Karsten Newbury.

A Siemens PLM quer crescer sua participação no mercado de CAD para pequenas e médias empresas e mira na  líder de mercado SolidWorks para cumprir o objetivo.

Mesmo para os padrões da cultura de negócios americana, na qual cutucar o adversário é bem mais comum do que no Brasil,  a Siemens multinacional alemã foi agressiva no discurso durante o Solid Edge University, encerrado nesta quarta-feira, 26, em Cincinatti, Estados Unidos.

Uma expressão usada durante a apresentação do CEO da Siemens PLM, Chuck Grindstaff, meio que resume tudo: “refugiados do SolidWorks”.

De acordo com a Siemens, os usuários da SolidWorks estão fugindo da ameaça de uma migração do kernel Parasolid, hoje licenciado pela Siemens, pelo equivalente da Dassault Systemes, multinacional francesa que adquiriu a SolidWorks em 1997.

O rumor sobre a migração, com a possível perda de compactibilidade entre os dados, foi turbinado pela promessa da SolidWorks de lançar até o final do ano um software de design conceitual para fases iniciais de projeto rodando na nuvem.

Hoje em terceiro lugar  no mercado, atrás da Autodesk, Siemens PLM não perde uma chance de bater na tecla que o futuro lançamento é na verdade o novo SolidWorks e que o velho produto deve ser descontinuado.

A SolidWorks jura de pé junto que não há planos de terminar com a atual versão do produto, que tem dois milhões de usuários, e que ambas ofertas serão feitas em paralelo e de forma complementar.

Há bons argumentos para acreditar em ambas versões. Enquanto o desfecho não chega, a Siemens PLM bombardeia o adversário, aprimora o produto e constrói uma estratégia comercial orientada a promover a migração.

“Estamos comprometidos com uma estratégia de melhoria contínua na qual os usuários são os donos dos dados, sem disrupção, trocas de kernel ou migrações para a nuvem”, dispara Grindstaff. “Uma vez que os clientes veem a diferença do software, migrar é uma decisão fácil”, completa.

Parte da estratégia da Siemens PLM tem, até ironicamente, um compoente forte de uso de cloud computing.

Durante o Solid Edge University, a empresa anunciou a disponibilidade até agosto de uma loja online na qual clientes dos Estados Unidos, Reino Unido e Japão poderão alugar licenças do Solid Edge numa base mensal, com preços entre US$ 100 e US$ 300, dependendo da versão.

O alvo da iniciativa, ainda sem prazo de lançamento no Brasil, são profissionais independentes e startups que queiram usar o produto por um prazo limitado, e, é claro, usuários de outros softwares que queiram fazer um teste.

“É um uso inteligente de cloud computing em uma parte do processo. O usuário ainda roda o software na máquina e mantém o controle sobre os seus dados”, explica Karsten Newbury, VP e gerente geral a área de  Mainstream Engineering da Siemens PLM, responsável pelo produto Solid Edge.

Outros usos de tecnologia de nuvem anunciados no evento envolvem o uso de redes sociais privadas, que podem servir como centralizadores de projetos, através do parceiro GrabCAD, e até a inclusão no software de um feature que permite gravar a tela, e subir o vídeo no YouTube sem sair do produto [também é possível asssitir vídeos, com filtros para evitar dispersão].

De acordo com os executivos da Siemens, as funcionalidades educativas também são importantes na migração, uma vez que usuários acostumados com outros sistemas podem demorar a se readaptar à maneira de fazer as coisas no novo produto.

[É possível inclusive configurar o software da Siemens para que ele se pareça em termos de distribuição de ícones com o SolidWorks, o que é um facilitador extra].

E o que todo esse barulho produziu até agora? É difícil dizer. Durante as apresentações no Siemens afirmou que a linha SolidEdge vem crescendo 25% em base anual – a concorrente Autodesk cresceu 4% no ano passado – e que recentemente a empresa converteu 250 clientes na Alemanha, através da migração de um canal SolidWorks. [No Brasil, um parceiro pequeno na Bahia também mudou de lado].

A Siemens PLM não divulga seus resultados, que são incluídos na divisão de automação da gigante alemã, responsável por quase metade do faturamento de 102 bilhões de euros de 2011.

A empresa é relativamente nova na área de CAD para pequenas, tendo entrado no mercado em 2007, através da compra da UGS por US$ 3,5 bilhões.

As linhas do front estão se desenhando, no entanto. A Autodesk lançou nessa semana um software de CAD na nuvem por US$ 35 mensais.

A SolidWorks deve fazer o seu lançamento até o final do ano, enquanto enfrenta o desafio de dispersar rumores sobre o futuro do seu carro chefe.

A Siemens PLM parece ter optado por um approach mais tradicional, apostando no desejo de segurança de empresas que usam software de CAD para produzir conteúdo de alto valor agregado, em um mercado tradicionalmente conservador em adotar novas tecnologias.

Agora é esperar para ver os próximos capítulos.

* Maurício Renner cobre o Solid Edge University em Cincinatti a convite da Siemens PLM Software.