Huawei enviou técnicos da China para o Paraná visando solucionar o problema. Foto: Huawei.

A queda do sistema do Tribunal Superior do Trabalho no Paraná, uma falha sem precedentes no judiciário brasileiro, foi causada por uma falha no software de gerenciamento do sistema de armazenagem de dados Dorado 6000 v3 da Huawei.

O fato foi revelado em uma nota técnica do TRT do Paraná divulgada nesta segunda-feira, 09.

De acordo com o texto, a falha era "desconhecida pela fabricante", que deslocou técnicos da China para solucionar o problema.

A falha iniciou no domingo, 01, e uma solução foi encontrada na sexta-feira, 06.

A solução, no entanto, não foi capaz de recuperar os dados, segundo afirma o TRT em nota assinada pelo desembargador presidente do TRT do Paraná, Sérgio Murilo Rodrigues Lemos.

Em paralelo ao trabalho no software de gerenciamento, o TRT já havia iniciado um trabalho de restauração por meio do backup.

O sistema PJe voltou a funcionar na segunda-feira, 09, sem perda de dados.

O PJe deve seguir funcionando em uma estrutura alternativa de armazenamento de dados até que o problema do equipamento da Huawei seja totalmente sanado.

O TRT encerra o texto afirmando que a paralisação não teve origem em invasão dos sistemas do TRT ou do próprio PJe, que é usado por outros tribunais do trabalho.

O PJe, que deixou de funcionar no Paraná inteiro devido à falha, é o sistema de processo eletrônico nacional que substitui os processos físicos na Justiça do Trabalho em todo o país.

Sem o PJe, os advogados não podem entrar com ações nem acessar ou receber notificações dos processos já existentes.

Na quarta-feira, 04, quando deve ter ficado clara a extensão do problema, a presidência do TRT determinou a suspensão de todos os atos processuais, inclusive audiências, sessões de julgamento e leilões, tanto na fase de conhecimento quanto na fase de execução, no âmbito regional.

Algumas varas também decidiram suspender os trabalhos, incluindo a da capital, Curitiba, e a de São José dos Pinhais, município da região metropolitana que é o sexto mais populoso do Paraná.

A crise afeta dezenas de milhares de advogados trabalhistas, um dos ramos de atividade mais populares nas carreiras jurídicas.

Só a Associação dos Advogados Trabalhistas do Paraná, cuja filiação não é obrigatória, tem 1,2 mil sócios, então calculem qual pode ser o número total.

Entre dezembro e maio de 2017, entraram na justiça trabalhista paranaense 35 mil novos processos (a metade em relação ao ano anterior, como consequência da reforma trabalhista), todos eles pelo sistema eletrônico.

A linha Dorado é composta por equipamentos baseados em tecnologia all-flash, o último grito quando o assunto são sistemas de storage. São quatro produtos diferentes na linha, o 6000 é o segundo da lista.

No seu site, a Huawei afirma que o Dorado V3 é projetado para negócios de “missão crítica em empresas”.

Em nota, a Huawei do Brasil afirma que "nenhum dado ou informação foi perdida" e que o sistema é utilizado em todo o país por diversos clientes e nenhum problema similar foi registrado.

"O time de serviços da Huawei continua trabalhando junto ao TRT-PR para concluir o caso", agrega a Huawei do Brasil.

A falha no sistema do TRT, por mais fora da curva que possa ser e tendo em conta que parte da culpa possa recair no próprio tribunal, é uma queimação de filme enorme para a Huawei no Brasil.

É o tipo de coisa que qualquer concorrente lembrará em disputas com os chineses por anos e anos.

A gigante chinesa pode se considerar com sorte se a falha só arranhar a sua reputação no nicho de armazenagem de dados, uma parte pequena do portfólio da empresa, cujo negócio principal está na área de equipamento de telecomunicações.

Vem aí a grande migração para o 5G, e o lobby americano para que o Brasil exclua a Huawei dos possíveis fornecedores pode ter ganho uma ajudinha.