ESTADO

Afinal, o que fazia a Cientec?

26/12/2016 14:47

Carlos Martins.

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A Cientec foi extinta junto com outras fundações e estatais pelo governo Sartori, como parte de um pacote de redução de custos proposto pelo executivo gaúcho e aprovado na Assembleia Legistativa na semana passada.

A Fundação Piratini era um das que tinha mais visibilidade no grupo: era responsável pela TVE e Rádio Cultura. A Fundação de Economia e Estatística tinha defensores apaixonados no meio econômico e a Zoobotânica entre os amantes da natureza.

Talvez uma das menos conhecidas do grupo fosse a Cientec, focada na área de Ciência e Tecnologia. 

Nas tardes tórridas de dezembro em Porto Alegre a minutos do recesso de final de ano, uma pessoa pode ser perdoada por passar algumas horas pesquisando, o que, afinal, acontecia no Ceitec.  Foi o que eu fiz.

Em primeiro lugar, não foi fácil descobrir os feitos da Cientec. Na página inicial, há quatro destaques: o aniversário de 74 anos da Fundação; a notícia de que a Cientec teve papel decisivo no ganho de causa para o Estado no caso Ford;  a auditoria de um servidor público na Índia e Emirados Árabes para fiscalizar uma empresa sino-indiana que fornece tubos para Corsan e o DMAE, e finalmente uma ação promovida para conscientização da Saúde do Homem, na qual o palestrante recomenda que se coma mais frutas e legumes e também a prática de esportes. 

Indo um pouco mais a fundo, o relatório de gestão de 2015 explica que a Cientec foi criada em 1942 por iniciativa de engenheiros vinculados à construção de estradas. Na época parece que era uma necessidade o desenvolvimento, teste e medição de materiais de construção. 

Em 2015, a Cientec emitiu 9.911 laudos (média de 39 por dia útil) e 43.459 serviços tecnológicos. Não fica claro o que seriam esses 171 serviços tecnológicos realizados a cada dia. Parece bastante, contudo.

Há também uma incubadora com duas sedes. Em Porto Alegre, dos 11 slots dedicados a start-ups, 6 estavam ocupados em 2015. Já em Cachoeirinha, dos 18 slots, apenas 4 estão em uso. Consta no relatório que 3 incubadas se graduaram em 2015, ainda que a meta definida pelo Governo Sartori fosse 4.  As seguintes empresas se graduaram em 2015: Presentech, UpControl e DS PRO AUDIO. 

De uma maneira geral, houve queda nos indicadores de 2014 para 2015. Por essas e outras razões,  a incubadora estava passando por uma reestruturação interna para alinhar sua gestão aos mandamentos da ANPROTEC.

Lendo mais atentamente o relatório de gestão de 2015 e o histórico da companhia, vai ficando claro que a Cientec atuava com mais afinco à prestação de serviços para a área pública e privada, nas áreas de tecnologia metal-mecânica, geotecnia, engenharia de edificações, materiais de construção civil, química, alimentos, engenharia de processos, e engenharia eletroeletrônica. Do total de serviços prestados, 81,6% foi para a iniciativa privada. A receita total de serviços em 2015 foi de 10,8 milhões de reais. 

Entre os projetos de  pesquisa, desenvolvimento e inovação, destacam-se aqueles voltados à indústria carvoeira, com 8 projetos no total de 10. Isso talvez não agrade muito quem é contra a geração elétrica a partir da queima de combustíveis fósseis. Destes, 4 projetos contavam com financiamento do CNPq,  3 com recursos próprios e um projeto era financiado diretamente pela Companhia de Geração Térmica de Energia Elétrica (CGTEE), subsidiária da Eletrobras (é sem acento).  Os outros dois projetos de PD&I estão relacionados a sistemas de navegação marítima.

Há também os chamados “Estudos Especiais”, que eram desenvolvidos sempre em parceria com alguma universidade. Estes, em sua maioria, destinados à pesquisas na área química, principalmente em bicombustíveis. Havia 23 projetos desta modalidade em 2015. Ademais, há os projetos de execução de serviços, conforme mencionado anteriormente. 

240 funcionários compõem o quadro de recursos humanos. Apenas um era “cargo de confiança” em 2015. A idade média dos empregados é de 53,3 anos. Não encontrei, em mais de 4 horas de pesquisas, dados consolidados sobre a situação financeira da estatal. O relatório curiosamente não informa as despesas e gastos totais da organização. Contudo, informa que a produtividade média de cada funcionário em 2015 (receita de serviços dividida pela força de trabalho ativa) foi de R$ 48.039,80. Fazendo uma conta “de padaria”, poderíamos assumir que, caso a média salarial exceda o valor de R$ 3.700,00 (provavelmente excede), a empresa incorre em prejuízo operacional. Isso sem considerar os impostos sobre o trabalhador, férias, inativos, previdência...

É inegável que a Cientec presta um serviço para a sociedade. Sua linda história, contudo, não é garantia de vida eterna. Resta saber como que as atividades que ela vinha desenvolvendo (e não me pareceu muito em termos de desenvolvimento tecnológico) vai ser absorvido pela comunidade. 

* Carlos Martins é graduado em Comércio Exterior e pela Unisinos e estuda Economia na UFRGS. Já trabalhou para governos estrangeiros como consultor e analista de mercado. 

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