Thiago Maffra, diretor de TI da XP Inc. Foto: divulgação.

A Clear Corretora, uma empresa da XP focada em renda variável, se prepara para lançar em dezembro uma ferramenta de inteligência artificial voltada para os chamados day traders, como são conhecidos os investidores que buscam lucro com a oscilação de preço dos ativos ao longo do dia.

Segundo a companhia, a IA será usada para ajudar o investidor a não cair em armadilhas nas operações de compra e venda de ações, orientando-o para potencializar seus ganhos.

Para isso, a ferramenta vai estudar o comportamento dos clientes para identificar padrões que expliquem sucessos ou fracassos nos pregões, apontando o que eles poderiam fazer diferente.

Um exemplo já observado pela empresa é que os traders tendem a se dar conta do lucro muito rápido e, quando estão perdendo, tendem a segurar essa perda por mais tempo — quando o certo seria o contrário.

Nesse caso, o algoritmo estabelece uma porcentagem limite para perda e para ganho, dependendo do perfil, e sugere pontos de parada quando o investidor estiver perdendo e pontos de zeragem quando estiver ganhando. 

De acordo com a XP, a nova funcionalidade serve para todos investidores, mas deve gerar ainda mais valor para quem está começando, ajudando a estabelecer uma relação ganha-ganha no longo prazo.

“Se o cliente está satisfeito, bem assessorado, investindo da forma correta, com uma locação correta para o perfil dele, no longo prazo ele vai ter retornos mais adequados e vai continuar com a gente para sempre”, explica Thiago Maffra, diretor de TI da XP Inc.

Com a aposta nesse tipo de ferramenta, a XP está de olho no crescimento projetado para o mercado brasileiro de ações. Hoje a Bolsa de Valores conta com cerca de 3 milhões de CPFs (cerca de 1,5% da população) e a expectativa do grupo é que esse número chegue a 10 milhões nos próximos anos.

Se a projeção se confirmar, serão 7 milhões de novos investidores que não estão acostumados a investir em ações, o que gera mais necessidade de ferramentas educativas voltadas para renda variável.

Entre a concepção e as primeiras funcionalidades disponíveis para os clientes (conhecidas no jargão de startups como MVP), o projeto de inteligência artificial da Clear durou seis meses.

A rapidez é resultado da transformação realizada na empresa nos últimos dois anos.

Até 2018, a XP trabalhava com a metodologia waterfall, com um time de TI com cerca de 60 pessoas. Desde então, a empresa começou uma transformação e hoje atua com um modelo 100% organizado por squads, integrando as áreas de negócios e tecnologia.

Atualmente, a corretora conta com mais de 80 squads com times multifuncionais focados em um pedaço da jornada do cliente. 

No total, são mais de 1 mil pessoas atuando nos três pilares básicos das squads: produto, design e a tecnologia propriamente dita, com infra e engenharia de software.

“Quando você pega empresas do mercado financeiro, normalmente você tem uma estrutura de TI. Aqui a gente realmente conseguiu fazer um modelo muito mais próximo de empresas digitais como Spotify, Netflix e Amazon, por exemplo, onde você tem negócio e tecnologia integrados”, compara Maffra. 

Já no início de 2019, a companhia reforçou uma transformação voltada para dados, construindo um time interno focado no assunto que, hoje, conta com cerca de 80 pessoas.

Anteriormente, a empresa também tinha silos de dados e precisou criar um data lake central 100% em nuvem, o que também foi feito no ano passado. Assim, 99,9% dos canais são taggeados e os dados de tudo que os clientes fazem na XP são injetados nesse lake.

Inicialmente, a plataforma de cloud escolhida foi a Microsoft Azure mas, em 2020, já com os dados, a companhia começou a estruturar o time de cientistas de dados e passou a usar ferramentas mistas. 

“A gente também usa muito AWS hoje em dia, uma tem ferramentas melhores de um lado, piores de outro, então a gente utiliza ambas as clouds”, conta o diretor de TI. 

Segundo a XP, a tecnologia virou o seu pilar central e ela se posiciona cada vez mais como uma empresa de tecnologia que atua no mercado financeiro, e não o inverso. Hoje, um terço da XP é voltado para a área, número que deve chegar a 50% nos próximos anos.

Nas condições pré-pandemia, toda essa estrutura de pessoal ficava em um prédio na Avenida Presidente Juscelino Kubitschek, em São Paulo, com andares que eram chamados de XP Lab. Com o novo cenário, a empresa optou pelo home office para sempre.

Isso possibilitou que, durante a pandemia, a companhia contratasse pessoas de diferentes países, como Portugal, Canadá, Estados Unidos, Alemanha, além do Brasil inteiro.

Agora um espaço paulistano, menor do que o anterior, funcionará somente como uma base comercial da empresa. 

Além disso, ela está construindo a chamada Vila XP, um escritório conceito localizado em São Roque, no interior do estado, para promover a integração entre os funcionários. Caso desejem, as pessoas poderão ir ao local com seus times e ficar hospedadas no hotel pelo tempo necessário.

“Se quiserem reunir o time uma vez por semana, ok. Se quiserem uma vez por ano, ok também. É mais um centro de integração, de convívio, do que um posto de trabalho”, explica Thiago Maffra, diretor de TI da XP Inc.

A Clear foi fundada em 2012 e, dois anos depois, teve 100% de suas ações adquiridas pela XP Inc. Por meio de suas marcas, o grupo tem hoje R$ 563 bilhões sobre custódia e 2.645 de clientes ativos.