Cylon Gonçalves da Silva, presidente do Ceitec. Foto: Baguete

O Ceitec terá de reformular seus planos futuros em função da instalação da Six Semicondutores em Ribeirão das Neves, em Minas Gerais, com o governo federal bancando mais da metade do cerca de R$ 1 bilhão destinado à fábrica.

Conforme declarou ao jornal Zero Hora o presidente da Ceitec, Cylon Gonçalves da Silva, o próximo passo do Ceitec seria atuar com tecnologia de 90 a 130 nanômetros, com a qual a Six já anunciou que vai trabalhar.

 “Teremos de reprogramar o jogo”, afirmou Silva ao jornal gaúcho.

Hoje, a fábrica de microcircuitos de Porto alegre trabalha com tecnologias de 600 nanômetros, usada no Bhip do Boi, e 180 nanômetros, que será usada nos passaportes brasileiros a partir de 2014.

Na fabricação de chips, quanto menor o número de nanômetros, mais sofisticada a tecnologia.

Silva pondera que, apesar de a Six tornar-se concorrente, também poderá ser uma futura parceira de produção, já que o Ceitec projeta, mas não fabrica chips.

Atualmente, a unidade gaúcha atua com parceiros internacionais. No caso do Chip do Boi, produz as lâminas de silício, mas os semicondutores finais são fabricados pela alemã X-Fab.

Para o passaporte, a meta inicial era também fechar com fabricantes exteriores, já que, segundo Silva, “seria muito dispendioso implantar uma fábrica para esta tecnologia”.

Com a chegada da Six, uma possível fabricação nacional entra no horizonte de perspectivas.

“É mais barato adotarmos uma logística doméstica do que mantermos uma internacional”, comenta Silva a Zero Hora.

O otimismo não é compartilhado por todos.

O secretário de Ciência, Inovação e Desenvolvimento Tecnológico do Rio Grande do Sul, Cleber Prodanov, por exemplo, analisa que faria mais sentido o governo federal instalar uma unidade de fabricação no estado, ao invés de dividir aporte com Minas.

Conforme Prodanov, por aqui há mais elos do segmento de semicondutores do que por lá, embora Ceitec e Six atuem com focos diferentes – a mineira é uma planta comercial, enquanto a gaúcha tem caráter de laboratório, formação de recursos humanos e produção em pequena escala.

O Ceitec foi criado em 2000 e federalizado em 2008. O investimento geral feito até hoje fica em torno de R$ 500 milhões.

Agora, o mesmo governo federal destina R$ 267 milhões via BNDES, R$ 245 milhões via BNDESPar e R$ 202 milhões via Finep à planta mineira e divide opiniões.

Ouvido por Zero Hora, o ex-economista do Banco Mundial e presidente da Inter B Consultoria, Claudio Frischtak, avalia que seria mais sensato investir no Ceitec, que já é uma estatal federal, tem estrutura montada, e enfrenta dificuldades para deslanchar.

Para ele, o governo federal deveria repensar o Ceitec para uma orientação mais comercial, com parceiros privados, ao invés de investir em outra planta para isso.

No projeto de Ribeirão das Neves, são sócios do governo o empresário Eike Batista, IBM, Matec Investimentos e Infinita WS-Intecs.

O empresário gaúcho Ricardo Felizzola, presidente da HT Micron, voltada ao encapsulamento de chips, não vê a atenção do governo à Six como maléfica.

“A Ceitec tem o papel de aumentar o conhecimento na área. Não teria a capacidade de produção que haverá em Minas. A iniciativa da Six é louvável”, afirmou em entrevista a Zero Hora.

TÁ INDO
O Ceitec mantém gestão público/privada e no fim de 2011 recebeu do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) a posse da fábrica de Porto Alegre, passando a ter autonomia na planta, que tem potencial para produzir 70 milhões de chips/ano.

Em julho deste ano, começou a fabricar suas primeiras lâminas de silício, para o Chip do Boi, que também ganhou sua primeira revenda, a Fockink, de Panambi.

Há outros projetos de atuação comercial em andamento, como o acordo fechado com HP Brasil, que no fim do ano passado testou com sucesso em seu Centro de Excelência em RFID o chip CTC13000, projetado pela empresa gaúcha para identificação de itens em mercados como logística, varejo e área de saúde.

A ideia da HP é utilizar o microcircuito, que já entrou em produção, em impressoras. O pedido em orçamento inclui 18 milhões de unidades do CTC 13000.

Outro caso é o Argentum, que vem sendo desenvolvido pelo Ceitec em parceria com a gaúcha Novus para ser usado em cargas perecíveis, com o objetivo de medir e registrar a temperatura, transmitindo os dados por radiofrequência.
Isso permitirá o uso do chip em mercados como os de alimentos e medicamentos.

Para o governo, o Ceitec segue não só com o chip do boi e o passaporte, mas também no teste do chip Siniav, baseado em RFID UHF para identificação de veículos pelo Sistema Nacional de Identificação Automática de Veículos, do governo federal.  

Outro em fase de testes é o chip Aurum, baseado em RFID HF para rastreabilidade de produtos perecíveis, que tem como maior cliente potencial a Hemobrás, empresa brasileira de plasma sanguíneo em implantaçao em Pernambuco.

De olho nas duas áreas, pública e privada, em 2011 o Ceitec realizou cinco tape-outs (prototipagem de chips) e mais de 100 prospecções de negócios.

Na avaliação de Silva, a empresa é uma “grande startup”, com prazo médio de retorno do investimento e previsão de geração de fluxo de caixa em torno de sete anos.

Isso para chegar ao equilíbrio financeiro. A amortização, esta ainda está bem longe, segundo ele.

“Amortizar é muito difícil, ainda vai levar muito tempo”, analisa Silva. “Por isso o governo está aqui. Se fosse fácil amortizar, o setor privado é que estaria”, completa.

Este ano seráo primeiro em que o Ceitec irá gerar faturamento, com receita projetada em R$ 300 mil, sugindo para R$ 1 milhão em 2013.