Tecnologia pode ser uma das saídas. Foto: divulgação.

Tamanho da fonte: -A+A

Após o trágico incêndio na danceteria Kiss, em Santa Maria, a discussão sobre a segurança em locais públicos ganhou força. Nos últimos dias, muito se especulou sobre formas de garantir ambientes mais seguros e evitar outros desastres. Será que tecnologia tem um papel a cumprir nesta equação?

Segundo pesquisadores do Laboratório de Simulação de Humanos Virtuais da Faculdade de Informática da PUCRS (Facin), ela pode ajudar, embora não seja a salvação.

A equipe do Facin, em um projeto apoiado pela Finep, desenvolveu o CrowdSim, um software que simula a evacuação em locais com grande aglomeração de pessoas, como estádios de futebol, shows, espetáculos, escolas ou prédios.

Segundo explica a coordenadora do projeto, professora Soraia Raupp Musse, o aplicativo é capaz de representar diferentes situações, inclusive eventos de pânico e emergência, com tumulto.

No entanto, ao avaliar qual seria o papel do aplicativo para resolver situações de risco, a professora é cautelosa. Segundo ela, softwares tem muito a oferecer na observação de padrões de circulação.

"Com o uso destas ferramentas, é possível identificar rotas e pontos onde se criam gargalos, avaliando comportamentos diferenciados por faixa etária ou outros fatores como pessoas com dificuldades motoras, por exemplo", explica.

Mesmo assim, de acordo com Soraia, este uso da tecnologia serve principalmente como um parâmetro de auxílio nas decisões em relação à segurança dos locais.

Ela frisa que, com base nas observações do software, é possível avaliar melhor a estrutura do local, a disposição das saídas, extintores e avisos, otimizando a circulação nestes locais, o que pode ser crucial em uma emergência.

Contudo, Soraia frisa que no final das contas o fator principal ainda é humano, seja nas decisões de segurança tomadas quanto em uma emergência propriamente dita.

"O comportamento humano possui variáveis que são quase impossíveis de reproduzir em um software, por mais complexo que ele seja. Simular de forma precisa uma situação extrema como o ocorrido em Santa Maria seria quase impossível", observa.

No entanto, com a análise precisa e as decisões corretas, incidentes trágicos podem ser minimizados, quando não evitados, ressalta a professora.

A literatura desta área afirma que a inteligência coletiva é emergente, que converge para sobreviver bem. E geralmente, em acidentes com grandes multidões, é o local que não está preparado e não permite que os bons conhecimentos sejam aplicados”, diz.

TECNOLOGIA

Para Soraia, o uso de softwares como o CrowdSim terá um peso determinante no futuro para garantir a segurança em locais de grande público, mas outros fatores precisam estar em sintonia, como cuidados estruturais, treinamentos de segurança, entre outros.

De acordo com a professora, softwares podem auxiliar órgãos como o Corpo de Bombeiros nas fiscalizações e determinações de segurança em diferentes locais.

Na atual fase, a equipe está em busca de parcerias para finalizar os últimos ajustes e disponibilizá-lo comercialmente.

Segundo a professora, o feedback sobre o projeto é unânime em positividade, mas muitos empreendedores ainda não enxergaram a necessidade em investir na prevenção e na simulação de acidentes utilizando a tecnologia.

No entanto, Soraia acredita que este cenário deve mudar a partir de agora.

TESTES

Inicialmente, o software foi testado no Estádio Olímpico João Havelange, o Engenhão, no Rio de Janeiro. Para isso, foram levantados dados da estrutura física, capacidade de lotação e ocupação durante os jogos para configurar a ferramenta.

Soraia conta que houve conversação com responsáveis por estádios locais, do Grêmio e do Internacional, mas que por enquanto apenas o diretor executivo do Engenhão, Sérgio Landau, concretizou o acordo para a simulação.

O programa foi desenvolvido em um ano e dois meses pela equipe de pesquisadores formada por  Rafael Rodrigues, Vinicius Cassol, Anderson Silva e Luiz Cunha,  e uma empresa parceira para a produção do software.