Caroline Capitani, VP de Business Innovation na Ilegra. Foto: Divulgação.

Por Caroline Capitani*
A China, o país mais populoso do mundo, tem dominado o cenário de fintechs global. E o comércio eletrônico é um dos grandes responsáveis por isso. Os EUA, por sua vez, especialmente o Vale do Silício e Nova York, representados pelo pólo tecnológico e a capital financeira do planeta, respectivamente, também têm contribuições importantes quando o tema é revolução da indústria financeira. E o Brasil, país que passa por uma crise política e econômica, que tem uma indústria financeira madura e extremamente regulamentada e oligopolista, está vivendo um período de ascensão de fintechs, abarcando o maior número de empresas nascentes nessa área na América Latina.

Falando especificamente da China, era um setor de demanda reprimida, com espaço para novos serviços bancários digitais. Quem acabou ocupando este grande mercado mundial foram empresas que já possuíam milhares de usuários e, para elas, criar novos serviços financeiros era apenas uma camada comoditizada que seria usada para evoluir seu produto principal. Estou falando da Baidu, que conecta pessoas com informação; o Alibaba, que conecta pessoas com produtos; e a Tencent (dona da WeChat),que conecta pessoas com outras pessoas. 

Esses big players foram responsáveis por puxar o bilionário mercado de fintechs na Ásia, investindo pesado em tecnologias emergentes para prover os melhores serviços financeiros para a próxima geração, como soluções de blockchain, machine learning e inteligência artificial. Esse movimento não ocorreu da mesma maneira na América e Europa, visto que a Google, a Amazon, o Facebook e a Apple – que juntas formam a sigla GAFA – não levantaram fundos para criar spin-offs para desenvolverem suas fintechs como as gigantes listadas acima fizeram na China.

Vale ressaltar ainda que, além de uma grande massa de consumidores desassistida pelo sistema bancário chinês, as pequenas e médias empresas (PMEs) também passaram a recorrer cada vez mais a provedores alternativos de crédito, pagamentos, investimentos, seguros etc. As grandes plataformas amplamente usadas no país permitiram capturar dados que agora estão sendo utilizados para oferecer serviços melhores e experiências mais abrangentes do que os players tradicionais de serviços financeiros.

Por mais que existam lições a serem aprendidas com a ascensão das fintechs chinesas, nem todos os produtos e serviços podem ser simplesmente replicados no Ocidente, principalmente em função da burocracia e cultura de cada país. A combinação da rápida urbanização chinesa, com um sistema regulatório mais brando, amplo mercado de pequenas e médias empresas, alto crescimento do comércio eletrônico e explosão da penetração do online e comunicação móvel criou um terreno favorável para a inovação nos serviços bancários e financeiros de forma mais ampla. 

De qualquer maneira, podemos esperar que a próxima fase de desenvolvimento das fintechs chinesas influencie em como os serviços financeiros globais serão entregues no futuro. Vale lembrar, ainda, que os chineses são conhecidos por se movimentarem muito rapidamente e trabalharem horas e horas ininterruptas para iniciarem novos negócios. E isso pode fazer toda a diferença no dinamismo que vivemos.

Os EUA, nesse contexto, pode ser visto, sem dúvida, como um "país amigo" das fintechs. Lá elas despontam em termos de números totais de fintechs em operação, em diferentes categorias de atuação. O setor é composto por milhares de empresas menores, que normalmente começaram com base zero e não são oriundas de companhias pré-existentes que criaram produtos financeiros em cima. Aqui está uma das diferenças perante ao movimento que aconteceu na China, por exemplo.

Percebe-se, nos EUA, algumas tentativas de disrupção maior. Frequentemente identificamos iniciativas com alto grau de ineditismo. A startup Blockstream, por exemplo, criou o Blockstream Satellite, o primeiro serviço do mundo que transmite transações de Bitcoin em tempo real, por meio de um grupo de satélites no espaço. 

A empresa está pensando lá na frente, preocupada em dar acesso gratuito à rede Bitcoin, incluindo os 4 bilhões de pessoas não conectadas à Internet, devido à falta de disponibilidade ou acessibilidade. Isso justifica o porquê, em um estudo recente que elencou as 250 fintechs que irão mudar o mundo financeiro, a grande maioria das que foram apontadas com potencial estarem abrigadas nos Estados Unidos, especialmente no Vale do Silício e Nova York.

O Brasil, por sua vez, figura em um contexto de fintechs que não movimenta cifras nos mesmos patamares que no mercado chinês e estadunidense. Porém, tem sido a esperança na popularização e acessibilidade de diferentes produtos bancários, devido ao aumento constante dessas iniciativas, especialmente nos últimos três anos. Os próprios fundos de Venture Capital estrangeiros têm olhado e realizado investimentos nas fintechs brasileiras por identificar esse potencial.

A concentração no mercado bancário no país e o seu impacto sobre as altas taxas de juros cobradas aos tomadores de crédito abre um enorme espaço para a concorrência. Atualmente quatro bancos detêm cerca de 80% do mercado de crédito no Brasil. E as fintechs obviamente estão atentas a isso, com o intuito de prover melhor produtos e serviços e, aos poucos, ir quebrando essa supremacia e "conquistar" uma fatia de clientes insatisfeitos com o que se tem disponível hoje. 

O apelo de experimentar o novo também tem motivado, especialmente as novas gerações desapegadas a marcas tradicionais, a irem para as fintechs. E essas estão apostando suas estratégias de aquisições de clientes pelo boca em boca, com pouco gasto em marketing.

Acredito que são as ações coletivas que determinarão o futuro da indústria e as consequentes perspectivas. Por este motivo, olhar esse cenário com uma lente mais aberta, observando potências globais, nos faz ter uma análise mais concreta. Apesar das dificuldades da replicação e exportação de modelos de negócios domésticos no exterior, esse movimento pode sim acontecer pela ambição de muitas empresas serem globais e exponenciais. 

Para tanto, é preciso se adaptar às normas e expectativas culturais locais, legislação e se concentrar em quesitos de segurança. Há ainda a necessidade das fintechs estarem abertas a parcerias e negócios com compradores e investidores estrangeiros.

Além dessa potencial abertura das fronteiras, vejo com bons olhos uma maior inovação nos produtos e serviços financeiros, com clientes tendo mais opções de escolha e suas necessidades atendidas, além de incluir aqueles que ainda estão às margens.

*Caroline Capitani é VP de Business Innovation na Ilegra.