Um protesto realizado na manhã desta sexta-feira, 05, encabeçado por estudantes da Ufrgs, conseguiu adiar a votação do projeto de criação do parque tecnológico da universidade, que seria votado pelo Conselho Universitário, órgão máximo de deliberação da instituição.

O parque servirá de incubadora comercial e tecnológica, beneficiando, sobretudo, empreendimentos para o agronegócio e biotecnologia, com previsão também para o setor de TI.

De acordo com o reitor da Ufrgs, Carlos Alexandre Netto, o projeto não será retirado da pauta de votação, que será apenas adiada.

“Os manifestantes contra o parque são minoria. Remarcaremos a votação porque o papel da universidade é incentivar a inovação e os projetos tecnológicos”, declarou.

As negociações com os estudantes adiaram a votação para entre 30 a 60 dias, segundo informações de Juliane Furno, estudante de ciência sociais e integrante do Grupo de Trabalho Universidade Popular, um dos principais coletivos que compõem a mobilização contra o Parque.

“Dentro desse prazo iremos votar o mérito do projeto, se queremos ou não o parque. Se for aprovado, nos próximos quatro meses partiremos para a discussão da estrutura do empreendimento”, explica Juliane.

Antes do cancelamento, manifestantes divididos entre contra e a favor da criação do parque protestavam em frente à reitoria.

Cerca de 100 estudantes contrários ao projeto, estavam acampados no local desde a tarde de quinta-feira, 04, para pedir o cancelamento da votação.

Somaram-se à mobilização dos opositores as mulheres da Via Campesina, do Movimento dos Trabalhadores Desempregados, da Intersindical e do Levante da Juventude, que desde a última quarta-feira, 03, estavam acampadas no Parque da Harmonia em mobilizações ligadas ao Dia da Mulher.

Para Newton Braga Rosa, professor da Ufrgs e diretor do InovaPOA -  Agência de Inovação e Desenvolvimento Científico e Tecnológico de Porto Alegre, o parque irá incentivar a pesquisa e permitir aos alunos a aproximação com o mercado de trabalho.

“Vejo como uma forma de os alunos conhecerem, ainda na universidade, o mercado de trabalho, situação que todos, mais cedo ou mais tarde, irão vivenciar. E quanto mais cedo isso acontecer, melhor”, enfatiza Braga Rosa.

Em nota publicada no início da tarde, o Diretório Central de Estudantes da Ufrgs diz ser favorável à implantação do projeto, por entender que irá fomentar a riqueza, emprego e novas conhecimentos para a universidade, alunos e sociedade.

“O DCE lamenta profundamente os fatos ocorridos na manhã de hoje no campus central da universidade em que uma minoria impediu que ocorresse a votação do projeto de implantação do Pólo Tecnológico”, consta na nota do diretório.

Considerada como a primeira da história da universidade a ser ocupada por um grupo de direita, a atual gestão do DCE é composta por estudantes ligados a partidos como DEM, PP, PMDB, PSDB e PDT.

Com o lema “Um DCE para os estudantes, não para os militantes”, o grupo derrotou as outras 3 chapas, formadas por militantes do PSOL, PT e PCdoB, e PSTU, em novembro passado.

A polêmica do parque
Os estudantes, que possuem 15% de poder de decisão no Conselho Universitário – dos 77 membros do conselho, sete são universitários – mesmo percentual dos funcionários, afirmam que o projeto não previa a participação dos segmentos da comunidade universitária — professores, servidores e estudantes — ou de setores importantes da sociedade civil, como institutos de pesquisa científica e entidades representativas como conselhos profissionais, sindicatos e associações.

Outra questão é o objetivo da proposta que, segundo os manifestantes, consiste na transferência de conhecimentos públicos, produzidos na universidade, para empresas privadas que, através da livre concorrência, terão sede nesse parque.

Na opinião de Braga Rosa, é preciso avaliar que um parque tecnológico abriga tanto empresas emergentes como os departamentos de grandes companhias.

“Quanto ao primeiro grupo, não vejo problemas, penso que oferece as condições ideais para que os alunos apliquem os conhecimentos e desenvolvam projetos. E quanto ao segundo, cada vez mais as universidades procuram as grandes companhias para suprir a falta de campo de aplicação tecnológica”, analisa Rosa.

Além disso, alegam a ausência de licenciamento ambiental e o fato de que pelo menos 40 empresas do ramo do agronegócio já estão cadastradas para o processo de incubação, entre elas, a empresa Bunge, que produz agrotóxicos.

“Queremos que o parque sirva para atender às demandas da sociedade, ao invés de comportar grandes empresas que já estão estabelecidas no mercado. Não queremos estas companhias no parque. Propomos a inclusão de cooperativas, empresas menores, e principalmente, que sejam úteis ao desenvolvimento e comprometidas com a saúde”, argumenta Juliane.

Completa o protesto o argumento de que os estudantes servirão de mão-de-obra utilizada a baixo custo para produção de ciência e tecnologia, que serão patenteadas pela iniciativa privada.

“Defendemos que a patente fique nas mãos da universidade e que os dados pesquisados pelos alunos sejam públicos e não de domínio exclusivo das empresas”, finaliza a estudante.

Parque deverá ocupar 1/3 do campus
O projeto prevê que o parque tecnológico ocupe 1/3 do Campus do Vale, o qual possui área total de 6,5 milhões de m2, e irá abrigar empresas incubadas pelas unidades acadêmicas da universidade.

Para se ter uma ideia da dimensão, o Parque Tecnológico da Unisinos ocupa uma área de 140 mil m2 do campus localizado em São Leopoldo, enquanto que o Tecnopuc, da PUC-RS, ocupa 50 mil m2 do campus central da instituição.

Comentário no Quentinhas
Os radicais do Campus do Vale são hábeis em manipular “fantasmas da ditadura” para obter uma “uma influência que não condiz com sua representatividade”.

É o que opina o editor do Baguete Diário, Maurício Renner, que em post no blog Quentinhas lamentou que os manifestantes tenham conseguido atrasar o processo de implantação do Parque Tecnológico da Ufrgs.

Confira a opinião do jornalista pelo link relacionado abaixo.