Nelson Sirotsky cumprimenta Eduardo Melzer na transferência de cargo. Foto: RBS.

O presidente do Grupo RBS, Eduardo Sirotsky Melzer, conhecido como Duda Melzer, está com seus dias contados à frente do grupo de comunicação gaúcho, devendo deixar o cargo até o final de outubro.

Pelo menos é que garante o Já, site de notícias de Porto Alegre que no passado já revelou informações exclusivas sobre os bastidores da RBS. De acordo com a publicação, uma empresa de head-hunters de São Paulo já está atrás de um sucessor.

A contratação da companhia de RH também foi revelada hoje pelo Coletiva.net, um portal especializado no mercado de comunicação gaúcho. A Coletiva, no entanto, não chegou a cravar como certa a saída de Melzer, falando apenas genericamente em “mudanças radicais”.

A reportagem do Baguete pediu um posicionamento oficial da RBS, que não respondeu até o fechamento desta matéria.

Eduardo Sirotsky, neto do fundador da RBS, Maurício Sirotsky (1925-1986), assumiu o comando do grupo em 2012, recebendo o bastão de comando do tio, Nelson Sirotsky.

Na avaliação do Já, cuja linha editorial é crítica da RBS e dotada indisfarçável schadenfreude pelos problemas da organização, Melzer caiu por ter adotado medidas que enfraqueceram pessoas de confiança do seu tio e prejudicaram a imagem do grupo, fazendo com que o conselho acreditasse que ele não era o homem certo para liderar a empresa em um momento de crise econômica.

A situação seria uma consequência da contratação de uma consultoria de Cláudio Galeazzi, conhecido por impor corte de equipes nas organizações que assessora (o contrato já teria sido rescindido pela reação negativa). 

Além de ter demitido 130 profissionais em agosto do ano passado, Galeazzi teria retirado do círculo de decisão o vice-presidente de jornais, rádio e digital, Eduardo Smith e o diretor de jornalismo, Marcelo Rech, homens de confiança de Nelson Sirotsky.

Melzer agravou a situação com uma carta para lá de desastrada à equipe da RBS, na qual defendeu os cortes como uma medida que visava “desapegar do que não agrega”, convidava os funcionários a se tornarem assinantes da Wine.com.br e da Have a Nice Beer, empresas investidas pela companhia, para fechar assinando a carta como “Duda”, um toque de informalidade que pareceu um pouco fora de lugar em uma hora de crise.

Bolas fora à parte, a carta de Melzer mostrava um executivo comprometido com uma visão de futuro digital para a RBS. Não era só discurso. Nos últimos anos, a companhia colocou cerca de R$ 300 milhões na compra de participações em oito empresas de internet através do fundo eBricks, indo desde a já citada Wine até e-commerces de moda, passando por empresas de mobilidade e mídia digital. 

Caso se confirme a mudança no comando, caberá ao novo definir se a RBS deve seguir apostando nesse caminho ou tentar reforçar sua posição de liderança no seu negócio tradicional de comunicação.

Mesmo durante no período de influência de Melzer, que antes de assumir o controle geral da empresa liderava a área digital, a companhia deu sinais contraditórios sobre o tema, mostrando que o rumo futuro não está totalmente definido.

No final de 2014, a RBS acabou com sua área de negócios Pense. O Pense Imóveis, portal de venda de imóveis do Grupo RBS, foi vendido para o para o Zap Imóveis, braço de vendas imobiliárias do Grupo Globo, por exemplo.

De acordo com fontes ouvidas pelo Baguete, sempre houve forte debate internamente sobre como fazer avançar esse tipo de negócio sem canibalizar a receita dos classificados de domingo.

Em maio desde ano, a RBS fechou um centro de desenvolvimento aberto no Tecnopuc em 2011 focado na área de mídias digitais.

A companhia defendeu a modificação como uma maneira de gerar mais integração na sede da organização, mas segundo a reportagem do Baguete pode averiguar foram feitas pelo menos 25 demissões no centro.

Desde abertura do local, a RBS nunca chegou a bater as metas de contratações para a operação que ela mesma estabeleceu.

Semanas depois da notícia do fechamento do centro no Tecnopuc, saiu da RBS o vice-presidente de RH da RBS, Deli Matsuo, contratado no início da gestão de Melzer. Com passagem pelo Google, Matsuo foi um símbolo do entusiasmo do grupo de comunicação gaúcho com o novo universo digital.

Melzer foi preparado para a missão de liderar a RBS por anos, mas o seu perfil não podia ser mais diferente dos seus antecessores no comando da empresa, tirando o fato de serem da mesma família. Dono de um MBA em Harvard, o executivo teve experiência de negócios como franqueador master no Brasil da Sweet Sweet Way, uma loja de doces.

A RBS, hoje um império de comunicação com 18 emissoras de tevê, sete rádios e seis jornais, liderados por Zero Hora, o diário mais influente da região Sul e o sexto jornal de maior circulação no Brasil, foi fundada por Maurício Sirotsky sobrinho a partir de um popular programa de auditório no rádio dos anos 50.

O filho de Maurício, Nelson, apesar de também ter passado por um período de formação em instituições prestigiadas nos Estados Unidos, fez toda carreira na RBS e sempre se definiu públicamente principalmente como um homem de comunicação, tendo presidido a Associação Nacional de Jornais.

Nelson Sirotsky, que cresceu assistindo os programas de Maurício Sirotsky na Rádio Gaúcha, conservou algo do estilo informal e bem humorado do pai nas suas aparições públicas, chegando inclusive a fazer um viral sobre uma suposta compra da RBS pelo site satírico O Bairrista, algo impensável em comandantes de grupos de comunicação de perfil mais tradicional.

Um novo CEO seria um ponto de inflexão para a RBS. Agora é ver para que direção o grupo pretende caminhar.