Atualmente assistimos a um crescente aumento do número de palestras, seminários e discussões sobre a Contabilidade Brasileira diante desse desafiador tema da globalização.

Assuntos sobre a Nova Economia, a contabilização dos Intangíveis, o Capital Intelectual, o Goodwill, o Valor Econômico de uma empresa, os novos métodos de avaliação, etc, são tratados calorosamente, principalmente nos meios acadêmicos, tanto no Brasil com em outros países.

Mas, repentinamente, esses pensamentos são ofuscados por um lapso de raciocínio, que nos leva a uma realidade inegável e inadiável, a necessidade de "arrumar a casa" em relação à nossa Contabilidade doméstica, para, num passo seguinte, falarmos em globalização.

Estamos muito avançados em relação à nossa Contabilidade, principalmente no grande universo de usuários da Contabilidade, que é o de micro e pequenas empresas. Temos, no Brasil, um universo de mais de 80% de empresas que se enquadram como micro e pequenas empresas.

Quando pensamos que a prática contábil é constituída de quase 55 mil escritórios de Contabilidade em todo o país, que prestam serviços a essa grande massa de usuários, e que tais serviços quase sempre têm muito pouco de contábil, mas muito mais de "despachante" (serviços burocráticos, guias, obrigações fiscais, etc), temos o ímpeto de enfatizar os objetivos e a importância da Contabilidade para a atual realidade.

Reportagens como a de Mikhail Lopes, que mostram as diferenças entre o valor de mercado da empresa e o valor contábil, nos deixam perplexos. Ficamos atônitos quando lemos: “A discrepância maior nas empresas da Nova Economia ocorre por um motivo simples: os ativos mais importantes delas não são fábricas ou máquinas, declaradas como patrimônio no balanço. São marcas, clientes ou as tecnologias que se desenvolvem. Eles são ativos conhecidos como intangíveis. Não existem contabilmente, muitas vezes, mas têm grande valor de mercado. Eis o grande problema da contabilidade convencional aplicada a empresas no intangível: como registrar no balanço aquilo que o mercado mais valoriza?”.

É lamentável que a participação do Contador, no Brasil, quase sempre se resuma à escrituração contábil com finalidade fiscal. Temos, notoriamente, uma cultura de sonegação. Talvez porque nossa carga tributária alcance mais de 1/3 do PIB. Infelizmente é quase sempre nesse sentido que os profissionais da área são procurados por seus clientes para orientações. Deveríamos atuar no planejamento tributário, nas análises conjunturais e de mercado, nas decisões financeiras das empresas.

Será que a Contabilidade não está cumprindo o seu papel social?

Num artigo sobre as razões da mortalidade das empresas, é apontado como erro do empreendedor novato o fato de “delegar ao contador ações que seriam de sua competência. Por deficiência gerencial ou desconhecimento do mercado, essas delegações redundam em fracasso, mesmo porque a atividade do contador é mais de retaguarda que de linha de frente”. Parece-nos, aqui, uma acusação leviana, lamentavelmente comum no mercado financeiro.

Outro ponto fundamental a ser lamentado diz respeito à despreocupação dos profissionais da Contabilidade na participação em eventos. Congressos, seminários, simpósios, conferências, ciclos de estudo, convenções e fóruns acontecem a todo momento em todo o país. Observamos a participação de alguns, respeitados nomes nacionais, quase sempre nestes eventos. E onde estão os quase 350.000 profissionais contabilistas do Brasil? A participação aqui, entenda-se, engloba não somente a presença como ouvinte, mas também a participação ativa na apresentação de trabalhos, em palestras e nos debates.

Pensemos ainda na falta de oportunidades e na difícil busca do conhecimento contábil. Temos no Brasil apenas sete cursos de mestrado e apenas um único doutorado dentro da área contábil, devidamente reconhecidos pela CAPES, entidade que regulamenta tais tipos de curso. Pensemos um pouco mais sobre a educação continuada, pois é um importante passo a ser seguido para a busca da competitividade em um mercado internacionalizado. É nossa responsabilidade, é responsabilidade pessoal de cada um, a procura incessante de conhecimento, para que possamos contribuir devidamente com a sociedade e alcancemos o merecido respeito.

Os índices de mortalidade empresarial são passíveis até mesmo de indignação. Estatísticas, como as apresentadas pelo SEBRAE, mostram números realmente assustadores. Mais de 70% das empresas fecham antes mesmo de completarem cinco anos de atividade. Em países desenvolvidos esse número representa empresas que mantêm suas atividades continuadamente. Qual o papel da Contabilidade nesse processo? Será que temos alguma culpa nesse índice de mortalidade, por não participarmos ativamente dos processos decisoriais? Onde está nossa responsabilidade?

Podemos constatar pontos profundamente preocupantes, e que nos levam obrigatoriamente a olhar criticamente para a nossa profissão no Brasil. Levam-nos a buscar um melhor autoconhecimento. Levam-nos a responder perguntas como: Quem somos nós? O que fazemos? Para onde estamos indo? O que estamos agregando de valor para os nossos usuários? Nesse nível, como podemos entrar nos novos cenários?

Esses são alguns desafios dos nossos dias, desde a pequena empresa até os grandes problemas contábeis. Você está convidado a trilhar esses novos caminhos.

REFERÊNCIAS

KOLIVER, Olívio. “A certificação do contador público, uma condição para o acesso ao mundo globalizado”. Revista do Conselho Regional de Contabilidade do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, n. 108, abr. 2002.

LANA, Márcio. “As razões da mortalidade das pequenas empresas”. Jornal Gazeta Mercantil, São Paulo, 18/02/2000.

LOPES, Mikhail. “Por que as contas não fecham”. Revista Exame. São Paulo, v. 714, n. 10, p. 142-145, mai. 2000.

LOPES, Mikhail. “Balanço de idéias”. Revista Exame. São Paulo, ed. 766, n. 10, edição especial, p. 6-13, mai. 2002.

(*) Professor Universitário, Contador, Doutor pela UFSC, Coordenador do Curso de Ciências Contábeis da FAE Business School, em Curitiba/PR.