AGRIDOCE

Battery Day da Tesla empolga e decepciona

24/09/2020 10:14

Evento trouxe boas novidades sobre engenharia de produção. Para o mercado, pode ter sido um banho de água fria.

Elon Musk quer reduzir o custo de fabricação de baterias em 56%.

Tamanho da fonte: -A+A

Quem esperava um lançamento bombástico no Battery Day, evento da Tesla organizado nesta semana, se decepcionou. Não foi anunciada uma super-bateria, tampouco uma nova tecnologia revolucionária. 

O tom do evento foi de redução de custo e melhorias incrementais. Quase tudo ainda por fazer. Prazo de execução: três anos. Para os fãs da marca, foi uma boa notícia. Para operadores da bolsa, um terror. O imediatismo do mercado fez as ações caírem no dia seguinte.

Mas para quem acompanha de perto a pesquisa e desenvolvimento de baterias ou trabalha com engenharia industrial, o Battery Day foi bem interessante. Elon Musk detalhou o plano de como pretende reduzir o custo de fabricação de baterias em 56%. Não custa lembrar que as baterias são a parte mais cara dos carros elétricos atuais.

Em síntese, o plano é verticalizar a fabricação. Ao fim e ao cabo, a Tesla está entrando de cabeça no negócio de fabricação de células de bateria, antes relegado a parceiros fornecedores como Panasonic, LG e CATL. 

Por isso, chacoalhou toda a cadeia de valor e diz que vai eliminar do processo tudo o que não for necessário. Promete reduzir o tamanho das fábricas de baterias em 10 vezes e produzir o dobro.  

Para dar conta da meta ambiciosa de atingir a marca de 3TWh por ano, a verticalização começará pela extração dos minerais essenciais para a produção. Parcerias com mineradores de ferro e níquel dos EUA foram estabelecidas. Segundo consta, o material bruto das mineradoras será entregue nas fábricas da Tesla e o processamento químico será feito em casa. Haja transporte de pedra para tudo isso.

O polêmico lítio, cujas maiores reservas comprovadas ficam na Bolívia, passará a ser extraído do quintal da fábrica no estado de Nevada por uma equipe própria. O cobalto, outro metal polêmico por conta da sua extração na República Democrática do Congo, deixará de ser empregado na composição.

Por fim, a empresa também montará sua própria unidade de reciclagem de baterias. Segundo Musk, obter metais de baterias usadas tem um custo-benefício melhor do que minerar o metal da terra.

Ainda que ambicioso, o plano é factível. Aprendemos a não duvidar mais das empreitadas do Elon Musk, que vem entregando o que promete. A diferença é que agora a Tesla é líder de mercado no seu segmento, além de ser a montadora mais valiosa entre todas. 

Já fabrica mais de meio milhão de carros por ano e tem fábricas na China e brevemente na Alemanha.

 

Empresas grandes tendem a ficarem mais lentas. O desafio da Tesla, agora, é provar que pode continuar crescendo exponencialmente mesmo depois de ter atingido a maturidade. 

* Carlos Martins é Diretor Executivo do E-24 Mobility Lab e idealizador da primeira corrida de carros elétricos do Brasil. Escreve para o Baguete sobre temas relacionados com indústria automobilística e mobilidade.  

Veja também

PERSPECTIVA
O Brasil descobre a Tesla

Quais as chances reais por trás da falação em torno da possível vinda da Tesla para o país?

UNIÃO
Fiat-Chrysler e Foxconn, juntas em carros elétricos

Gigantes vão unir forças para o que estão chamando de Internet of Vehicles, ou IoV. 

CARROS
Cybertruck: por que tão feio?

Picape da Tesla é esquisita e o lançamento foi um fiasco. Mesmo assim, pode dar certo.

INDÚSTRIA 4.0
GM investe R$ 1,9 bilhão em Joinville

Montadora quadruplicou a área e investiu em mais tecnologia na linha de montagem.

CARROS CONECTADOS
Honda adquire desenvolvedora de apps Drivemode

A Drivemode oferece aplicativo de assistência ao motorista, análises para gerentes de frota e solução com foco em montadoras.

PREVISÃO
O futuro apavorante da indústria automotiva

Acordo entre Toyota e BYD é mais uma movimentação que sinaliza disrupção.

MERCADO
Jaguar tem carro elétrico no Brasil

Só que custa nada menos que meio milhão de reais. Carro elétrico vai ser sempre caro?