Muito antes de tudo e bem antes de tudo mesmo eu concebi o que chamo de Conversa Definitiva. Ela consiste em sentar frente a frente com seus pais e soltar o verbo, dizer tudo o que você pensa, fazer um balanço da sua vida com base no que te deram, ensinaram, serviram de exemplo. Afinal, é preciso dizer tudo antes que eles se vão. Sim, porque eles se vão. Hoje fiquei sabendo que a mãe de um grande amigo se foi. E ele se lamenta agora por não ter dito tudo o que sentia, pensava, devia. Ele não acordou para a Conversa Definitiva.

Meu papo com meu Pai aconteceu em 2002 durante um jantar no restaurante Copacabana, suportado por uma vitela e alguns goles de vinho. Expliquei o funcionamento da coisa e agradeci por ter criado os quatro filhos com vergonha na cara. Por sermos todos honestos e de bom coração. Por não sermos, enfim, um bando sacanas ou picaretas. Por termos uma base moral que nos conduziu para o lado branco da força. E também por ter garantido nossos estudos. Por dividir o conhecimento adquirido nos livros. E na vida. Por ser tão carinhoso. Por ser exemplar na solidariedade e na capacidade de perdoar. Por ser persistente. Por ser tão civilizado. Foi uma noite de olhos salgados e úmidos. Mas nada escorreu pelas faces que não sorrisos depois de tudo dito. Um abraço apertado na despedida e estava consumado.

Com minha Mãe a coisa aconteceu mais recentemente, embora ela sempre corresse mais risco de saúde e de morte que o Pai. Seja pelo transplante, seja pelas outras doenças que a acometeram nas últimas décadas. Embora eu tivesse conhecimento da Conversa Definitiva há uns bons anos, mesmo assim, é de chamar a atenção, que tivesse me concentrado em falar primeiro com Geyer. Mama recebe meu carinho explícito e declarações de amor infindáveis já tem uns dez anos, eu acho. As brigas horrorosas da adolescência e da juventude foram arquivadas bem no fundo das gavetas do almoxarifado. Mesmo assim, não tinha cumprido meus agradecimentos pelos carinhos, cantigas, puxões de orelha, cafés, sucos, beijos, cachecóis. Meu entendimento de amor demonstrado vem de pequeno. De dias frios, nariz e bochechas vermelhas. Do primeiro dia de aula. Do medo de perdê-la de vista. Das fugas da aula para olhar pelas frestas a garantia de sua presença enquanto professora na turma ao lado. Do sopro anestesiante depois de passar mertiolate ou mercúrio no joelho sem tampa, no dedão lascado, no queixo arranhado. Por ser mãe tão concentrada em ser mãe. E foi disso e tanto mais que falei na Conversa Definitiva que tive com ela.

O diabo, amigos, é que você pode ter a Conversa Definitiva com seus pais, pensando que eles correm o risco de desaparecer sem que se diga o quanto foram e são importantes. Hoje pensei, entretanto, que existe uma situação em que podemos ficar mais desasados do que o amigo a quem fiz referência no início do texto. O que na maioria das vezes não dá para perceber - antes das rugas e das dores no corpo, dos cabelos brancos e da sua eventual ausência, da perda de força, da rouquidão que o tempo traz - é a rara, dura, porém, possível, realidade. A de que sendo você tão jovem, saudável, cheio de vida e força ainda assim não é imortal. E que tantas palavras definitivas talvez tenham outra missão. Um propósito diferente do imaginado inicialmente. Como saber quem está na mira? Nem sempre o quebra-cabeça da vida tem pressa em se encaixar.

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>> 01. Ante-projeto do Seprorgs para instalar empresas limpas no Centro de Porto Alegre não tem a menor chance de se tornar realidade ainda este ano. Olimpíadas, Eleições, Natal e Ano Novo são as desculpas de todos para que nada aconteça. Minha opinião? Não vai dar em nada. Renato, minha dica: te concentra no setor!

>> 02. Ouço falar que nos próximos dias será criado o Conselho de Informática do RS. Até onde sei ainda não há definição para o presidente da entidade que vai representar o setor politicamente. Antonioni é candidato, mas há quem diga que um empresário deveria estar à frente da organização. Orlandini, acho que nossas colunas serviram para alguma coisa, hein?

>> 03. Ricardo Garcia é o colunista que mais recebe comentários entre os escribas regulares do Baguete. Impressionante a repercussão de suas idéias!

>> 04. Guilherme de Carvalho Bastani e Rafael de Carvalho Bastani deverão ser as estrelas da Copa Maxwell de Futebol, dia 28. Os dois já recusaram convites de Grêmio, Inter, São José e Cruzeiro-PoA.

>> 05. Nasceu Calvin, filho do nosso querido amigo Gustavo Tagliassuchi. O guri puxou o pai: pesa quase quatro quilos!

>> 06. Juliana Herbert, do Esicenter Unisinos, assina coluna a partir de setembro no Baguete. Pelo menos é o que ela mesma me garantiu.

>> 07. Como precisar o uso de Internet pelos funcionários de uma empresa? Resposta no café da manhã promovido pela ASG, com apoio da Sucesu-RS, dia 10, das 8h30 às 11h30, no Sheraton Porto Alegre Hotel.

>> 08. Participo da Fenaint 2004, de 01 a 04 de setembro, em Gramado, num debate sobre Jornalismo On-Line.

>> 09. Agradeço comentário gentil sobre minha última coluna remetido por Rodrigo Bandarra.

>> 10. Alguém viu César Leite e Renato Turk Faria ocupando o mesmo recinto nos últimos seis meses?