Não há dúvidas de que o momento atual é de um discreto otimismo para o mercado de software brasileiro. A PITCE (Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior) contará com recursos da ordem de R$ 550 milhões em 2004, já previstos no orçamento, e com um volume de recursos para financiamento de R$ 14,5 bilhões oriundos de órgãos financiadores como Banco do Brasil e BNDES. A inclusão do setor de software ao lado dos setores de bens de capital, semi-condutores e fármacos - somada à intenção do governo Lula de aumentar as exportações no setor dos atuais US$ 100 milhões atuais para US$ 2 bilhões até 2007 deram novo ânimo às empresas produtoras de software.

O Brasil possui atualmente cerca de 3,5 mil empresas produtoras de software, a maioria de pequeno porte. Juntas, geram quase 200 mil empregos diretos. A maior parte das empresas de software nacionais surgiu em meados da década de 90, junto com o aumento do uso de computadores nas pequenas e médias companhias e da informatização dos processos gerenciais das empresas. Desde então, os profissionais da indústria de software brasileira são frequentemente caracterizados em pesquisas especializadas de todo o mundo como sendo criativos, inovadores e flexíveis, descobrindo soluções adequadas e rápidas para diversos problemas relacionados à engenharia de software. Segundo um estudo do MIT (Massachussets Institute of Tecnology) aferiu que a qualidade e o grau de sofisticação dos softwares produzidos no Brasil são similares àqueles desenvolvidos na Índia e na China, dois ícones do mercado internacional de programas de computador.

Ainda na esteira do estudo do MIT, profissionais e empresas brasileiras são citados como produtores de excelentes soluções de software para o mercado financeiro (talvez uma herança dos tempos da algazarra inflacionária e dos vários planos econômicos a que o país era submetido), órgãos públicos e e-commerce. Apesar de todos esses vocativos, o MIT apresenta um dado interessante e ao mesmo tempo preocupante: a maioria dos produtos dos fabricantes brasileiros de software são produzidos internamente pelas próprias empresas, sendo feito pouquíssimo uso das tecnologias desenvolvidas pelas universidades e órgãos de pesquisa tecnológica. Atualmente, a exportação de software no Brasil corresponde a ínfimos 0,002 % do total de exportações do Brasil. É natural que seja essa irrisória cifra a contribuição do mercado de software para a balança comercial do país ? Provavelmente não.

É preciso que o trinômio universidades, empresariado e Estado trabalhem de forma coordenada para que a indústria brasileira de software passe a ter a importância devida no cenário estratégico internacional. Somente com o meio acadêmico, a iniciativa privada e todas as esferas do governo engajadas no desenvolvimento da inteligência em tecnologia da informação é que o Brasil passará de coadjuvante a protagonista do cenário internacional de tecnologia de informação.

Um exemplo do entrosamento entre empresários, poder público e universidade é o Cesar - Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar). O Cesar é responsável direto pela geração de 66 empresas no segmento de TI, e serve como parâmetro de ação efetiva para uma política mais agressiva focada na otimização dos processos de desenvolvimento de software e na exportação da inteligência tecnológica brasileira. Serve também como referência para corroborar a tese de que somente a sinergia de forças colocará o software produzido no Brasil no lugar que ele realmente merece.

(*) Desenvolvedor de sistemas e colunista dos portais iMasters e uniDesign