Conseguir dinheiro para novos empreendimentos no Brasil é difícil? Para quem entende de investimento, a resposta é: depende do empreendedor.

 
“Para o cara que não tem atitude de empreendedor não é nem difícil, é impossível”, responde Adalberto Brandão, COO do Centro de Estudos em Private Equity e Venture Capital GVcepe.
 
Brandão dividiu o palco com Diego Remus, editor-chefe do site Startupi, especializado em novos empreendimentos e financiamento no Brasil, e Francisco Jardim, do fundo de capital semente Criatec – hoje com 36 empresas no portfólio – na Campus Party para debater otema.
 
Num universo facilmente ludibriável por sagas de sucesso de garagem – como Apple e Google – ou mesmo no quarto – como o Facebook –, os palestrantes deram um recado claro contra o amadorismo na área.
 
“Tem que ser inventivo sim, mas sem tirar o pé do chão. Ninguém vai se arriscar num negócio em que o empreendedor é gênio mas não desce das nuvens”, diz Remus.
 
Segundo Brandão, GVcepe já chegou a ter 3.900 projetos candidatos para ganhar dinheiro, mas apenas 50 desse tiveram algum o capital investido.
 
“Quer saber se o geniozinho que escreve no quarto vai conseguir dinheiro sem atitude de empreendedor? Eu respondo: claro que não!”, esclareceu Brandão.
 
O trio deu suas dicas para “encantar” investidores – e principalmente não afastá-los – ao garimpar o aporte de arrancada de um projeto.
 
Confira, abaixo, os pontos principais da apresentação.
 
Ideias são superestimadas
Por mais genial que alguém seja, não adianta se apresentar só com a ideia. Prognósticos de mercado, público-alvo, concorrentes, matérias-primas, fornecedores, projeções, equipe, tudo é fundamental na hora do pitch (uma breve apresentação do projeto).
 
“Tem que aterrizar, mostrar que sabe do que está falando”, enfatiza Jardim.
 
Inovar, sem sair da realidade
Ideias totalmente revolucionárias podem ser difíceis de explicar a investidores que talvez nem tenham o problema ou a necessidade atendida pelo projeto. 
 
“Nessa hora o cara tem que usar a cabeça para pensar numa metáfora do produto. Algo que faça uma associação coerente e deixe mais fácil de entender”, sugere Remus.
 
Saiba o que fazer
Essa foi a tecla batida com mais força pelo trio.
 
“É comum alguém ter só a ideia. Daí perguntam: como você sabe que vai vender? E o cara diz: Vai vender porque é bom? Se eu te der dinheiro, o que você vai fazer? Vou investir... pra crescer. Assim não dá!”, esbravejou Brandão.
 
Segundo o consultor, é fundamental apresentar um plano de negócios que permita ao investidor visualizar quais os passos seguintes da empresa.
 
“Vamos investir tanto nisso para conseguir isso e obter tal retorno. Temos que pensar em termos de dinheiro, gente. O verbo é fazer. Ninguém vai te dar dinheiro porque você sabe muito, ou porque você merece. O que importa é o que você faz, e como se planejou pra fazer mais”, disse Remus.
 
Conheça a concorrência
“Chegar pra mim dizendo que não tem concorrência é terrível”, disse Jardim.
 
Na opinião do investidor, é muito difícil alguém não ter tido uma ideia ainda. Ignorar o que já existe no mercado é uma armadilha perigosa, que facilmente pode levar o prospectivo sócio a desistir do negócio.
 
“Você tem que saber que a empresa A faz isso de tal jeito, e que a B já conseguiu tal coisa. Daí você tem que explicar o que você tem de melhor e que caminho quer seguir e por que”, ilustra Remus.
 
Conheça os investidores
Hoje, um investidor não é alguém que dá dinheiro e vai embora. “Isso é coisa de banqueiro e agiota”, brinca Remus.
 
Segundo o jornalista, investidor é um parceiro do negócio. Alguém que vai apoiar a empresa iniciante e ajudá-la a crescer. “Por isso não dá pra ir fechando investimento com o primeiro que aparece com um maço de dinheiro”, diz Jardim.
 
O executivo contou que quando o Peixe Urbano foi fechar o aporte com a Monashees os empreendedores botaram a Monashees na parede, dizendo que precisavam saber logo.
 
“Do contrário eles fechariam com outro fundo, me contou um amigo. Ele disse que foi a primeira vez que isso aconteceu com ele, e que ele achou ótimo!”, conta Jardim.
 
Brandão concorda: “o investidor tem que acrescentar algo ao negócio, e tem que sentir que o empreendedor exige isso. Se não, não vai levar fé”.
 
Como dica final para qualquer empresa que quer crescer de verdade, os três deram um conselho em uníssono: saiba inglês!
 
“Uma hora, um gringo vai bater na sua porta. E você tem que estar preparado”, finalizou Remus.
 
*Guilherme Neves cobre a Campus Party a convite da organização do evento.