Motéis são um negócio com muitas particularidades.

O Guia de Motéis, um site de pesquisa sobre motéis, acaba de lançar o Guia de Motéis Go! um aplicativo com o qual quer transformar a experiência de ir a um estabelecimento do gênero em uma combinação de reserva de hotel online e Uber.

Vamos combinar que, em 2018, a primeira pergunta que vem à mente ao ler esse plano de negócios: e porque ninguém ainda fez isso? A resposta, como costuma acontecer, é que fazer isso é muito mais complicado do que parece.

“A única coisa o negócio de hotéis têm em comum com os de motéis é que ambos tem uma cama no meio”, brinca Rodolfo Elsas, diretor do Guia de Motéis.

Os problemas de tentar mover para o mundo dos motéis a lógica de realização de reservas online que domina os hotéis e já se desdobrou em outros modelos de negócio como o do Airbnb são vários.

O primeiro é de logística de ocupação. Quase todo o negócio dos hotéis é alugar quartos por períodos de 24h, com períodos de entrada e saída pré-determinados. Os hóspedes fazem suas reservas com antecipação, às vezes de meses, dificilmente menos do que um dia.

Já os motéis alugam quartos por hora para clientes que aparecem em cima da hora. É por isso que é muito difícil reservar um quarto de motel nos sites de hotéis: os estabelecimentos colocam uma quantidade mínima de quartos a disposição.

É aí onde entra o fator Uber do Guia de Motéis Go!, que é baseado em geolocalização. O aplicativo mostra para reserva quartos que estão disponíveis para o uso nas redondezas naquele momento, dando ao cliente meia hora para chegar o local.

O quarto fica bloqueado para o cliente, que faz a escolha e o pagamento por meio do aplicativo, disponível para iOS e Android.

“O motel simplifica seu check in e check out e o cliente não fica rodando ou fazendo fila na porta”, explica Elsas. 

Para o consumidor, existe também a vantagem da discrição na seleção das ofertas, com um pouco menos de constrangimento ao selecionar uma opção mais barata.

Até agora já aderiram 50 moteis em São Paulo, onde o Guia de Motéis Go! está fazendo, digamos, suas preliminares. São 500 reservas pelo app por dia. A meta é chegar ao final de 2019 com 300 motéis cadastrados nas principais capitais do país. 

O fator geolocalização é só uma parte da equação de porque uma solução como Guia de Motéis Go! parece estar chegando tão tarde no mercado, mas ainda assim com boas chances de ser bem sucedida.

Motéis são um grande negócio no país. Segundo dados da Associação Brasileira de Motéis, existem 5 mil negócios do tipo no Brasil. Mas a fragmentação é extrema: um empresário carioca se declara o “Rei dos Motéis”, sendo dono de menos de 10 estabelecimentos.

Assim, é complicado atingir economia de escala. Os 50 motéis dentro do app exigiram que a equipe do Guia de Motéis fizesse integrações com seis sistemas de gestão diferentes para operacionalizar a consulta aos quartos disponíveis e o repasse dos pagamentos.

Tirando a decoração dos quartos e os nomes dos estabelecimentos, o setor é também bastante conservador. Durante o tempo em que o Go! estava sendo desenvolvido, Elsas viu três startups (MotelFinder, MotelNow e a genialmente batizada Foking).

Em 2013, durante quando a curva da economia apontava para cima os motéis brasileiros, movimentaram R$ 4 bilhões por ano, desde lá, no entanto, o volume vem murchando. Somente em 2016, a queda foi de 20%.

Talvez agora os empresários do setor estejam mais abertos que nunca a ouvir alguém prometer novas receitas e o Guia de Motéis está em uma posição única para explorar essa chance.

Para começar, a empresa tem um segmento profundo do setor. O Guia de Motéis foi fundado em 1999, durante o primeiro boom da Internet brasileiras. 

Na época, era a versão digital do Guia de Motéis em papel, oferecido pela revista Playboy. A revista nunca investiu numa presença digital para o produto (parte talvez de um erro maior da Abril, que acabou tirando a famosa revista de circulação no ano passado).

Seja como for, o Guia de Motéis aproveitou a oportunidade e hoje tem 3500 motéis cadastrados, com informações atualizadas diariamente e acessadas por cerca de 1 milhão de pessoas por mês. 

O modelo de negócio era até agora em cima de cupons de desconto, mais um fee mensal de cada motel. 

O novo app é mais complicado, envolvendo tecnologia de pagamentos e perspectivas de crescimento exponencial, o que é desafiador para uma empresa que nunca teve dinheiro de investidores, aponta Elsas.

“O mercado de motéis anda um pouco detrás. Agora, com Uber, iFood, 99, os clientes estão esperando por um serviço assim. É a hora certa”, acredita Elsas.