Gilson Magalhães, presidente da Red Hat Brasil. Foto: Divulgação.

Imagine ter um dia um relacionamento com uma instituição financeira que pudesse oferecer uma forma simples para comparar várias fontes de financiamento, permitindo a você decidir imediatamente pela melhor alternativa, sem burocracia, bastando confirmar sua opção na tela de um smartphone ou computador. Imagine ainda, poder comparar suas contas domésticas com padrões que permitam identificar desvios e oportunidades de economia, cancelar assinaturas indesejadas com um clique, gerenciar múltiplas contas de bancos distintos, rastrear pagamentos, entre outras facilidades. Estas são as promessas do Open Banking, um novo conceito que permite que dados circulem livremente entre instituições financeiras com segurança e privacidade.

Podemos estar cada vez mais próximos dessa realidade, e os brasileiros gostam bastante da ideia. Só em 2018, as transações financeiras bancárias móveis cresceram 70% no país, apontam dados da Febraban (Federação Brasileira de Bancos).  Com o Open Banking funcionando a pleno vapor, esse percentual deve aumentar de forma substancial: a expectativa é que até 2022 mais de 33 milhões de pessoas no mundo subscrevam algum tipo de serviço de open banking.

Ainda que restem muitos desafios a transpor, alguns fatos estão acelerando essa mudança. A evolução dos requisitos regulatórios, o rápido avanço das tecnologias que suportam o conceito, o aumento das demandas dos clientes e a concorrência das empresas iniciantes (Fintechs) estão forçando as prestadoras de serviços financeiros, especialmente os grandes bancos de varejo, a repensar a maneira de operar no mercado e agir com rapidez.

Essa nova tendência da transformação digital exige que as organizações interessadas em implantar a plataforma de open banking melhorem – e muitas vezes reformulem completamente – suas capacidades técnicas. Além disso, e acima de tudo, torna-se indispensável revisar a estratégia como um todo e garantir o compromisso da cúpula da organização para repensar e ajustar as operações.

Não se trata de um caminho fácil. Após vários anos de muito estudo, autocrítica e elevado investimento, organizações de todos os setores seguem lutando para transformar a maneira como operam e ofertam seus produtos e serviços para atender ao consumidor superconectado. Apesar do esforço, de acordo com uma pesquisa feita com 734 líderes de negócios pela Harvard Business Review Analytic Services no ano passado, apenas 8% das empresas de serviços financeiros classificaram os investimentos na transformação digital das suas organizações como muito eficazes.

Uma análise mais aprofundada das respostas revela que tais empresas estão enfrentando obstáculos ainda mais significativos do que outras organizações para transformar sua oferta. A natureza rígida, avessa ao risco e normalmente fechada do setor funciona como barreira contra a mudança cultural e tecnológica exigida para a obtenção de uma maior colaboração, adaptabilidade, abertura e transparência, fatores críticos para o sucesso no mundo digital. Embora muitas destas companhias já estejam adotando processos fundamentais para a modernização, e em ritmo mais acelerado do que outras indústrias – como a entrega ágil de software –, elas sofrem com suas estruturas legadas que as impedem de competir na mesma velocidade dos novos entrantes, leves e naturalmente “descolados”.

Outro fator atenuante da velocidade das mudanças é que a maioria das instituições do setor financeiro não está conseguindo implementar e usar métricas específicas para monitorar o resultado de seus esforços de transformação digital. Isso acontece, em parte, devido à complexidade e à natureza fragmentada de seus negócios e tudo indica que seus investimentos estão tendo sucesso limitado até o momento. Sem a devida capacidade de avaliação do retorno do investimento, adicionar esforços depende mais de instinto do que de convicção.

Cientes de suas limitações atuais, as principais empresas do segmento financeiro estão atentas aos fatores de sucesso mais importantes para avançar com a transformação digital. A esmagadora maioria dos entrevistados pela HBR (83%) disse que uma combinação balanceada da tecnologia, dos processos e da cultura é fundamental para mudar o modus operandi, ressaltando que os maiores entraves não estão relacionados, primordialmente, à adoção de uma tecnologia específica (34%), porém a questões culturais internas (60%) e de processos (47%).

Para contornar os principais problemas e se tornar líder em open banking, as instituições financeiras deveriam considerar a adoção do conceito de cultura organizacional aberta e colaborativa, que facilita a implantação e uso das novas tecnologias necessárias para a viabilização da plataforma. Isso não ocorre do dia para a noite, tampouco somente colocando tobogãs, snacks e mesas de pingue-pongue à disposição dos funcionários. Trata-se, de fato, de um movimento na direção da valorização da inovação, manutenção de portas abertas, redução de camadas hierárquicas, gestão de talentos, entre outras características que precisam ser encabeçadas e defendidas pelas lideranças.

Inevitavelmente, e em breve, o conceito de open banking irá impactar nossa relação com os serviços financeiros transformando, irreversivelmente, a maneira como lidamos com eles. As instituições que conseguirem eficazmente superar as dificuldades mencionadas terão criado para si uma nova habilidade que permitirá ampliar sua gama de serviços para um patamar ainda não imaginado.

*Por Gilson Magalhães, presidente da Red Hat Brasil.