiga da Universidade de Birmingham até a sua prematura morte, em 1970, aos 61 anos de idade. Símbolos e Mitos do Antigo Egito é uma introdução à mitologia egípcia. 

Ao contrário dos Erich Von Däniken do mundo, no entanto, Clark expõe as histórias a partir dos textos originais, sempre tentando mostrar como os egípcios também estão preocupados com os mesmos grandes temas da literatura grega e cristã, porque os principais problemas psíquicos, religiosos e sociais são comuns a toda a humanidade. 

O próprio Clark reconhece que a sua tarefa não é lá muito fácil. A civilização egípcia estava isolada do resto do mundo antigo. Ao contrários dos mitos, símbolos e conceitos sociais dos babilônios, sírios e judeus, que constituem até hoje parte da herança ocidental, os dos egípcios nunca foram transmitidos. 

O resultado é uma cultura que somente pode ser interpretada em seus próprios termos, que infelizmente chegaram a nós de forma fragmentada, incompleta e parcialmente ininteligível.

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Demorei 45 minutos para encontrar um policial em uma área central de Porto Alegre. Ele passou a identificação dos ladrões pelo rádio: o sujeito descabelado virou cabeludo, a jaqueta preta com detalhes coloridos virou colorida com detalhes pretos. 

Nada disso fazia mais a menor diferença, então eu apenas pedi uma carona até a delegacia mais próxima. Ele gostou da ideia: me explicou todos os motivos pelos quais essa era uma alternativa melhor para registrar a ocorrência do que eu ou ele fazermos isso (nos dois casos: “aí tu tem que esperar três dias e ir na delegacia igual”).

Desci do carro, agradeci a carona, comecei a caminhar na direção da delegacia. Um casal me perguntou se eu era um policial, e eu disse que não: “a delegacia está fechada para o almoço”, eles me disseram. 

Fui até a porta e vi uma folha de ofício colada com durex. Não dizia a hora que a delegacia tinha fechado; não dizia quanto tempo ela ficaria fechada; não dizia que horas ela abriria.  Dizia só: “FECHADO PARA O ALMOÇO, PORTARIA ALGUM NÚMERO/OUTRO NÚMERO - LETRAS”.

Lembrei de Clark. Registros fragmentados, incompletos, ininteligíveis e que só podem ser interpretados a partir dos termos da cultura que os gerou. No caso, em uma tradução livre: “Sem chances. Azar o teu. Não é meu problema. Não reclame”. 

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Fui em um mercado de bairro próximo perguntar se alguém sabia que horas a delegacia poderia abrir. Ninguém sabia. "Não antes das duas da tarde": era meio dia. Me recomendaram ir ao Palácio da Polícia. Mais ou menos um quilômetro de caminhada. 

Conformado, voltei para a delegacia fechada para avisar ao casal que esperava na porta das perspectivas funestas. Avisei que talvez fosse melhor ir ao Palácio de Polícia. “Viemos de lá”, eles disseram. “O computador estragou, eles não estão registrando ocorrências e nos mandaram para cá”. 

A delegacia era próxima da livraria em que eu tinha ido em primeiro lugar. Para voltar para casa, precisaria passar pelo lugar em que eu fora assaltado. O lado positivo é que eu estava me sentindo muito mais seguro: não se pode roubar alguém que não tem nada.

Voltei para casa caminhando. Bloqueei o cartão do banco e o celular. Troquei as senhas dos aplicativos pertinentes. Pedi dinheiro emprestado para a vizinha. Não havia mais nada que eu pudesse fazer, então varri a casa e coloquei a roupa suja na máquina.

De tarde, voltei para a delegacia para registrar a ocorrência. Eram quatro da tarde, e ela estava aberta. Ao entrar na delegacia, a primeira coisa que você vê é a porta do banheiro. Nela, está escrito de canetinha, diretamente na porta: “ESTRAGADO, NÃO ENTRE”. 

A primeira coisa que você ouve, por outro lado, é um escrivão de polícia solitário, jovem, frustrado e irritado: “É pra registrar ocorrência?”. “Sim”, respondi. “Então senta lá e espera”. 

Aproveitei a espera para revistar o ambiente.

Aquilo que está atrás de um aviso de “ESTRAGADO, NÃO ENTRE” escrito em canetinha em uma porta de banheiro suscita, evidentemente, um interesse mórbido. 

Em que momento alguém decidiu que o problema era o suficientemente definitivo para não merecer a transitoriedade de um cartaz de papel? O que pode acontecer em um banheiro que seja capaz de gerar essa convicção? 

Atrás daquela porta poderiam estar armas e drogas apreendidas: ninguém vai xeretar em um banheiro interditado de forma tão definitiva. Seria o aviso apenas um sistema artesanal e eficiente de segurança?

Se você for capaz de superar o interesse pelo banheiro, pode tentar interpretar as formas dos buracos no reboco da parede. É como ver bichos nas nuvens, com a vantagem de que dá para aprender alguma coisa sobre alvenaria da década de 70 no processo.

Enquanto eu esperava, outra pessoa entrou na delegacia. O diálogo invariável (“É pra registrar ocorrência?”. “Sim”. “Então senta lá e espera”) também é capaz de suscitar interesse, agora, técnico-jurídico: por qual motivo alguém procuraria uma delegacia às quatro da tarde de um sábado de sol, se não para registrar uma ocorrência? 

Nesse caso, o que essa pessoa deveria fazer que não fosse sentar e esperar? 

Enquanto eu fazia o meu registro, uma segunda pessoa entrou na delegacia e não seguiu o seu script: respondeu “não”. Fiel ao folheto litúrgico, o escrivão jovem e frustrado respondeu com irritação: “Então senta lá e espera”. Não é um diálogo: é um hino, uma letania, e, novamente, algo que só pode ser compreendido nos termos da cultura do escrivão.

Superar esse estímulo auditivo imediato, de novo, tinha as suas recompensas. Você poderia tentar descobrir o motivo pelo qual o ar condicionado da delegacia parecia uma baleia mecânica enferrujada mastigando com dificuldades um parafuso muito, muito pequeno. 

De bônus, você contemplaria o que certamente era uma peça de tecnologia oriunda de uma realidade alternativa steam punk tropical.

Enquanto estava lá, consegui entender o problema de duas pessoas. A primeira era vítima de um golpe aplicado em um site de venda de produtos usados. O segundo, um senhor que teve os seus documentos clonados. 

Todos nós estávamos lá como personagens de uma farsa: nenhum de nós esperava que o escrivão solitário desse início à apuração de algum crime (em tese, o objetivo da atividade policial). 

As nossas ocorrências eram apenas “para registro” (no meu caso específico, para pedir a segunda via da CNH sem custos, conforme informado no site do DETRAN): a nossa oferenda ao ritual. 

Esse era, provavelmente, o motivo pelo qual o escrivão estava frustrado e irritado. Eu também estaria, se tivesse que sacrificar um sábado de sol em um ritual absurdo e indiferente praticado sobre o altar de banheiro estragado.

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O escrivão me lembrou da divindade suprema egípcia, um ser multifacetado. 

A tese de Rundle Clark é que ela apenas uma, mas que as suas diferentes facetas recebem diferentes nomes, conforme ela se apresenta no grande mito. 

Cada uma de suas formas, por sua vez, se torna particularmente relevante em um momento e em um lugar histórico concreto, em conformidade com o espírito da época.

Uma dessas facetas é Atum, a divindade que emergiu no caos primordial inicial. 

Isso exige algumas explicações. Conforme a mitologia egípcia, no início havia apenas o oceano primordial: ele é infinito, tanto horizontal quanto verticalmente. A divindade suprema "tomou consciência" dentro desse oceano. Criou, então, uma "bolha" de ar, a terra e o firmamento: o mundo real. Em seguida, esse deus emergiu do oceano primordial -- Atum. 

Atum, no entanto, é uma divindade algo melancólica e dividida. Ele emergiu do oceano primordial por se sentir "muito cansado e inerte". No Texto Funerário 714, ele define o seu surgimento nos seguintes termos: “Eu fui nas Águas Primordiais, o que não tinha companhia quando meu nome veio a ser. A forma mais antiga na qual vim a ser foi a de um afogado”.

Do ponto de vista da divindade, "as águas são ruins, representam as condições de abandono e caos que devem ser ultrapassadas". Ao mesmo tempo, no entanto, o retorno é inevitável, e as águas primordiais "podem ser consideradas puras e como águas da vida para a alma que deseja retornar ao estado de negação. A imersão nelas significa regredir à inocência primitiva". 

Atum, portanto, vive um dilema: abandonar a inércia ou dissolver-se no caos em negação. 

Ele, no entanto, representa apenas a faceta oculta da divindade suprema. O nascer do sol, por outro lado, é associado outro aspecto da divindade: Khopri, “Aquele que Vem a Ser”, ou a divindade visível. 

Khopri também significa escaravelho: daí que ele seja normalmente representado com a cabeça de um. Como o nosso escrivão, essa faceta da divindade também tem um aspecto sisífico:  todos os dias, ele rola o sol pelo céu, assim como o escaravelho faz com as bolas de esterco nas quais choca os seus ovos.

Era um povo engraçado, o do antigo Egito. Eles olhavam o nascer e o pôr do sol e pensavam "deus deve ser um besouro-rola-bosta". 

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Para dar continuidade ao meu papel nesse ritual, fui a um CFC no dia útil seguinte ao do roubo (segunda-feira). Eu estava feliz com a oportunidade de ouvir alguém me dizer "você está isento da taxa", a "palavra da salvação" daquele que é, como eu, um brasileiro médio. 

O que a atendente do CFC me disse, no entanto, foi outra coisa. Foi: "para a isenção, eu preciso ficar com a ocorrência original ou com uma cópia autenticada de todas as folhas". Três, no caso. 

Veja só: o CFC, que é uma instituição privada credenciada ao DETRAN, uma autarquia pública, não tem acesso a algum sistema que informe que eu registrei uma ocorrência de roubo de uma carteira de habilitação. 

Ou seja, procurando pelas palavras-chave adequadas no Google, a moça do CFC seria capaz de descobrir o salário exato do escrivão que me atendeu. Não teria, no entanto, como descobrir se ele registrou uma ocorrência diretamente relacionada ao serviço que ela presta. 

No próprio CFC existia uma máquina xerox: de fato, segundos antes, a atendente fizera uma cópia da minha Carteira de Identidade e do meu comprovante de residência. 

Você pode achar absurdo que eles precisem que eu deixe com eles uma cópia autenticada de um documento emitido por outro braço do governo que, em última análise, eles mesmo integram. 

Mas você então ficaria sem palavras para definir a impossibilidade do CFC reconhecer a autenticidade de uma cópia que poderia ser realizada pelo próprio CFC. 

Em um cálculo rápido, imaginei que sairia mais caro ir até o tabelionato, autenticar as cópias e voltar para o CFC. De qualquer forma, eu precisaria fazer um pit stop em uma agência bancária ao meio dia para sacar dinheiro sem o cartão: poderia aproveitar para já pagar a taxa. 

Peguei a guia de pagamento. Tentando me conformar, a atendente me disse que essa era a decisão da maioria das pessoas. 

Também me disse que a CNH chegaria na próxima segunda; com sorte, na sexta. Na sexta, no entanto, a atendente não era tão solidária: me disseram que o documento chegaria na próxima sexta; com sorte, na quarta. O documento chegou na quinta-feira da outra semana: no dia anterior, um funcionário me dissera por telefone que não chegaria antes da sexta de jeito nenhum. 

Esse, no entanto, foi apenas o problema que eu tive com o CFC. Existiram outros. 

Ainda no sábado à tarde, fui em uma loja da empresa de telefonia para bloquear os meus números (sou uma dessas pessoas com dois chips). Fui informado que precisaria apresentar algum documento ou fazer o pedido por telefone. 

O motivo pelo qual era possível fazer o mesmo pedido por telefone, e não pessoalmente, eu não perguntei. O que eu sim perguntei foi se depois eu poderia reativar o número em qualquer loja da empresa. "Em qualquer loja da empresa" foi a resposta, com uma ênfase cuja importância só perceberia dias depois. 

No telefone, fui informado que o bloqueio deveria ser realizado no site. No site, fui informado que, para bloquear os números, precisava fazer um cadastro prévio. A etapa final do cadastro envolvia um código… Enviado por SMS para o número que eu queria bloquear. 

Liguei novamente para o SAC: o objetivo agora era me cadastrar no site com o número de telefone que eu queria bloquear. Me certifiquei com o atendente se depois poderia reativar o número em qualquer loja. "Sim, em qualquer loja da empresa". 

Dois dias depois, fui em uma loja de um shopping. O objetivo era ir em uma das lojas que ficava aberta depois do meu horário de expediente. O funcionário que me atendeu, no entanto, disse que nada poderia fazer: para reativar o número, eu precisaria ir em uma loja da empresa. 

“Então”, eu disse, “aqui estou”. “Senhor, essa não é uma loja da empresa”, ele respondeu. “Mas ela tem as cores e o logotipo da empresa. Na frente dela tem só o nome da empresa escrito em letras gigantes”, observei, porque talvez ele não tivesse reparado. “Sim, mas é apenas uma loja franqueada”.

Na cidade em que eu estava só existe uma loja da empresa. Ela abre às dez da manhã e fecha às cinco da tarde.

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A outra divindade que ocupa grande parte do livro de Rundle Clark é Osíris. Ele não fica muito atrás de Atum no quesito confusão. 

Osíris é a divindade da vida, mas não exatamente: em primeiro lugar, ele é um governante que disputa o poder com o seu irmão, Set, e não um ser etéreo que desenvolve auto-consciência espontaneamente. 

Em segundo, ele governa no período de bonança que se segue às enchentes do Nilo: é, portanto, um símbolo de fertilidade mais do que de vida. 

Finalmente, a parte mais importante da narrativa mitológica que conta o seu enfrentamento com Set consiste em morrer: Osíris pode ser o deus da vida, mas também é chamado de O Grande Apático. 

No mito, Osíris é enganado e morto pelo seu irmão, que se torna o governante dos homens. Isso não impede que a sua esposa, Isis, conceba o seu filho, Hórus. Hórus, por sua vez, se vinga de Set e se torna o novo governante dos homens. Ele exerce esse papel, no entanto, como um representante de seu pai. 

É, portanto, um governante por representação. O seu poder é limitado e o seu reino é o de Osíris restaurado. 

Essa narrativa ecoa no mundo real de forma cíclica: o reino de Osíris consiste na estação da cheia do Nilo; o de Set, no auge do duro verão egípcio. Em sua batalha com Set, Hórus perde o olho esquerdo -- a lua, o que se traduz no mundo real nas suas diferentes fases. 

O lado absurdo e, de novo, sisífico dessa repetição não escapava aos egípcios. A narrativa mais famosa da luta entre Set e Hórus é uma comédia. 

Eles são o Didi e o Dedé desse grande episódio de Os Trapalhões que era o Antigo Egito: a diferença é que o destino dos homens estava em jogo. Set pode arrancar o olho de Hórus, mas Hórus arranca o seu testículo.

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No mesmo momento em que fiz o bloqueio do cartão do banco pelo site, pedi a segunda via. Era isso, pelo menos, que eu acreditava. Quando o prazo de envio se esgotou sem que o cartão tivesse chegado, procurei e encontrei no site a opção de "acompanhamento de pedido". Ali, no entanto, a informação que não havia nenhum pedido pendente. 

Fiz, então, outro pedido. No dia seguinte, voltei para o site. Novamente, a informação era que não havia nenhum pedido. Liguei para o SAC, onde fui informado pela atendente que de fato não constava nenhum pedido de segunda via no sistema, mas que ela poderia fazê-lo naquela mesma ligação, destacando que se tratava de um pedido urgente -- o que reduziria o prazo de entrega para sete dias.

Pelo telefone, então, voltei a fazer o pedido. Sete dias depois, 25 do assalto, recebi o cartão. Como eu tinha aprendido a duvidar de tudo e de todos, esperei até o final de semana para fazer o desbloqueio.

Naturalmente, deu errado. A carta em que o cartão estava anexado dizia que, caso se tratasse de uma segunda via, eu poderia desbloqueá-la pelo aplicativo com a mesma senha do outro cartão. Caso contrário, precisaria utilizar a senha que me fora enviada por SMS ou por correio. Como se tratava, em tese, de uma segunda via, e eu não recebera qualquer SMS ou outra correspondência, tentei a senha original. Não funcionou.

Liguei, então, para o SAC. Lá, me foi informado que no sistema constava uma tentativa de uso de uma senha naquele mesmo dia, e que de fato não constava o envio de uma nova senha para desbloqueio do cartão. 

Também me foi informado que eu não poderia receber essa senha por SMS: no sistema, o meu número de telefone constava como inválido. Informei para o atendente o meu número de telefone, e ele confirmou que esse era o que estava registrado no sistema. 

Depois de uns minutos de espera, ele me informou que a única alternativa era enviar uma nova senha pelo correio. Prazo: entre 8 e 12 dias. 

O cartão poderia chegar em sete dias. A senha necessária para desbloqueá-lo, no entanto, apenas em oito -- na melhor das hipóteses.

Preferi cancelar o cartão de crédito: era o único contrato que eu tinha com aquele banco, nos últimos anos sugeriram alternativas melhores, talvez eu até conseguisse outro em menos de 12 dias. 

Fui transferido para o setor de cancelamento, onde eu e o novo atendente seguimos a liturgia prevista no Livro dos Mortos: ele perguntou “mas por que”, respondi “é uma porcaria”; “mas senhor”, “quero cancelar”; “tem certeza?”, “tenho certeza, quero cancelar”; “o senhor vai perder os seus pontos”, sugeri o que ele poderia fazer com os pontos; “obrigado”, “obrigado”. 

Segundos depois, recebi um SMS. 

Era o banco, me informando que o meu cartão fora cancelado.

Dez minutos depois, um e-mail.

Era o banco, me informando que eu poderia usar os meus pontos para comprar uma torradeira.

O roubo me obrigou a pedir uma nova via da CNH, do cartão de crédito e transferir um número de telefone para um novo chip. 

Me obrigou a interagir com funcionários públicos, concessões públicas e empresas privadas. Em todas essas oportunidades, alguma parte da organização não sabia o que a outra fazia. Entre taxas e custos de emissão, gastei o triplo do que me haviam roubado. 

Dentre as pessoas que me atenderam, o melhor remunerado era escrivão da polícia. É verdade que a tarefa dele era a mais tecnicamente difícil. Mas também é verdade que foi a única que não se revelou útil de nenhuma forma. 

Não tenho como saber as condições de trabalho no SAC do banco e da empresa de telefonia, mas eu apostaria que ele também era o único que não tinha acesso a um banheiro funcional no seu local de trabalho. 

Pode ser que em alguns milênios um historiador investigue o Brasil antigo e descubra o significado de tudo isso. 

Esse é o argumento principal de Símbolos e Mitos do Antigo Egito: tudo aquilo que uma civilização faz, mesmo que aparentemente incompreensível, tem um significado. 

Um significado que pode ser simultaneamente racional e místico, mas que sempre é profundo: para desvendá-lo, você precisa interpretar os registros não pelo seu significado prático, mas como uma sucessão de símbolos e figuras de linguagem.

Talvez olhando assim para os nossos registros, um Rundle Clark do futuro consiga enxergar no escrivão de polícia aquilo que ele é: a faceta visível daquilo que emerge do caos primordial, preso à tarefa sisífica de empurrar ocorrências inúteis de um lado para o outro, em dúvida sobre se deve ou não deixar-se afogar pela negação.

Vai enxergar na hermética divisão de informações entre diferentes partes da administração pública, ou entre diferentes partes de uma empresa privadas, como a confusão eterna e cíclica entre Set e Osíris.

Talvez então a pilha de portarias e procedimentos incompreensíveis seja interpretada como aquilo que verdadeiramente é: não uma tentativa inepta de pré-ordenar a solução de problemas, mas como uma figura de linguagem. 

A civilização egípcia passou à história pelos monumentos que construiu para cultuar a morte. A brasileira, pode fazê-lo por ter desenvolvido o símbolo perfeito da entropia que consome o universo: a pirâmide de papel.

* Vicente Renner é um brasileiro médio e egiptólogo amador.