"Eu entreguei o projeto". "Não, você não entregou". Foto: Pexels.

A Infosys decidiu se manifestar publicamente sobre a acusação feita pela Saraiva de ter fracassado em um projeto de implementação de software de gestão SAP na rede de livrarias, tema de um pedido de indenização na Justiça.

Em uma nota enviada ao Baguete, disponível na íntegra ao final da matéria, a multinacional indiana afirma que a implementação foi entregue “de acordo com termos mutuamente acordados e aceitos formalmente pela Saraiva”.

A Infosys prossegue, afirmando que foi listada pela Saraiva como credora no pedido de recuperação judicial, no final de 2018, e que “aguarda os trâmites legais para a quitação da dívida por parte da Saraiva”. 

A reportagem do Baguete questionou a Infosys sobre quando foi feito o aceite formal por parte da Saraiva e quais foram os termos mutuamente acordados, mas a companhia preferiu não dar mais detalhes.

O projeto de implementação do SAP na Saraiva se tornou um dos assuntos quentes no mundo de TI na semana passada, quando o Valor Econômico revelou que a livraria estava processando a Infosys e a SAP em busca de um ressarcimento dos prejuízos supostamente causados por problemas na implementação.

No texto da ação, a Saraiva acusa a Infosys de ter "praticamente paralisado" a empresa por 60 dias por erros no projeto. A varejista afirma não ter conseguido emitir notas fiscais, ter sofrido interrupção nas vendas, pagamentos a fornecedores e obrigações fiscais. 

A Saraiva afirma que uma consultoria auditou o processo e demonstrou “erros crassos” na implantação, que pulou etapas, não respeitou o manual da SAP e encareceu os custos. 

Já a SAP é acusada no processo de ser responsável pela indicação da Infosys, e, por tanto, corresponsável pelo resultado final. 

A multinacional alemã não comentou o processo, alegando não ter recebido a intimação (a Infosys também não recebeu) e falou apenas genericamente sobre as suas práticas, dizendo que não recomenda empresas para implementar suas soluções e que essa escolha é de “critério exclusivo do cliente”.

A posição da Infosys, que decidiu falar seis dias após a publicação da matéria do Valor, deixa uma interpretação óbvia nas entrelinhas: o projeto foi entregue, a Saraiva aceitou a entrega e a dívida e agora decidiu processar.

A dívida efetivamente está lá. Com R$ 33,8 milhões por receber, a Infosys é inclusive um dos três maiores credores individuais da Saraiva no pedido de recuperação, entregue em 23 de novembro de 2018. 

O valor é cerca da metade da conta total de R$ 64,9 milhões da Infosys com a livraria. Já a SAP parece ter cobrado sem maiores problemas os R$ 16,23 milhões pelas licenças de software.

Até aí, tudo preto no branco. O que não está claro é quando foi feita a entrega, o que foi entregue e em que condições para a Saraiva, que hoje afirma usar de novo o seu sistema antigo.

Poderia ser possível que, durante o projeto, Saraiva e Infosys tenham alterado de comum acordo os termos iniciais da implantação, por exemplo.

Seja como for, a Saraiva parece ter decidido jogar suas fichas no processo. Até porque, no momento, pagar a dívida com a Infosys não parece uma opção viável.

Isso porque, na semana passada, o leilão que a rede de livrarias abriu com o objetivo de vender parte de suas operações não atraiu nenhum comprador habilitado.

A meta era angariar ao menos R$ 189 milhões com a venda de 23 lojas físicas ou R$ 150 milhões com a operação de vendas virtuais da rede. Havia ainda a possibilidade de compra casada das duas operações, mas nenhum dos preços mínimos foi atingido.

Segundo a mais recente versão de seu plano de recuperação judicial, renegociado com os credores em fevereiro, a empresa pode abrir um novo edital alterando os termos de compra para seus ativos.

Caso a ausência de compradores permaneça, o plano volta à mesa de negociação com os credores, sempre sob orientação do juiz que acompanha o processo.

Enquanto a situação não se define, a Saraiva, que já foi a maior rede de livrarias do país, vai definhando, com os seus problemas agravados pela crise econômica e o coronavírus: no ano passado, a rede fechou metade de suas 73 livrarias espalhadas por diversas cidades do país.

A dívida total da companhia chega a R$ 675 milhões, a maior parte deles concentrados em editoras de livros e fornecedores de eletrônicos dos quais a Saraiva comprou produtos e não pagou.

É nesse contexto que deve ser entendida a decisão de processar a SAP e a Infosys.

Por mais que projetos de implementação de ERP possam causar problemas, é raro que os clientes falem publicamente sobre o assunto e, mais raro ainda, que decidam processar grandes fornecedores de tecnologia e seus parceiros, como é o caso da SAP e da Infosys.

Os motivos para isso são vários. Um deles é que um grande projeto desse tipo tem uma grande dose de responsabilidade do lado do comprador e não é tão fácil estabelecer a fronteira das responsabilidades, ou quem é culpado pelo que.

Outro é que os clientes devem temer, justificadamente, que os contratos assinados com gigantes multinacionais como SAP e Infosys são muito bem pensados pelo lado dos fornecedores para evitar justamente esse tipo de situação.

Para fechar, não é tão fácil assim arrumar um fornecedor de ERP para empresas de grande porte. O mercado é dominado pela SAP e quatro ou cinco outras empresas, todas menos relevantes no segmento. 

Talvez muitos clientes com projetos complicados analisem a situação e concluam que, frente a tudo isso, é melhor renegociar condições e terminar o projeto mesmo com problemas de percurso do que começar outro do zero.

Apesar do específico da situação da Saraiva, o processo desatou uma discussão sobre responsabilidades em grandes projetos de implementação ERP, o tipo de iniciativa que dá problemas muito mais vezes do que os fornecedores gostariam de admitir.

Uma eventual decisão em favor da livraria, ou um acordo com a SAP e a Infosys para encerrar o processo, teria implicações muito além desse projeto em particular, abrindo um precedente para todo tipo de ações no futuro.

A NOTA DA INFOSYS:

“A Infosys informa que não recebeu a intimação, mas esclarece que prestou serviços de implantação do software SAP para a Saraiva, os quais foram entregues de acordo com termos mutuamente acordados, e aceitos formalmente pela Saraiva. Em 2018 quando entrou com pedido de recuperação judicial, a Saraiva listou a Infosys nos autos como credora para os serviços prestados. A Infosys aguarda os trâmites legais para a quitação da dívida por parte da Saraiva”.