Cirano Silveira

O aumento da presença de grandes multinacionais no mercado gaúcho de TI nos últimos três anos tem causado mudanças no cenário, nos discursos corporativos e na gestão de pessoal.

A primeira modificação, segundo comentaram ao Baguete fontes do mercado foi na postura da grandes a repeito da sua força de trabalho. Saiu de cena uma atitude "arrogante" na à disputa pela mão de obra, com empresas muito seguras de si, comemorando baixa rotatividade como mérito apenas da força da própria marca.

“Já escutei de diversos gestores que nosso turnover é baixo, são pouquíssimas pessoas que deixam a empresa e há uma fila de profissionais querendo entrar”, afirma uma das fontes, que atua em uma empresa de desenvolvimento de software localizada na capital gaúcha. “O resultado disso é uma certa postura de conforto: para que melhorar práticas de gestão ou remuneração em um cenário como esse?”, questiona.

Uma realidade que começou, porém, a ser abalada quando gigantes do porte de SAP, IBM e Accenture passaram a fomentar suas operações por aqui. Diante deste aquecimento do mercado, a concorrência pelos profissionais aumentou, alterando o quadro: só na empresa mencionada pelo entrevistado, cinco colaboradores deixaram seus cargos entre março e junho deste ano.

“É uma média muito alta, levando-se em conta que tratava-se de pessoas com cerca de quatro anos de casa”, avalia a fonte.

Uma alteração de cenário que gerou, no mínimo, inquietação. Segundo o entrevistado, em sua empresa a postura confiante não chegou a mudar, mas começou a caminhar para isso. O profissional afirma: os gestores da companhia têm notado o risco gerado pela concorrência e reparado no assédio desta sobre seu antes estático quadro de colaboradores.

“Por mais que haja benefícios consideráveis, bom plano de carreira e salários, como realmente o há na minha empresa, sempre vai acabar havendo algum problema. Antes, porém, o profissional da TI gaúcha não se movia, porque não tinha opções. Hoje, a qualquer problema, ele olha para fora, porque há um mercado mais aberto, com outras grandes companhias onde aproveitar e valorizar seu trabalho”, destaca o entrevistado.

Entretanto, se do lado dos profissionais essa disputa por mão-de-obra é notada – e bem vinda -, por parte das empresas não parece representar um risco tão alto: ouvido pela reportagem do Baguete, o diretor de P&D da HP Brasil, Cirano Silveira, por exemplo, ressalta não ter tido problemas com a concorrência.

“Os profissionais que vierem trabalhar conosco ficarão orgulhosos de sua contribuição para a inovação e também para o meio ambiente, visto os projetos sustentáveis que mantemos”, garante Silveira. “Além disso, investimos R$ 267 milhões em P&D na subsidiária de Porto Alegre nos últimos cinco anos. Isto é um diferencial”, assegura.

Além disso, segundo o diretor os colaboradores do centro gaúcho têm a oportunidade de trabalhar em soluções que irão compor o portfólio da empresa globalmente. “Isso traz um reconhecimento mundial para nossa equipe”, afirma o executivo.

Seja como for, há vagas em aberto na subsidiária atualmente, nas áreas de engenharia de software e de teste, desenvolvimento e gerência de projeto.

Para o colaborador porto-alegrense ouvido pelo Baguete, ainda que mudem sua postura de auto-exacerbação da marca, as multis ainda terão trabalho pela frente se quiserem se posicionar com toda a segurança que ostentam na hora de manter os quadros de pessoal.

“Grandes empresas não têm, por exemplo, tanta agilidade: há muita burocracia, até compreensível, mas que tira a autonomia de gestores locais para negociar com colaboradores. Se alguém apresenta uma proposta de outra companhia, não há como negociar salário, não há contra-proposta. Aliás, o melhor é não apresentar a oferta, o que é visto como tática terrorista. O melhor é pedir a demissão e ir para a outra companhia de uma vez”, revela a fonte.