Hora de dizer adeus ao Brasil. Foto: Pexels.

A Sage, multinacional britânica de software de gestão, colocou à venda sua operação no Brasil em novembro do ano passado.

A informação faz parte do relatório anual de resultados da empresa, divulgando recentemente.

“Os gestores da empresa decidiram sair do Brasil após uma revisão estratégica, uma vez que a região vende em grande parte soluções que não tem um caminho para o Sage Business Cloud”, afirma a empresa em um ponto do relatório. “O negócio brasileiro está fora do foco estratégico da Sage”, diz o texto em outro.

A decisão de encerrar a operação brasileira é mencionada em diferentes partes do texto. Os resultados divulgados, por exemplo, já excluem as receitas do país.

De acordo com o texto, a expectativa é concluir a venda até setembro de 2020. Potenciais compradores já foram identificados e as negociações estão em curso.

"Esse movimento faz parte da estratégia de manter o foco nos produtos globais e algumas regiões específicas", afirma a Sage em nota enviada ao Baguete.

Na nota, a multinacional agrega ainda que "continua completamente comprometida com o sucesso da Sage Brasil" e que todas as áreas "continuam a operar normalmente, servindo nossos clientes com a mesma dedicação".

A Sage revela que já assumiu prejuízos de £ 19 milhões com a decisão de vender.

O prejuízo deve ser bem maior, no entanto. A Sage entrou no mercado brasileiro em 2012, ao gastar nada menos do que R$ 398 milhões para comprar 75% da Folhamatic. A empresa comprou os 25% restantes em 2015, mas esse negócio não foi divulgado. Se o novo pagamento foi proporcional ao primeiro, os ingleses gastaram mais R$ 132 milhões.

Apesar da Sage não ter feito muito estardalhaço sobre o assunto no momento, foi o segundo maior negócio do mercado de ERP brasileiro, só atrás da compra da Datasul pela Totvs, em 2008, uma operação de R$ 700 milhões.

Depois, a Sage gastou algo próximo a R$ 50 milhões para adquirir as paranaenses Empresa Brasileira de Sistemas (EBS), sediada em Curitiba, e Cenize Informática, de São José dos Pinhais.

As três empresas adquiridas eram players de sistemas de gestão para escritórios de contabilidade, um tipo de cliente que é usado pela Sage e outros concorrentes como uma porta de entrada em empresas pequenas atendidas por esses contadores.

O produto próprio que a Sage queria emplacar por aqui era o X3, seu ERP na nuvem para pequenas e médias empresas, lançado em 2015.

A Sage queria brigar com softwares da Totvs e do Business One, produto para pequenas e médias da SAP, concorrentes na fatia mais fragmentada do mercado de ERPs no Brasil.

Até onde a reportagem do Baguete pôde averiguar, o X3 nunca decolou para valer no Brasil. No relatório, a Sage informa que o país teve uma receita de £ 53 milhões em 2019, um pouco abaixo dos £ 54 milhões de 2018.

Em 2015, a Sage falou em 10 projetos em curso com o X3. Em 2017, abriu que tinha 23 parceiros de venda no Brasil, sem revelar os nomes.

Mesmo que o número de clientes tenha aumentado 10 vezes, o que parece improvável, ainda seria uma presença ínfima frente ao tamanho do mercado.

Em outubro do ano passado, a Xplor, companhia portuguesa que é uma das maiores parceiras da Sage, criou uma joint venture com a brasileira Grupo TechTrends para vender no Brasil o X3.

Com a união, nasceu a Xplor Latin America, cujo objetivo é tornar-se a maior implementadora no país do X3 até o final de 2020.

O movimento da Xplor pareceu um reforço importante no canal da Sage no país. 

Analisando agora, no entanto, ele parece indicar que a Sage na verdade colocou um grande parceiro no país para cuidar do negócio X3, enquanto tenta vender o resto.

Vender o resto pode ser uma missão difícil. A Sage fez as suas aquisições no Brasil em 2012, antes de crise econômica dos últimos anos, pagando provavelmente um valor que hoje seria considerado inflacionado.

Ao mesmo tempo, nos últimos anos uma série de startups surgiram focados exatamente no mercado que as companhias adquiridas pela Sage atuam. 

Elas tem produtos feitos para rodar na nuvem e dinheiro pesado de fundos de investimentos investido em equipe e marketing.

As duas empresas mais conhecidas dessa nova leva seriam a ContaAzul e Omie, mas existe pelo menos mais uma dezena de outros novos concorrentes, além de todas as outras companhias que já estavam no mercado.

A Sage é uma gigante, com um faturamento de £ 1,93 bilhão em 2019, uma alta de 5%. No Brasil, no entanto, parece que ela tropeçou.