Hugo Barra e o mascote da Xiaomi. Foto: divulgação.

As notícias se espalham rápido. Quem acompanha o segmento de tecnologia e telefonia, já sabe que a chinesa Xiaomi anunciou nesta terça-feira, 30, o lançamento de seu primeiro telefone no Brasil, o Redmi2.

Mais chamativo que os preços em conta dos aparelhos, que começam em R$ 499, foi a devoção que a marca chinesa já conquistou no país, isto que boa parte do público consumidor médio ainda pense em uma raça de cachorro quando ouve o nome Xiaomi (o cachorro é Chow Chow, pra deixar claro).

O evento de apresentação dos equipamentos feito em um teatro no Shopping Vila Olímpia, região nobre de São Paulo, conjurou uma movimentação pouco vista para o lançamento de um smartphone.

Mais de mil pessoas lotavam o quinto andar do shopping, entre convidados, jornalistas e fãs da marca, consumidores que declaravam seu amor por uma fabricante que até então não tinha lançado um produto sequer em terras canarinhas (parece que o país está passando por um período de surpresas com legiões inesperadas de fãs).

A sensação com os seguidores inclusive obrigou os executivos da marca a fazer uma segunda sessão de lançamento para atender o público que ficou de fora.

Em meio à comoção, tumultos na organização de evento (como uma queda de luz que atrasou o início da apresentação em mais de uma hora) e outros imprevistos, a Xiaomi investiu para fazer barulho em sua chegada no país.

Segundo apontou Bau Liu, vice-presidente e co-fundador da marca, o Brasil é o primeiro mercado do ocidente em que a Xiaomi está firmando uma operação mais estruturada, contando com uma equipe local e fabricação no país, via parceria com a Foxconn, em Jundiaí.

De acordo com a empresa, este arranjo - além do uso da Lei do Bem - é o que possibilitou à companhia trazer seu primeiro smartphone por um preço de R$ 499, muito abaixo dos valores cobrados por configurações similares de concorrentes, hoje na faixa de R$ 800 a R$ 1 mil.

O rosto dessa investida da Xiaomi no ocidente é brasileiro. Hugo Barra, ex-VP de Android no Google e atual vice-presidente internacional da marca chinesa liderou o evento de lançamento, dividido entre falar sobre a filosofia e produtos da companhia e exercícios de animador de programa de auditório.

As trucagens tinham um alvo específico - os chamados MiFãs, comunidade global de consumidores e entusiastas da marca, um dos principais motores do crescimento da empresa, que em pouco mais de cinco anos de vida se transformou no que hoje é chamada de "Apple chinesa".

É interessante observar os MiFãs, em maioria jovens que dedicam tempo e energia para conversar sobre a Xiaomi, se relacionar entre si e com a própria marca, funcionando quase como uma subcultura, nas moldes de outras febres orientais como animes ou j-pops afins.

Nos mercados asiáticos, a empresa promove encontros e festas para este público para incentivar este relacionamento.

"Funcionamos para o mercado, mas vivemos principalmente para nossos MiFãs. Nosso foco é no produto, mas também em uma relação integral com este público", declarou Barra logo no início de sua apresentação.

Por conta de seus preços competitivos, apoiados por uma estratégia de relacionamento ativa com seus MiFãs, a Xiaomi estabeleceu na China e outros países da Ásia uma comoção de vendas semelhante à da marca da maçã, vendendo lotes de 1,2 milhão de aparelhos em questão de horas em seus canais diretos de venda.

Na China, por exemplo, a empresa desbancou com sobras marcas como a Samsung, oferecendo aparelhos de qualidade semelhante à concorrência pela metade do preço. No último ano, a empresa registrou um crescimento de 42% no mercado chinês, brigando de igual para igual com a Apple pelo market share.

A explicação para fazer isso? Segundo o VP internacional da marca, a tônica é menos gastos com marketing tradicional e muito uso das redes sociais.

"Acreditamos no boca a boca e na mobilização de nossos fãs para divulgar a marca. Na nossa página brasileira no Facebook, temos um índice de interação de 40% entre nossos seguidores, enquanto que nas outras marcas esse percentual fica em 1%", afirmou Barra.

Além disso, a empresa se apoiou em parcerias para justificar a qualidade de seus componentes, apesar dos preços inferiores aos outros players. O Redmi2 usa chipset Qualcomm Snapdragon 410 quad-core de 1.2 Ghz e capacidade dual chip 4G. No total, são 1 GB de memória RAM e 8 GB de memória interna, com uma tela de 4,7" (mesmas dimensões do iPhone 6).

A empresa iniciará suas vendas no Brasil de forma direta em site próprio, através de uma parceria com a [B]Seller, solução de e-commerce da B2W Digital - empresa ligada aos sites Submarino e Americanas.com. O pré-cadastro iniciou nesta terça e as vendas começam no dia 7 de julho.

Segundo Hugo Barra, inicialmente a companhia usará este canal para vender o Redmi2, assim como outros dois produtos periféricos que chegam junto: a pulseira inteligente MiBand será vendida por R$ 95 e a bateria portátil Mi Power Bank será comercializada por R$ 99.

"Não revelamos números sobre o tamanho do lote inicial de produtos que vamos colocar à venda inicialmente. Preferimos trabalhar sem acompanhar índices de performance, pois acreditamos que isso pode interferir no serviço que pretendemos entregar", afirmou o VP.

Por conta de seu modelo independente de fazer negócios, sem se apoiar em operadoras ou parceiros de varejo, a Xiaomi admite que pode chegar a fazer inimizades no mercado local, caso seu crescimento aconteça longe destes canais que ainda impulsionam o segmento.

"No momento vamos fazer nossa venda de forma direta, mas não descartamos a entrada de players varejistas ou operadoras na nossa estratégia. Já temos acordos do tipo em mercados como Cingapura", afirmou o diretor-geral da companhia na América Latina, Leo Marroig.

Entretanto, para os players concorrentes, a inquietação parece já ter começado. A Asus, que agitou o mercado local no ano passado com a venda do ZenFone, através de um modelo bem parecido com a Xiaomi, já se mobilizou diretamente contra a nova competição, lançando no mesmo dia uma campanha chamada "Chega de MiMiMi".

"Tudo o que posso dizer aos concorrentes é obrigado pela divulgação grátis. Estamos entrando para participar ativamente desta competição no mercado. Que comece o Mimimi", finalizou Barra, para nenhum aplauso, já que a coletiva era apenas para a imprensa. Caso os MiFãs estivessem presentes, o lugar provavelmente viria abaixo.