Steven Brazier. Foto: divulgação.

Novos players de nuvem pública como Amazon e Google estão redefinindo o mundo da tecnologia. Empresas tradicionais como IBM, HP e Dell estão numa fria, estando condenadas à irrelevância no médio prazo e quem sabe até à desaparição.

Com mais ou menos nuances, esse tipo de previsão já é parte da sabedoria convencional de muitas pessoas na área de TI.

No entanto, tudo isso pode estar errado. Algumas mudanças futuras na economia americana podem alterar as regras do jogo, colocando as gigantes de TI de volta no centro dos acontecimentos.

Pelo menos, é no que acredita Steven Brazier, CEO da consultoria inglesa Canalys.

O executivo fez um provocativo keynote no Canalys Channel Forum, organizado pela empresa em Cartagena na Colômbia durante a semana passada.

Para Brazier, o fator que deve em breve mudar as regras do jogo se chama taxa de juro americana.

Desde 2008, o Federal Reserve vem mantendo as taxas de juros nos Estados Unidos nos seus menores patamares históricos, entre zero e 0,25% ao ano, como uma forma de reaquecer a economia.

A economia tem respondido e é cada vez mais forte a especulação que o banco central americano vai aumentar os juros em dezembro.

Com isso, argumenta Brazier, empresas como a Amazon verão os custos para seguir financiando o investimento em infraestrutura de data center disparar.

Mesmo uma alta pequena pode ter um impacto pesado. A Amazon Web Services, por exemplo, gasta fabulosos US$ 4,5 bilhões por ano em investimentos nos seus data centers.

Os custos serão repassados e o argumento econômico para migração de estruturas on premise para a nuvem será enfraquecido.

“O fenômeno da computação em nuvem tem muito a ver com esse período no qual foi barato contrair crédito para bancar a infra”, acredita Brazier.

Para o CEO da Canalys, o cenário futuro será híbrido, com parte das aplicações on premise e parte compradas na nuvem.

Nesse último modelo, Brazier acredita numa maior participação da figura do canal de tecnologia, que atuará como um intermediário entre as empresas e os provedores de SaaS, consolidando diferentes contas em uma única “fatura” – um pouco dentro do que fazem as companhias especializadas em licenciamento de software hoje.

O especialista também criticou novos players que andam muito “hypados” mas não demonstraram ter um modelo de negócio viável.  

Para Brazier, eles serão vítimas do mesmo cenário econômico que afetará os preços dos serviços na nuvem, nesse caso, se tornando alvos fáceis para aquisições das gigantes de TI, que hoje acumulam bilhões em capital.

O inglês citou o exemplo da Pure Storage, fabricante de sistemas de armazenagem flash que acaba de fazer um IPO no qual as ações caíram em valor frente os preços de abertura.

“Eles gastam o dobro do que faturam. Eu gostaria de abrir uma loja de vinhos operando nesse modelo”, brincou o executivo.

Em 2015, 20 companhias de tecnologia abriram capital na bolsa nos Estados Unidos, cerca de um terço do número do ano passado e menos da metade do de 2014.

Para o CEO da Canalys, esse é um sinal de que “as empresas pequenas não conseguirão ficar grandes”, o que reforça a tese da onda de consolidação.

A análise de Brazier é interessante e provê uma necessitada vacina para profissionais da área de TI, martelados constantemente com chavões dobre “inovação”, “disrupção” e a ideia de que o mundo será radicalmente reconstruído nos próximos quinze minutos.

A mensagem foi mais do que bem vinda pelo público do Canalys Channel Forum, que, como o nome diz, é um evento orientado a canais e distribuidores de grandes empresas de tecnologia.

* Maurício Renner cobre o Canalys Channel Forum em Cartagena a convite da Canalys.