Fernanda Lima e José Renato Hopf, durante o lançamento da 4all. Foto: Vini Dalla Rosa / 4all

Depois de meses de mistério, foi lançada em Porto Alegre nessa quinta-feira, 3, com uma grande dose de estrondo, a 4all, novo empreendimento do fundador da GetNet, José Renato Hopf.

E o que, afinal, é a 4all? Uma maneira de explicar é dizer que é uma plataforma que visa fechar o gap digital por meio de uma interface de contato entre consumidores e empresas baseada em momentos.

Outra, trocando um pouco mais em miúdos, é dizer que se trata de um aplicativo que funciona como um marketplace de aplicativos, envolvendo tanto aplicações de desenvolvimento próprio como de terceiros.

“Muita gente me diz que se fosse possível, alguém já teria feito isso antes. Às vezes ninguém fez algo antes por que ninguém fez algo antes”, disse Hopf durante uma apresentação a la Vale do Silício, com um grande telão curvo às suas costas.

Hoje já estão disponíveis funcionalidades de pagamento de estacionamento (4Park), marcação de salões de beleza (4Beauty), reserva de restaurantes e telentregas (4Food), recarga de cartões de transporte coletivo (4Mobility) e pagamentos móveis para tudo isso (4Pay).

O pulo do gato pelo lado do consumidor é ter tudo num app só, em uma experiência de uso fluída entre uma funcionalidade e outra, de tal forma que cada aplicação contribui com um ganho de escala para as demais. 

Pelo lado das empresas na outra ponta é contar com um parceiro capaz de fazer integração tecnológica com sistemas legados, e, principalmente, com muita experiência quando o assunto são meios de pagamento.

Hopf disse que Porto Alegre será o ponto de partida para planos muito maiores. A meta é ter a metade da população (estamos falando de 700 mil pessoas) usando alguma aplicação da 4all até o final do ano, para avançar em outras cidades em 2017 e globalmente em 2018.

Hoje mesmo, o 4all já tem 8 milhões de usuários, principalmente em São Paulo e Rio de Janeiro, mas eles são oriundo de uma dessas aquisições sobre as quais a empresa não dá maiores detalhes e não sabem que estão usando um produto.

Isso não deve continuar assim por muito tempo. A dimensão dos planos da 4all e o barulho que a empresa está fazendo para chegar lá são de uma escala nunca antes vista por uma empresa de tecnologia gaúcha, e ficam taco a taco com grandes empreendimentos de tecnologia voltados para consumidor final em nível Brasil.

Vamos começar pelas trivialidades, porque ninguém é de ferro. A 4All foi lançada numa festa para centenas de convidados (foi uma dessas festas no qual é mais prático contar quem não está lá), na qual a global Fernanda Lima atuou como mestre de cerimônias em um belo vestido verde esmeralda e a banda Nenhum de Nós fez a animação. 

Do ponto de vista prático, é mais difícil de julgar a capacidade da 4all de entregar o que promete. A empresa não revela quanto investiu até o momento, quais das suas aplicações são oriundas de aquisições (algumas foram) ou qual é a projeção de faturamento ou de break even.

Pelo o que a reportagem do Baguete pode averiguar, a empresa tem no momento cerca de 100 funcionários na capital gaúcha (outras 50 vagas estão em aberto nesse momento). O rumor que circula é que Hopf e investidores teriam R$ 100 milhões em capital disponível.

Muito de um possível sucesso da 4all passa pela empresa ser capaz de entregar de maneira melhor coisas que já estão sendo feitas por concorrentes com uma base de usuários instalada grande (pense no iFood, por exemplo), fazendo com que eles sejam parceiros da plataforma.

A empresa deu alguns exemplos disso na apresentação. Um foi uma função de chatbot com interação por linguagem natural baseada no sistema de computação cognitiva Watson, da IBM, pelo qual o usuário pode escolher um restaurante, fazer um pedido e, ainda mais importante, fazer o pagamento. 

Outro exemplo foi o uso de geo fencing para pagamentos na aplicação de salões de beleza, de tal forma que quando cliente deixa o estabelecimento (uma dessas barbearias hipsters, no vídeo), o pagamento é feito automaticamente. 

A equipe da 4all tem profissionais experientes, incluindo Eduardo Hahn (um dos fundadores da Advanced IT) como gerente de TI e operações; Ricardo Galho (ex-gerente de inovação da GetNet) como CDO e Thiago Ribeiro (ex-coordenador do POA Digital), como diretor de cidades digitais e comunicação. 

Apesar de tudo isso, o maior argumento que a 4all apresentou até agora para convencer sobre os prospectos de sucesso da empresa é a figura do seu fundador, José Renato Hopf. Não é pouca coisa.

Há pouco mais de uma década, o executivo saiu do Banrisul, onde foi o criador do Banricompras, para convencer o mega empresário gaúcho Ernesto Corrêa e Silva a investir em uma processadora de cartões.

Com o apoio de Corrêa, um empreendedor cuja fortuna (é um dos novos bilionários brasileiros, segundo a Forbes) só é superada pela discrição (nunca deu uma entrevista), Hopf criou uma empresa de 2,7 mil colaboradores e faturamento de R$ 3 bilhões por ano, vendida para o Santander em 2014 por nada menos que US$ 1,1 bilhão.

Os planos da 4all são tão ambiciosos quanto, só que em um cenário de negócios ainda mais complexo. Acompanhar se a empresa vai dar certo ou não promete ser uma das atividades mais interessantes no setor de tecnologia brasileiro para os próximos anos.