Leia essa matéria imitando a voz do Sérgio Chapelin, para maior diversão. Foto: Divulgação.

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2020 é um ano que ninguém vai esquecer, por mais que queira. Provavelmente, um ano desses que ficam marcados na memória coletiva, como 1989 ou 1945. 

O ano do coronavírus, no qual a população mundial viveu perigosamente, viveu tediosamente, viveu “novonormalmente”, por inventar um advérbio feio usando uma expressão horrível.

E ainda assim, quanta coisa aconteceu no mercado de tecnologia. 

2020 não é só o arco de choque, adaptação e frustração que atravessou as nossas rotinas, mas também o ano no qual aconteceram os piores incidentes de segurança na história do país, os maiores negócios no setor de tecnologia e a maior mudança de orientação estratégica de TI do governo.

Foi o ano em que alguém entrou pelado em uma videoconferência com o presidente, no qual a Stone pagou R$ 6,7 bilhões pela Linx e a Stefanini achou que era uma boa ideia inventar uma cabine para home office.

JANEIRO

Em janeiro de 2020, ninguém sabia nada disso. O Brasil seguia o ritmo lento dos dias do verão. Eu mesmo fazia home office em Capão Novo, no litoral norte do Rio Grande do Sul, com uma jornada de trabalho interrompida por idas à praia e rodas de chimarrão.

Uma das notícias importantes do Baguete neste mês foi que a Sage estava buscando um comprador para parte da sua operação no Brasil.  Foi uma exclusiva cavocada por esse repórter de dentro das entranhas dos relatórios de final de ano da multinacional inglesa.

A venda acabou saindo em março, para o antigo country manager da empresa no país, por uma fração do que a Sage pagou pelas tecnologias vendidas.

Algumas outras notícias que bombaram no site neste mês foram a venda da Consico para a Totvs, o início do desmonte da operação da Oi e os planos de uma empresa algo misteriosa de investir R$ 350 milhões em um data center em Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre.

FEVEREIRO

A primeira menção da palavra “coronavírus” no Baguete foi feita no dia 03 de fevereiro, quando a operação mexicana do Uber decidiu suspender alguns usuários, como uma medida preventiva. Parecia um exagero e por isso virou notícia no site.

Na semana seguinte, falamos dos problemas do Mobile World Congress, o maior evento de telecomunicações do mundo, que ainda acreditava que poderia acontecer em 2020. Não aconteceu, como muitos outros.

Outras informações importantes de fevereiro foram a decisão da SAP de mudar o seu prazo para migração para o S/4 Hana, uma decisão com consequências para os parceiros, e, principalmente, para os clientes da gigante alemã.

Por essa época, no que agora parece uma alucinação, começaram a circular informações de que Santa Catarina tentaria ter uma fábrica da Tesla. Trouxemos uma análise em profundidade sobre o tema.

Outra notícia importante foram os planos da Locaweb de ir às compras depois do seu IPO. Isso não foi uma alucinação: a Locaweb comprou quatro empresas ao longo do ano, gastando nisso ao redor de R$ 300 milhões.

MARÇO

Em março, a realidade do coronavírus chegou com força total no Brasil e na cobertura do Baguete.

O marco inicial dessa fase foi já no dia 02 de março, quando noticiamos um caso de coronavírus na XP Investimentos, o infectado número 1 de uma lista que chega hoje a mais de 7 milhões de pessoas.

A repercussão do vírus no setor de tecnologia foi a nossa pauta no mês, com outros assuntos sumindo do radar. Cobrimos as primeiras decisões das gigantes de TI em adotar práticas de home office em massa, pelo menos fora do país.

Nessa fase inicial, publicamos dois textos críticos ao que parecia então uma reação tímida do setor de tecnologia no Brasil. Em 11 de março, eu registrei que até aquele momento, nenhuma grande empresa de TI brasileira havia implementado home office.

No dia 18, na semana em que a pandemia foi declarada em nível mundial, publicamos um texto provocativo do Paulo Kendzerski, presidente do Instituto da Transformação Digital: “Empresas de TI mostram que tem espetos de pau”.

Kendzerski colocou o dedo na ferida, apontando a distância entre o discurso de transformação digital e a realidade da grande dificuldade de muitas empresas de colocarem home office em prática. É um dos textos mais lidos no ano no site.

Nos dias seguintes, começaram a se suceder os anúncios de migração em massa para o trabalho em casa. No final do mês, publicamos uma pesquisa da Robert Half apontando uma adesão enorme ao home office, realizado em boa parte com enjambrações de última hora.

ABRIL

Abril foi talvez o mês mais cruel na pandemia do coronavírus. Foi quando ficou claro que a doença teria consequências graves para o modelo de negócio de muitas companhias, muitas das quais ficaram sem alternativas a não ser demitir e mudar de rumo, como no caso da Omie.

As consequências do coronavírus repercutiram por toda parte, algumas delas inusitadas, como a falta de programadores Cobol nos Estados Unidos ou os ataques de trolls com pornografia em reuniões no Zoom.

No Brasil, o noticiário variava entre a convicção nos poderes mágicos da cloroquina e os primeiros cases de superação da crise por meio da digitalização dos negócios, como no caso da Arezzo

MAIO

Uma pesquisa no Google Trends mostra que o topo nas pesquisas pelo termo “novo normal” se deram em maio. Foi o mês em que a maioria se deu conta que a pandemia poderia ser uma oportunidade e trazer transformações definitivas.

Empresas como a Stefanini, que ainda em março anunciaram medidas de home office algo tímidas, começaram a ver um futuro no qual trabalhar em casa é a norma (e economizar no aluguel de grandes superfícies de escritórios também). Muitas outras grandes empresas fizeram anúncios do tipo, ver quem vai manter os planos deve ser uma das atrações de 2021.

Outras consequências do “novo normal” começaram a aparecer. As pessoas se deram conta que todas essas horas de videoconferência eram cansativas e algumas começaram a se descuidar - como o participante pelado da call com o presidente Bolsonaro, um dos heróis anônimos do ano que termina.

Um momento interessante do mês foi quando um dos fundadores da SAP, Hasso Plattner, resolveu lavar uma roupa suja sem precedentes sobre os rumos da empresa. A equipe do Baguete, um conjunto de poliglotas, trouxe a informação direto das páginas do jornal alemão Handelsblatt.

JUNHO

Junho começou com o CEO da Natura lembrando aos seus funcionários de não marcarem reuniões na hora do almoço, o que resume um pouco o estado das coisas no Brasil corporativo na metade do ano.

Falando em almoço, os motoboys de aplicativos de entrega organizaram sua primeira greve em junho, um sinal de que o novo normal não estava funcionando também do lado de fora do home office.

Em junho, começaram a aparecer também notícias sobre grandes ataques de ransomware e vazamento de dados, um tipo de informação que surgiu com muita frequência mais adiante no ano. Os ataques da Light e da Catho são exemplos.

O Grupo Ultra fez o que a Qintess disse ser a primeira go live remota de um projeto de ERP da SAP no Brasil, uma realidade que também se tornou mais comum nos meses seguintes e o Serpro começou a vender computação em nuvem da AWS, uma grande mudança de rumos.

O Vakinha, um dos maiores sites brasileiros de crowdfunding, se viu envolvido em uma grande polêmica sobre a militante bolsonarista Sara Winter, que vivia então seus 15 minutos de fama. Tentei contar como é estar dentro de uma empresa no meio do furacão do Brasil atual. É uma das minhas matérias favoritas do ano. 

JULHO

Julho foi o mês da corrida pela startup brasileira.

Abrimos o mês falando da compra pela WEG da BirminD e fechamos com a compra da HubSales pela Magalu, outra compradora voraz.

A Stefanini fez uma compra à primeira vista inusitada, levando a W3Haus, uma badalada agência digital gaúcha.

No meio disso, a IBM comprou a WDG Automation, uma empresa de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, especializada em automação robótica de processos (RPA, na sigla em inglês), sistemas interativos de voz e chatbots.

Foi uma das raras ocasiões em que uma gigante de tecnologia se interessou por uma companhia brasileira pelo seu produto, não pela sua base de clientes.

Dando sequência à lista interminável de vazamentos, foi a vez da Nubank.

Nos últimos dias do mês, duas faces do tema home office. Uma pesquisa da Microsoft revelou o que muitos já intuiam, que quem trabalha em casa, trabalha mais

Por outro lado, dados do IBGE mostraram que a quantidade de pessoas trabalhando em home office começava a recuar.

AGOSTO

Agosto foi o mês da notícia bomba do ano: a Stone fez uma oferta bilionária pela Linx, um dos maiores negócios do setor de tecnologia brasileiro em todos os tempos.

Talvez por ter sido anunciado em agosto, um mês conhecido pelas suas complicações, a compra não saiu de primeira. A Totvs resolveu entrar na briga.

A compensação extra dos fundadores da Linx virou tema de debate, a empresa travou uma guerra de notas com a Totvs e no final das contas a disputa só se revolveu em novembro, quando a Stone finalmente levou a Linx por R$ 6,8 bilhões.

Na área de incidentes de segurança, as estrelas do mês foram Michelle Bolsonaro e a OAB. O texto polêmico foi “Por que me afastei do ecossistema de startups?”.

SETEMBRO

Em setembro, meses de tensões e inseguranças acumuladas estouraram na Stefanini. Eu confesso que ao publicar a matéria “Stefanini cria mini home office” eu esperava que ela tivesse repercussão, mas fiquei surpreso com o volume do “shit storm”, para usar o termo técnico.

A ideia da empresa era oferecer uma cabine, com 1,6 metro de profundidade, 1 metro de largura e 2,2 metros de altura, mais ou menos um assento de classe econômica, para funcionários de call center trabalhando em casa.

A reação do público, no entanto, levou a Stefanini a desistir do projeto, que até fazia sentido dentro de um contexto, mas falhou em perceber outras implicações, digamos, mais sociológicas. 

Grendene e Penalty emplacaram projetos para revitalizar suas iniciativas de comércio eletrônico, um dos assuntos chave em 2020.

OUTUBRO

Em outubro, a Azure lançou sua região de nuvem no Brasil e o governo federal comprou 160 mil licenças de Office 365. A presença crescente da Microsoft no governo, com direito a eventos em uma tônica algo ufanista, foi explicada nas nossas matérias sobre o assunto.

Falando em destaques tecnológicos do Brasil de Jair Bolsonaro, publicamos uma matéria sobre o uso de tecnologia Red Hat na Havan.

Conhecida pela figura algo folclórica do seu fundador, Luciano Hang, a varejista catarinense faz um trabalho consistente na área, com uso de nuvem, biometria facial e desenvolvimento ágil de software, para ficar em três exemplos divulgados pelo Baguete em 2020.

O ataque de ransomware do mês foi na Braskem e a compra surpreendente foi a Compufour, uma desenvolvedora de software de gestão da pequena Concórdia, em Santa Catarina, comprada por R$ 100 milhões por uma multinacional italiana.

NOVEMBRO

O assunto do mês de novembro foram as eleições municipais. No caso do Baguete, a falha do TSE em processar os dados das urnas eletrônicas com o seu novo sistema Oracle, cheio de recursos de inteligência artificial.

A nota de explicações do TSE sobre o assunto é sem dúvida um dos pontos altos de humor involuntário do ano, com a sua lógica particular. Imperdível.

O mês não foi bom para o judiciário como um todo. Além dos problemas no TSE, que não se limitaram ao processamento de votos, o STJ sofreu o que talvez seja o ataque mais avassalador do ano (solução: ninguém mais entra com notebooks no STJ). 

O aporte milionário do mês foi na Sankhya, uma desenvolvedora de ERP com um nome de inspiração budista que levantou de R$ 425 milhões do fundo soberano de Singapura.

O departamento de notícias distópicas teve um dos seus pontos altos com o plano da Microsoft de levar o monitoramento total para o home office, dando aos chefes a possibilidade de saber até se os colaboradores estão com a câmera ligada ou não nas famigeradas videochamadas. A empresa acabou dando para trás.

A notícia inspiradora de novembro, talvez umas das mais inspiradoras em um ano difícil, foi o perfil de João Gabriel Oliveira Silva, funcionário da Loggi que se apresenta como “um matuto programador” e foi um dos 25 selecionados para a lista LinkedIn Top Voices do Brasil.

DEZEMBRO

Dezembro trouxe um desses momentos nos quais o acaso mostra uma tendência de fundo. 

No dia 01 de dezembro, Acesso Digital e Resultados Digitais, duas startups de destaque no país, decidiram trocar de nome, deixando para trás a palavra "digital".

Um jornalista não pode ignorar esse tipo de sinal do cosmos e eu prontamente publiquei uma matéria chamada "Ninguém mais quer Digital no nome", dando a minha visão sobre a origem da tendência. A Unico, ex-Acesso Digital, é sem dúvida uma das empresas para se observar em 2021.

No departamento de decisões do governo, Jair Bolsonaro assinou o decreto de extinção do Ceitec, centro de produção de chips estatal sobre o qual eu venho escrevendo no site há quase 20 anos. Como isso chegou a acontecer foi uma das nossas histórias do ano.

Na área de grandes vazamentos de dados, a estrela de dezembro foi a Embraer. Provando que a vida está difícil para todos, até o Google saiu do ar. Não foi tão ruim, uma pausa no trabalho sem culpa.

A Salesforce, uma gigante do Vale do Silício, decidiu pagar US$ 27,7 bilhões pelo Slack, uma startup promissora do mesmo vale. Ao mesmo tempo, Oracle e HPE decidiram debandar do Vale, o que pode ser só o começo de uma tendência de esvaziamento da meca da tecnologia.

Mas isso agora, só em 2021.