Fábio Gandour. Foto: Divulgação.

A oferta de produtos e serviços que englobam inteligência artificial (IA) não estão alinhadas em termos de marketing e tecnologia. Essa é a mensagem de Fábio Gandour, que atuou por 28 anos na área de pesquisa da IBM e deixou a companhia em 2018.

O executivo é graduado em medicina, com especialização em cirurgia pediátrica. Na IBM, foi cientista-chefe do Brazilian Research Lab desde sua criação, em 2010.

Em palestra realizada na última sexta-feira, 27, no II Seminário Executivo Sucesu-RS, Gandour apresentou uma visão crítica do que hoje é oferecido no mercado como inteligência artificial, inclusive em relação ao Watson, da IBM, no qual trabalhou durante seu período na companhia.

“A questão da IA lida com a essência da lógica do comércio de tecnologia, que é mais baseada em encantamento individual do que na entrega de um serviço na melhor intenção do usuário final. Eu acredito que a gente tem que mudar essa lógica, na direção de ser mais honesto, sincero, coerente e consistente, até porque isso gera planos com resultados mais frutíferos”, declara.

Para ele, a verdadeira inteligência artificial envolve o desenvolvimento de engenhos que produzam cognição automática, ou seja, geração automática de conhecimento. Esse modelo nunca foi desenvolvido no Brasil.

“Eu tentei durante muitos anos promover a construção de um engenho de processamento semântico capaz de processar o português brasileiro, mas até hoje isso não foi feito. Portanto, inteligência artificial na forma de cognição automática neste exótico país chamado Brasil só tem um nome: mentira”, declara Gandour.

Ele afirma que hoje o que é chamado de IA no mercado são sistemas que se alimentam de três fontes: estratégias ou políticas empresariais; dados de sistemas legados e uso de conteúdo curado.

“Hoje existe atuação no campo tradicional da computação que pode representar, de uma maneira talvez um pouco capenga, o que as pessoas chamam de IA. É uma representação bem modesta, na minha opinião. O que é chamado de IA hoje são diversas instâncias de aplicações matemáticas que simulam o conhecimento humano”, completa.

Mesmo assim, a tendência tem ganhado cada vez mais espaço em projetos de tecnologia, especialmente em empresas que buscam promover sua transformação digital.

De acordo com o Gartner, 14% por cento dos CIOs globais já implantaram projetos com IA e 48% esperam adotar a tecnologia em 2019 ou em 2020. Assim, a consultoria prevê que até 2023, a IA será uma das principais cargas de trabalho a impulsionar decisões voltadas para infraestrutura.