Feira do Sebrae. Instituição é referência para pequenos empresários. Foto: divulgação.

O Sebrae conseguiu o que vinha tentando pelo menos desde o começo dos anos 2000: colocar no mercado sistema de gestão de graça. Desta vez, sem nenhuma oposição do meio empresarial de TI, que se manifestou duramente contra planos parecidos no passado.

Em novembro do ano passado, foi divulgado pela imprensa especializada o começo das operações da MarketUp, com a meta de ter 100 mil micro e pequenas empresas do país usando seu sistema gratuito até o final de 2015. Na ocasião, a empresa já contava com 8 mil clientes em beta. 

O histórico do produto, chamado de MarketUp, começa bem antes, em 14 de outubro de 2013. Na ocasião, o Sebrae abriu um edital buscando uma empresa interessada em ceder os direitos de uso de uma solução de ERP incluindo nota fiscal, módulo de PDV e gestão de pessoas.

A Nuvemsis, empresa dona da marca MarketUp, foi a única interessada a comparecer na sede do Sebrae Nacional duas semanas depois e ganhou a disputa. Em troca de não cobrar pelo uso do software, o produto é indicado no portal do Sebrae. Provavelmente, a mesma orientação será dada aos consultores da organização.

A reportagem do Baguete procurou o Sebrae e a Nuvemsis, mas nenhum dos dois aceitou dar uma entrevista para essa matéria.

Na última tentativa do gênero, ainda em 2006, o Sebrae e o Banco do Brasil se dispunham a pagar por uma companhia que desenvolvesse o software, o que causou uma reação contrária de companhias alegando que era injusto dois órgãos públicos financiarem a criação de um concorrente. 

A tentativa de 2006 foi precedida de dois programas anteriores, o primeiro deles ainda em 2000, para a criação de softwares de gestão simples e gratuitos batizados de Empresário. 

Nenhuma das três tentativas chegou a emplacar, e uma brincadeira comum entre empresários do setor de tecnologia era que o Sebrae tinha desistido da série, após o naufrágio do Empresário III - A Missão.

No entanto, não é possível igualar o MarketUp totalmente com esses antecessores por mudanças no contexto com novidades tecnológicas como a computação em nuvem, o uso cada vez mais disseminado em pequenas empresas de software de gestão online e, no caso particular desse novo software, apoiadores de peso.

A marca MarketUp foi criada em 2012 por Carlos Azevedo, sócio do fundo de investimentos em empresas de Internet YCR Participações e fundador do Guia da Semana, comprado pela RBS em 2008. Outro sócio é Luis Fernando Gracioli, diretor de novos negócios online da RBS entre 1994 e 2011. 

Os dois não estão sozinhos. Os investidores na empresa incluem ainda Romero Rodrigues (Buscapé), Alexandre Hohagen (ex-Facebook) e Hélio Rotenberg (Grupo Positivo). 

A MarketUp é hospedada na nuvem da Amazon Web Services e afirma atender 20 segmentos, incluindo moda/acessórios, jardinagem, papelarias, óticas, empórios, perfumarias, vídeo, decoração, esportes, joias, bancas/quiosques, pizzarias, lojas de games e informática.  Em breve, terá versão exclusiva para bares, padarias, restaurantes e para salão de beleza.

O modelo de negócio baseia-se em venda de patrocínio para poucos grandes apoiadores interessados em atingir o público de pequenas empresas. Um dos primeiros grandes clientes é o Bradesco.  

No lançamento do produto, no final do ano passado, executivos da companhia garantiram que só o dinheiro do Bradesco manteria o produto até o final de 2015. Depois, a ideia seria buscar outras quatro cotas de patrocínio, cada uma capaz de bancar a empresa por mais um ano.

Os termos de contrato dão garantias que as empresas não terão dados revelados para os patrocinadores (a ênfase nesse ponto não é à toa: é fácil ver o interesse que o Bradesco teria em saber o fluxo de caixa dos potenciais compradores, por exemplo).

A MarketUp tem o que as tentativas anteriores do Sebrae não tinham. Um modelo de distribuição, um público mais acostumado a ser atendido por suporte remoto e um grupo de apoiadores poderosos. 

Além disso, apesar das tentativas frustradas com software de gestão no passado, o Sebrae segue sendo estando em uma posição privilegiada para fomentar uma iniciativa do gênero, através de 8 mil consultores e instrutores credenciados em 700 pontos de atendimento em todos os estados do Brasil.

Isso não quer dizer, no entanto, que a companhia terá sucesso garantido, como mostra uma comparação com a ContaAzul, empresa de Joinville que é a referência quando o assunto é software de gestão na nuvem no país.

Há quatro anos no mercado, capitalizada por fundos de investimentos como Monashees e TigerGlobal, e dez vezes mais funcionários que a MarketUp (cerca de 200) a ContaAzul informa que 400 mil empresas já se cadastraram no seu software (isso não quer dizer que todas sejam usuárias hoje, uma vez que a empresa dá um trial gratuito).

Supondo que um quarto dessas empresas tenham se tornado clientes (uma previsão otimista, dado o mercado que a empresa atua) a ContaAzul teria levado quatro anos para atingir a meta que a MarketUp se propõe bater em um. 

O fator gratuidade pode pesar, a favor da MarketUp, mas é relativo nessa camada do mercado. A ContaAzul, tem planos largando em R$ 29 mensais, com os mais caros na faixa dos R$ 199.

A medida em que a base de clientes escala, a MarketUp terá o desafio de ampliar as funcionalidades do seu software, ao mesmo tempo em que atende aos anunciantes, um modelo de negócio complexo em um mercado no qual, cada vez mais, a mídia é segmentada em diferentes meios.

Seja como for, mercado potencial existe. Estatísticas do Empresometro.com que apontam que das 16 milhões de empresas registradas hoje no Brasil, 99% se enquadram no perfil de pequenas e médias, sendo que dessas cerca de 70% não possuem sistema de gestão financeira.