Juliana Akemi e João Alexandre Vaz Ferreira investiram em uma virada nas suas vidas.

Mesmo com todos os desafios de 2020, algumas pessoas conseguiram sair literalmente vitoriosas deste momento difícil. 

Foi o caso da cuiabana Juliana Akemi e do brasiliense João Alexandre Vaz Ferreira, que aproveitaram os últimos meses para investir em uma virada nas suas vidas.

Desde o ano passado, Akemi trabalhava como designer de produto na Pagar.me, uma empresa brasileira de pagamentos on-line. Já Ferreira tem uma carreira mais voltada à análise de dados e, desde 2018, era gerente sênior de growth na Uber.

Os dois, que até então eram um casal, vinham pensando em deixar seus empregos para empreender na área de educação. Depois de pensarem bastante, decidiram dar o passo no final de 2020. Com a chegada da pandemia, os planos foram adiantados para o mês de maio.

Para isso, Akemi e Ferreira vinham há algum tempo estudando Flutter, um kit de desenvolvimento de interface de usuário de código aberto criado pelo Google, e estavam buscando um projeto para trabalhar juntos e praticar o desenvolvimento mobile, colocando as novas habilidades em prática.

Em julho, a dupla procurava por hackathons no site de buscas e se deparou com o D-Code Challenge, da plataforma de inovação aberta Taikai, que estava com inscrições abertas.

No concurso, a CTT, grupo português focado no negócio de correios, buscava um novo sistema de leitura de código de barras das correspondências, a ser utilizado pelos carteiros para checar informações de entrega via smartphones ou tablets.

“Nunca tínhamos trabalhado com desenvolvimento de software, embora já soubéssemos programar um pouco, então vimos o concurso como uma oportunidade de construir um app do começo ao fim e, possivelmente, colocá-lo em produção”, conta Akemi.

Com o novo desafio, a dupla buscou conhecimento em cursos da Udemy e de uma maneira mais informal: tutoriais no YouTube e pesquisas no Google e no Stackoverflow para resolver problemas específicos que surgiam ao longo do projeto.

“Seria completamente inviável desenvolver o app enquanto trabalhávamos (nas empresas) porque, além do tempo de desenvolvimento, tivemos que estudar bastante. A curva de aprendizado foi bastante acentuada durante o mês do concurso”, ressaltam.

Passando a quarentena na mesma casa, em Brasília, os dois começaram a desenvolver em agosto e dedicaram cerca de 400 horas a isso, trabalhando o mês inteiro no projeto. Segundo eles, a rotina de dedicação não tinha um horário fixo nem um número de horas por dia.

“Trabalhávamos mais quando sentíamos que o trabalho estava rendendo e tirávamos um tempo de folga quando precisávamos. Em comparação a trabalhar em uma empresa, essa é uma das vantagens de ter mais autonomia e independência no trabalho”, afirmam.

O resultado foi uma solução que, em dois segundos e em diferentes condições de iluminação, interpreta toda a informação necessária para a leitura da carta, sem necessidade de conexão à internet. 

Compatível com as plataformas Android e iOS, a aplicação combina algoritmos de tratamento de imagem, processamento do código de barras, correção de erros e descodificação dos dados gravados no código. 

“Nos esforçamos bastante para fazer o app, e, conforme progredíamos, percebemos que ele estava ficando muito bom e tínhamos chances reais de ganhar. Quando demos uma olhada nos apps dos competidores, ficamos impressionados com a qualidade dos projetos — inclusive alguns desenvolvidos por uma pessoa sozinha”, contam.

O hackathon contou com mais de 20 projetos de mais 80 participantes individuais de diversos países, como Canadá, França, Itália, Cabo Verde, Índia, Irã e Singapura.

Na segunda semana de setembro, veio o resultado: o projeto brasileiro venceu o concurso e a ferramenta será implementada na operação do serviço nacional de correios de Portugal. Como prêmio, a dupla vai ganhar € 8 mil, valor que equivale a mais de R$ 50 mil.

Akemi e Ferreira, que agora decidiram ser apenas amigos, ainda não sabem o que farão com o montante. “Estamos em uma fase de grandes mudanças nas nossas vidas e o prêmio vai ajudar bastante a realizar essas mudanças com maior tranquilidade”, afirmam.

Para o futuro, a dupla está explorando algumas ideias na área de educação e RH, além de focar em estudar mais programação e desenvolver outras habilidades. 

Para Mário Alves, CEO da Taikai, a história reflete a proposta da empresa de inovação: “Nossa missão é ligar empresas e outras instituições a uma comunidade de talentos, como freelancers, startups e estudantes”. 

Ativa desde 2018, a Taikai tem sede em Portugal e passou a apostar também no mercado brasileiro no fim de 2019. A plataforma e rede social já apoiou mais de 50 organizações na criação de desafios de inovação e conta atualmente com uma comunidade de mais de 30 mil pessoas.

Já a CTT - Correios de Portugal, S.A. é uma empresa de capital aberto fundada em 1520 e que possui cerca de 7 mil locais de atendimento disponíveis em todo o país.