Sara Winter deixou um rastro de problemas de imagem para o Vakinha.

O Vakinha, um dos maiores sites brasileiros de crowdfunding, se viu envolvido semana passada no festival de polêmica que assola o país, devido a uma campanha aberta no site por Sara Winter, ex-ativista feminista convertida em apoiadora fervente do presidente Bolsonaro, e, mais recentemente, líder do famigerado movimento 300 Pelo Brasil.

A campanha colocou o Vakinha no alvo do perfil do Twitter @SleepingGiantsBR, que vem fazendo uma campanha para que patrocinadores retirem anúncios de sites classificados como propagadores de fake news, assim como do The Intercept Brasil, site de notícias com uma linha crítica ao governo Bolsonaro e grande ressonância em mídias sociais.

“Nós nunca recebemos uma pressão externa tão estruturada como nessa ocasião. Mas as campanhas no Vakinha são um reflexo da sociedade brasileira e essa reação faz parte do ambiente polarizado de hoje”, reflete o diretor do Vakinha, Luiz Felipe Gheller.

A história da polêmica em torno da campanha dos 300 no Vakinha é um resumo das dificuldades em conciliar o modelo de negócio de companhias que pretendem oferecer uma plataforma neutra para alguma função e as demandas de um público empoderado pelas redes sociais e uma imprensa mais militante, para os quais a neutralidade é apenas uma fachada para interesses escusos.

A campanha de Sara Winter visava cobrir gastos da manutenção de um acampamento de cerca de 20 pessoas instaladas nos arredores da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, visando apoiar o governo Bolsonaro (o 300 é uma referência à batalha das Termópilas, não ao número real de participantes). 

Aberta no dia 20 de abril, a campanha foi uma das 2 mil iniciadas no site naquele dia, e  permaneceu sem chamar muita atenção até o começo de maio, quando começaram a chegar as primeiras denúncias pela plataforma do Vakinha, que no dia 05 de maio pediu um parecer para o seu jurídico.

No dia 12, a avaliação do jurídico foi de que não havia motivos para encerrar a arrecadação dentro dos termos de uso do Vakinha, que prevê cancelamentos por uso de dados não autorizado, fins ilegais ou, de maneira mais genérica, por prejudicar a imagem do próprio site.

Do 1 milhão de campanhas abertas no Vakinha desde a fundação, em 2008, só 3% foram canceladas, geralmente porque uma pessoa está tentando se passar por outra, ou fazer doações para si mesma, uma forma de lavar dinheiro.

No meio tempo as declarações públicas de Sara Winter, entre elas de que o acampamento teria integrantes armados, chamaram a atenção do Ministério Público do Distrito Federal, que denunciou os 300 como uma “milícia” e pediu o seu desmantelamento no dia 13.

No dia 14, o Vakinha pediu um novo parecer ao seu jurídico, que avaliou seria melhor aguardar a resposta da justiça ao pedido do MP-DF. O Tribunal de Justiça do Distrito Federal rejeitou o pedido do MP no dia 14, citando como justificativas a liberdade de pensamento e reunião. 

Sobre o pedido de cumprimento de mandados de busca e apreensão visando localizar armas de fogo, a resposta da justiça foi de o assunto não era de sua competência. O Vakinha decidiu manter a arrecadação dos 300 aberta.

“A nossa plataforma é neutra, com ações do MBL até o MTST. Não cabe a nós fazer o papel da Justiça e atribuir uma conduta criminal aos organizadores de uma campanha”, explica Gheller.

A polêmica em torno do acampamento ficou em segundo plano nas semanas seguintes, voltando com força total no final do mês, no que veio a ser a pior crise de relações públicas da história do Vakinha.

No dia 26 de maio, o Sleeping Giants fez o primeiro post, demandando a retirada da campanha de financiamento dos 300 do Vakinha, no que logo foi seguido pelo jornalista Leandro Demori, editor chefe do The Intercept Brasil.

A situação escalou rapidamente no dia seguinte, quando Sara Winter foi um dos 27 alvos de operação da Polícia determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que investiga o disparo ilegal de fake news e ameaças dirigidas ao STF.

Horas depois, Winter publicou um vídeo em redes sociais afirmando que gostaria de "trocar soco" com o ministro e insinuando que o movimento descobriria “tudo sobre a vida” de Moraes até ele “pedir para sair”.

Nesse ponto, o Vakinha decidiu retirar do ar a campanha do ar, fazendo uso de um termo do contrato de uso que permite ao site retirar campanhas por causarem uma reputação negativa para a marca.

No momento do cancelamento, a ação de Sara Winter no Vakinha já tinha R$ 77 mil arrecadados. Quando uma campanha é tirada do ar, as doações não retiradas pelo organizador são estornados de volta aos doadores.

O ciclo de aprovação de uma doação no Vakinha, no entanto, é de 14 dias, motivo pelo qual é possível que dinheiro arrecadado por meio do site tenha ido para os 300, se eles optaram por fazer saques assim que a opção estivesse disponível, o que parece provável.

Depois do cancelamento, o Vakinha passou a ser cobrado por jornalistas do Intercept e pelo perfil Sleeping Giants para revelar quanto dinheiro teria ido efetivamente para o movimento 300.

Desde a fundação, no dia 18 de maio, o Sleeping Giants já conseguiu fazer 130 marcas retirarem campanhas feitas por meio de plataformas de marketing digitais em sites em sites acusados de disseminar notícias falsas ou promover discurso de ódio, segundo revela o site Poder 360.

Entre as companhias que cederam às demandas da conta, atualmente com mais 353 mil seguidores no Twitter, estão nomes como Adidas, Carrefour, LATAM, Samsung e Santander.

O Intercept Brasil, conhecido por ter revelado as conversas do juiz Sérgio Moro e outros integrantes da Lava Jato, é ainda mais influente, com 727 mil seguidores no Twitter. Só o editor, Leandro Demori, tem 242 mil.

O Vakinha não abre se e quanto dinheiro foi retirado, alegando uma obrigação de sigilo com os organizadores equivalente a relação de uma prestador de serviços financeiros com um cliente. 

Demori publicou um texto no Intercept no dia 30 de maio com o título "Vamos mandar a Vakinha pro brejo?". Os tweets de Demori traziam a marcação dos perfis de Gheller e do  Flávio Steffens, diretor de relacionamento do site, que teve também seu email disponível no Linkedin publicado.

“Nós abrimos o sigilo em caso de pedidos judiciais. Houve vezes em que recursos de uma campanha foram bloqueados pela justiça para pagamentos de pensão”, revela Gheller. “Mas por maior que seja a pressão, nós temos que ser responsáveis e tomar atitudes que possam ser sustentadas no médio e longo prazo”, agrega o empresário.

Gheller diz que a empresa preferiu não entrar na dinâmica das redes sociais ou na pressão do Intercept por abrir mais informações, por uma questão de princípios, não pelo potencial lucro de campanhas como a de Sara Winter.

“Seria fácil, mas esse não é o caminho. Uma empresa tem que ser responsável. Se nós cedermos hoje por pressão, vamos ceder amanhã, ou abrir a porta para seremos pressionados pelo outro lado”, aponta Gheller, lembrando da pressão pelo cancelamento de uma campanha organizada em 2019 para arrecadar fundos para o polêmico ator José de Abreu, identificado com a esquerda.

O Vakinha fatura com uma comissão sobre o dinheiro obtido, mas campanhas com fins políticos tem um volume irrisório dentro do site, no qual a maioria das ações foca em captação de recursos para fins pessoais, como tratamento de doenças, ou causas como a proteção de animais ou o financiamento de associações.

Nos últimos tempos, a urgência sanitária criada pela pandemia do coronavírus aumentou a quantidade de campanhas, que saltaram de 40 mil mensais para mais de 60 mil.

Os gestores do Vakinha ainda estão discutindo eventuais mudanças no modelo de negócio visando enfrentar situações similares no futuro, e já decidiram que a empresa precisa ter uma comunicação melhor nas redes sociais (a marca tem 20 mil seguidores, mas pouca atividade no Twitter).

“Precisamos falar mais do que a empresa realmente faz, para que quando surja uma situação dessas as pessoas tenham uma dimensão dos propósitos do Vakinha e não aceitem julgamentos injustos”, resume Gheller.

Depois da crise, o perfil no Twitter do Vakinha se tornou mais ativo.

No dia 1, a empresa falou na rede social de uma campanha para ajudar o músico carioca Luís Filipe de Lima, que estava disposto a vender seu violão sete cordas, um instrumento que o acompanha a 25 anos, devido à falta de dinheiro causada pela crise do Covid-19.

A ação arrecadou R$ 90 mil, com 705 doações, bem acima dos R$ 77 mil de Sara Winter.

A primeira resposta foi: "E os 80 mil reais da vakinha da fascista? Já deram uma explicação do que ocorreu?".