ContaAzul mira contabilisitas. Foto: divulgação.

A ContaAzul quer transformar os escritórios de contabilidade, um tipo de prestador de serviços com grande influência sobre a maneira como os pequenos negócios são administrados, em um canal de venda dos seus softwares de gestão na nuvem.

No momento, a startup de Joinville está rodando um programa de canais com alguns escritórios parceiros ainda em beta.

A ideia é evoluir para uma iniciativa mais completa, oferecendo verbas de marketing, gerentes de contas alocados e até uma participação nas mensalidades.

A estratégia da ContaAzul não é baseada apenas na parceria comercial, o que é um caminho complicado para trilhar com parceiros que não tem na indicação de software a sua vocação original.

A companhia mapeou os 16 sistemas de gestão de escritórios de contabilidade mais usados no país e criou uma integração com o seu sistema de gestão oferecido gratuitamente para os contadores para 13 deles (a companhia tem outros 24 sistemas na lista).

Com a integração, os contadores recebem automaticamente nos seus sistemas de contabilidade as informações sobre a movimentação comercial dos clientes, eliminando o trabalho burocrático e liberando os profissionais para uma atuação mais consultiva com os clientes.

“Os contadores são fundamentais para as pequenas empresas. Só que muitas vezes, boa parte do tempo é consumida em tarefas que não agregam valor”, resume o CEO da ContaAzul, Vinicius Roveda.

De acordo com uma pesquisa feita pela ContaAzul com a sua base de usuários, 61% das empresas acreditam que o seu contador “só resolve a parte fiscal”. Apenas 16% indicam os contadores como “estratégicos”. 73% acreditam que o seu escritório de contabilidade “poderia ser mais próximo”.

Alguns players do mercado de sistemas de gestão para escritórios de contabilidade usar seus clientes como “ponte” para o mercado em geral, mas ninguém foi especialmente bem sucedido com esse approach.

A ContaAzul está tentando um caminho um pouco diferente. Depois de criar uma base de usuários significativa (a empresa não abre números exatos), ela espera gerar valor para os contadores por meio da integração com o ERP dos seus clientes, para que os contadores em troca trabalhem pelo aumento da base.

“Nós fomos para dentro dos escritórios de contabilidade, no intuito de entender como era o dia a dia. Lá, vimos que a maior parte do tempo era ocupada com redigitação. Essa prática era necessária porque os dados não vinham digitalizados”, explica Marcelo dos Santos, outro dos sócios do ContaAzul.

De acordo com dados do Conselho Nacional de Contabilidade, existem no Brasil, só no Brasil, existem 491 mil profissionais registrados e 82 mil escritórios ativos.

Nos últimos cinco anos, houve aproximadamente 170 mil novos registros de profissionais da Contabilidade.

Do total de contadores e técnicos em contabilidade registrados nos 27 Conselhos Regionais de Contabilidade (CRCs), cerca de 135 mil estão na faixa etária de até 35 anos, em tese, profissionais mais abertos ao conceito de software na nuvem.

Como quase todas empresas tem um contador, é um público capaz de alavancar as vendas do ContaAzul, cujos softwares começam em um preço de apenas R$ 29 mensais para as funcionalidades mais básicas, chegando a R$ 199 na mais completa (contadores costumam colocar seus honorários mensais na faixa do salário mínimo).

Essa não é a primeira tentativa da ContaAzul de criar um canal de revenda do seu software. Em 2013 a companhia chegou a abrir um projeto de formação de consultores que deveriam ajudar as empresas adotarem seus produtos, mas a iniciativa não decolou.

O desafio da empresa é justamente manter os clientes na base, problema no qual uma parte terceira interessada como um contador ou um consultor poderia ajudar.

A ContaAzul afirma que 400 mil empresas já usaram seu software, cifra que inclui companhias que fizeram o trial gratuito e assinantes em todas as modalidades. Outros 20 mil entrariam por mês. A empresa não abre qual é a base de assinantes atuais.

As expectativas e o buzz em torno da empresa são grandes. A ContaAzul trouxe para o país o modelo de software de gestão na nuvem com interface amigável popularizado no exterior por empresas como QuickBooks e ZeroPaper.

Fundada em 2011, a ContaAzul foi a primeira startup brasileira selecionada pela 500Startups, um dos principais programas de aceleração de negócios no Vale do Silício, ficando incubada por quatro meses nos Estados Unidos.

A companhia mantém o estilo das startups da Califórnia. Em uma visita recente na sede da empresa em Joinville, a reportagem do Baguete viu os inevitáveis pufes, café da manhã liberado para os funcionários (poucos com mais de 30 anos) e o ambiente de descontração concentrada que se espera de uma companhia nascente de sucesso.

Com 200 funcionários hoje, a ContaAzul é a empresa do momento na cidade catarinense (com direito a tentativas inusitadas de conseguir emprego). Neste ano, foi escolhida pelo Gartner como uma das Cool Vendors no Brasil.

Talvez mais importante do que o interesse de potenciais funcionários e empresas de consultoria, as empresa também tem conseguido atrair o interesse de fundos de investimento.

Em fevereiro, a empresa recebeu um aporte na faixa dos R$ 20 milhões pela Tiger Global. Outros grandes fundo como Ribbit Capital, 500 Startups, Monashees e Valar já fizeram aportes.

No entanto, a empresa ainda precisa entregar a promessa de ter um produto altamente escalável, capaz de transformar a ContaAzul de uma startup em uma companhia de grande porte capaz de dar o retorno esperado para os investidores.

Companhias de software de gestão como Datasul, fundada em Joinville e comprada pela Totvs por R$ 700 milhões, já fizeram história na TI brasileira. Agora uma nova geração quer tentar de novo.

* Maurício Renner viajou a Joinville a convite da ContaAzul.