O texto abaixo escrevi em 91. É coisa simples. Como simples eram aqueles dias. Que seja. Não se pode ter sempre a inspiração.

Eram os primeiros passos. Titubeava, é bem verdade. Estava inseguro. Parecia impossível me sustentar naquela verticalidade absurda sem teu apoio. Mas precisava tentar. Assumi o desafio de vencer aquela pequenina distância entre o sofá e tuas mãos. Confesso que caminhei na tua direção como aluno que se exibe ao mestre. Não tive assim tanta firmeza no andar, mas mantive a determinação no alcançar. Que orgulho descobrir que podia algo que fazias com tanta facilidade! Afinal, caminhar era essencial para quem pretendia ir em frente.

Então, simplesmente, fui em frente. Assim como quem não tem escolha. Tratei de aperfeiçoar aqueles passos, correndo pelos quatro cantos da minha infância. Mesmo sem rumo, experimentei. Tratei de acompanhar até mesmo tuas mais largas e seguras passadas. Surpreendia-me tanta consciência de teus destinos. Procurei imitar, mas tinha muito pela frente ainda.

Com a adolescência e as espinhas veio a vontade de desafiar. Te desafiei, lembra? Queria andar mais rápido, diferente, não importava destino ou caminho. Andei em bandos, andei sozinho, andei meio perdido... Andei sonhando. Com os insucessos disfarçados, continuei admirando tua marcha firme e contumaz. E lá, longe de ti, imitava, pois adolescer é fingir de adulto.

Hoje ando por aí, caminhante enfim. Decidido, beligerante, adulto mesmo. O tempo pode se mostrar como um professor lento, mas é eficiente. Agora posso acompanhar sem dificuldades teu ritmo maduro e experiente. Teus passos já não parecem tão largos; porém, ainda parecem mais firmes que os meus. Não te desafio. Ao teu lado sempre serei aluno. Guardo comigo essa admiração inabalável. Por mais que tente, meu caminhar não se iguala ao teu; pois, na verdade, caminhas como sempre. Tu caminhas como meu pai.